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Roque Ferreira: "Respeitem o samba"

Publicado sábado, 21 de setembro de 2013 às 12:34 h | Atualizado em 21/09/2013, 12:34 | Autor: Fabiana Mascarenhas
O sambista Roque Ferreira
O sambista Roque Ferreira -
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Ele tem o samba como religião e é um dos poucos compositores brasileiros que vivem exclusivamente de direitos autorais. Aos 66 anos, Roque Ferreira se permite falar tudo o que pensa sem medo das consequências. E ele tem muito a dizer. Na sua metralhadora cheia de mágoas, há críticas ferozes ao que ele chama de desrespeito dos baianos à tradição deste ritmo, ao monopólio da axé music, a ídolos como Ivete Sangalo e Carlinhos Brown e até à cantora Roberta Sá, que gravou um álbum inteiramente baseado em sua obra, Quando o canto é reza. Uma das maiores queixas do sambista diz respeito ao fato de, na Bahia, não existir sequer  uma casa dedicada ao gênero. Gravado por nomes como Clara Nunes, Maria Bethânia e Zeca Pagodinho, Roque também se nega a compor para artistas que não representam aquilo em que acredita, mesmo que isso signifique um aumento considerável em sua conta bancária. E é essa autenticidade que poderá ser vista em um CD que o compositor começou a gravar este mês. Um trabalho que representa o samba verdadeiro, como ele mesmo faz questão de deixar bem claro.

O senhor nasceu no Recôncavo baiano (Roque é de Nazaré das Farinhas), um dos berços do samba de roda. O gosto pelo ritmo surgiu dessa influência?
Não. Vim para Salvador muito cedo, quanto tinha 2 anos, e não voltei mais para Nazaré das Farinhas. Não conhecia a cidade, só voltei lá no ano passado. Na verdade, gostava de samba desde garoto. Adolescente, já fazia músicas, mas só mostrava aos amigos íntimos porque achava que não tinha condições de serem gravadas. Quando comecei a ir aos shows de artistas como Batatinha e Ederaldo Gentil, vi que o trabalho deles  não era muito diferente do meu. Isso me estimulou a compor e comecei a gravar. Hoje tenho mais de 400 músicas gravadas.

A primeira música que o senhor compôs foi um fado. Por quê?
Engraçado que não sei. Eu  compus essa música chamada Enfado. Tinha uns 16 anos.  A canção ficou guardada até que, há uns três anos, Jota Velloso gravou.  Depois comecei a fazer samba  e não parei mais.

Clara Nunes foi a primeira artista que gravou uma música sua. Como começou essa relação?
Estava passando uma temporada no Rio e um amigo me chamou para ver um show dela. Foi assim que a conheci e comecei a mandar músicas. Ela gravou Apenas um adeus, que está no disco Clara Esperança. Para mim, foi excelente ter uma pessoa como ela, que eu ouvia e admirava, gravando algo meu. Depois, ela gravou uma música minha chamada Coração valente em outro disco. Acho que se a Clara não tivesse morrido, teria gravado outras.


Soube que o senhor quase bateu o telefone na cara de Maria Bethânia em uma certa ocasião. Isso é verdade?
(Risos). Foi. Tomei o maior susto. Eu morava no Canela, meu telefone tocou e eu ouvi aquela voz grave do outro lado: "Roque Ferreira, é Maria Bethânia". Eu pensei que era um trote e já estava pronto para dizer um monte de liberdade, mas aí ela disse: "Clara me disse que você não ia acreditar" (Clara, irmã de Jota Velloso). E só acreditei por isso. Comecei a mandar uns sambas para ela e temos amizade até hoje. Esta semana mesmo, já mandei música para ela. Para mim, é uma realização enorme. Nos últimos discos dela - os CDs Tua e Encanteria, lançados em 2009 -, ela gravou sete músicas minhas.

Leia a íntegra da entrevista na edição deste domingo.

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