Personalidades que se destacaram revelam desejos para 2021

Publicado domingo, 27 de dezembro de 2020 às 06:05 h | Atualizado em 21/01/2021, 00:00 | Autor: Gilson Jorge

Na noite de 26 de novembro deste ano, Itamar Vieira Junior sentou-se sozinho na casa em que mora com a mãe e o irmão, no bairro de Itapuã, para acompanhar a live, promovida pela Câmara Brasileira do Livro, em que seriam anunciados os vencedores do 62º Prêmio Jabuti.

Quando o seu livro Torto Arado foi proclamado ganhador da categoria Romance Literário, chamou para um efusivo abraço de comemoração os dois familiares, até agora umas das poucas pessoas que o cumprimentaram pessoalmente, por causa dos cuidados provocados pela pandemia.

Não foi propriamente uma surpresa. “Eu concorria com outros quatro autores, então considerava que tinha 20% de chance”, diz o escritor. A conquista do mais importante prêmio literário do Brasil ajuda a pavimentar o sonho desse servidor público baiano de se tornar um escritor profissional.

Um sonho que começou a ser acalentado em 2018 quando o livro, ainda um texto inédito, foi agraciado pelo Prêmio Leya, promovido pela editora homônima, de Portugal. “Meu sonho era publicar e, como eu não conhecia editoras e editores, acabei me inscrevendo no prêmio”.

Ele diz que se inscreveu sem qualquer esperança e já tinha esquecido do assunto quando, seis meses depois, recebeu um telefonema do presidente do júri, o poeta Manuel Alegre, agora com 84 anos.

A partir dessa conquista inicial, seu nome começava a circular nos meios literários, sugiram convites para entrevistas, textos para jornais e revistas, contato de editoras querendo publicá-lo, eventos acadêmicos e, quando todo mundo se recolheu, as lives. Para encerrar com chave de ouro o ano em que nos encerramos em casa, o livro de Itamar foi agraciado também pelo Prêmio Oceanos, do Itaú Cultural e Direção Geral dos Livros, dos Arquivos e das Bibliotecas, da República de Portugal (DGLAB). “Agora, a vacina é o principal sonho. E com um governo decente, porque esse que está aí é uma tragédia”, afirma o escritor.

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A promotora de justiça Lívia Vaz foi escolhida neste ano pela ONU como uma das 100 pessoas de ascendência africana mais influentes do mundo | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE

Planos de realidade

O ano em que mais de um milhão de pessoas morreram pela nova doença que provoca dificuldades respiratórias entrou para a história também com a imagem de um policial norte-americano branco, impávido, enquanto seu joelho sobre o pescoço de George Floyd o asfixiava até a morte.  As últimas palavras do homem negro assassinado em 23 de maio, “eu não consigo respirar”, ecoaram em todo o mundo. 

Desde as marchas promovidas em 1963 por Martin Luther King, autor do famoso discurso Eu tenho um sonho, não se via uma mobilização popular dentro e fora dos Estados Unidos em torno do sonho da igualdade racial. “Vidas negras importam”, disseram americanos, europeus, orientais.

No Brasil da promotora de justiça Lívia Vaz, baiana escolhida pela ONU entre as 100 pessoas  de ascendência africana mais influentes do mundo com atuação no sistema de Justiça, o ano terminaria com um homem negro espancado até a morte por seguranças de um supermercado.

E com o inacreditável resgate de uma mineira negra de 46 anos de um apartamento onde era mantida em regime análogo à escravidão desde que, aos 8 anos de idade, teve a infelicidade de precisar bater naquela porta para pedir um pouco de comida.

A promotora acredita que o sonho de Luther King  é uma utopia e não pensa que viverá para testemunhar um mundo sem discriminação.

“Às vezes, quando me questiono sobre o sentido da luta antirracista e contra a intolerância religiosa, a resposta está no caminhar”, declara a promotora, citando o cineasta e teórico do cinema argentino Fernando Birri: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

A promotora sublinha que houve avanços no caminhar,  como a recente adoção de cotas de 30% para negros nos conselhos da Ordem dos Advogados do Brasil.  Mas ainda há muito o que fazer. “Precisamos trazer a discussão sobre o racismo para o centro das ações, das reflexões, das políticas públicas”, defende.

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Fernando Guerreiro, da FGM: por menos burocracia | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE

A felicidade

Março, mês de aniversário de Salvador, é tradicionalmente quando a cidade começa a despertar depois dos sonhos de verão. Ou da grande ilusão do Carnaval, como diz A Felicidade, música de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Este ano, pouco depois de uma das maiores aglomerações humanas do mundo, os soteropolitanos começaram o isolamento, que em poucas semanas se fez acompanhar da dramática contagem de casos de Covid e de mortes relacionadas à doença.

Se a maior parte da população foi drasticamente afetada pela súbita mudança de rotina e pelo risco de adoecer física e mentalmente, artistas e cientistas começavam um pesadelo sem precedentes.

Os últimos, enquanto começavam a produzir conhecimento sobre a nova doença, tinham que combater as fake news e o discurso desacreditador da ciência.

Os primeiros, sem público presencial, tinham que descobrir maneiras de sobreviver. Seja por editais, lives patrocinadas ou diretamente com pedidos de doações.  Sem conseguir viabilizar shows online, a cantora carioca Ângela Ro Ro chegou a pedir que os seus fãs depositassem dinheiro em sua conta-corrente.

O dramaturgo Fernando Guerreiro, presidente da Fundação Gregório de Mattos, lembra as noites mal dormidas do mês de março, quando teve que começar a articular possibilidades de recursos para a classe artística.

 “Foi a primeira categoria profissional a deixar de trabalhar e vai ser a última a voltar”, destaca Guerreiro, que descreve a experiência daqueles dias iniciais de pandemia como uma gincana. Um estado de pressão constante que começou a dar algum alívio em agosto, quando o governo federal regulamentou a Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural.

Coletivo

A legislação estabeleceu, entre outras coisas, o pagamento de três parcelas mensais de R$ 600 para trabalhadores do setor cultural que tiveram suas atividades interrompidas pela pandemia.

O presidente da FGM considera-se um ser gregário e diz que, se sempre gostou de trabalhar em equipe, este ano resultou particularmente satisfatório sentir-se parte de um coletivo. “As pessoas colaram comigo”, comemora.

Como sonho a se cumprir, Guerreiro declara que, se continuar à frente da fundação na nova gestão municipal, enxerga dois grandes objetivos para o setor.

O primeiro é alcançar um modelo de monetização das plataformas digitais por parte dos artistas, depois da explosão de oferta de bens culturais online durante a pandemia.

Outro objetivo é fazer com que haja uma maior adequação entre a burocracia dos editais e a classe artística.  “Temos que ver se é possível reduzir a burocracia, mas os produtores culturais também precisam entender que há regras. O dinheiro não é meu, e preciso prestar contas”.

No plano pessoal, Guerreiro destaca que nunca o medo de morrer e de perder pessoas queridas esteve tão presente.  “Eu vivi os anos 80, com o surgimento da Aids.  Mas a gente sabia como se proteger. Agora, a morte pode chegar por qualquer lado”. 

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A psicóloga Laíse Andrade, voluntária da Rede Covida | Foto: Shirley Stolze | Ag. A TARDE

Mudanças

Professora do Instituto de Saúde Coletiva da Ufba e especialista em saúde mental, a psicóloga Laíse Andrade avalia o efeito psicológico a que todos nós nos submetemos desde que as escolas, lojas e parques começaram a fechar e todo mundo passou a se ver como um potencial transmissor de uma ameaça mortal e invisível, o coronavírus.

“Foi uma mudança muito abrupta nas nossas rotinas, uma mudança absurda”, afirma a psicóloga, mãe de dois adolescentes, que entrou como voluntária da Rede Covida, um grupo de pesquisadores da Ufba e da Fiocruz, que desde março se debruça sobre todo o conhecimento científico que vem sendo produzido mundo afora a respeito da Covid.

“Meu sonho, como pesquisadora, é trazer informação útil à sociedade”, afirma Laíse. No último dia 17, a Rede Covida lançou o e-book Construção de conhecimento no curso da pandemia de Covid-19, que pode ser acessado no site redecovida.org.br.

 Além dos cuidados de prevenção física para evitar o contágio, a psicóloga ressalta a importância de se dormir bem para atravessar o período de quarentena.

“Pessoas com insônia constante têm quatro vezes mais chances de adquirir transtornos psicológicos”, explica a professora, ressaltando que se a sociedade como um todo já apresentava números expressivos de ansiedade e depressão, a pandemia atingiu em cheio a saúde mental de equipes de saúde, com profissionais sobrecarregados de trabalho e com diminuição das horas de sono.

Se o sonho de retorno à normalidade passa pela vacina, a sanidade durante a espera pode depender de conseguir colocar a cabeça no travesseiro e descansar. 

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