Talibãs celebram vitória após saída dos EUA do Afeganistão

Publicado terça-feira, 31 de agosto de 2021 às 16:02 h | Atualizado em 31/08/2021, 16:05 | Autor: David Fox | AFP

Os talibãs celebraram nesta terça-feira, 31, a saída dos últimos soldados americanos do Afeganistão, uma imagem que encerrou 20 anos de uma guerra devastadora e abre um novo capítulo, marcado por grande incerteza.

A retirada americana foi considerada um êxito "histórico" pelo grupo Talibã, que assumiu o controle de Cabul em 15 de agosto e derrubou o governo afegão após uma ofensiva relâmpago em todo país.

As tropas dos Estados Unidos invadiram o Afeganistão em 2001, na liderança de uma coalizão internacional, para derrubar os talibãs, que se recusavam a entregar o líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, após os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos.

"Felicitações ao Afeganistão (...) Esta vitória pertence a todos nós", declarou o porta-voz dos radicais islâmicos, Zabihullah Mujahid, no aeroporto de Cabul, que foi controlado até segunda-feira, 30, pelas forças americanas.

"Esta é uma grande lição para outros invasores e para nossas futuras gerações. Também é uma lição para o mundo", disse Mujahid. "É um dia histórico, um momento histórico, e estamos muito orgulhosos", completou.

Na manhã desta terça-feira, os talibãs retiraram quase todos os postos de controle no caminho para o aeroporto - apenas um foi mantido. Nas estradas, os combatentes não escondiam a alegria e cumprimentavam os motoristas.

As imagens dos líderes talibãs caminhando vitoriosos pelos hangares do aeroporto, escoltados por milicianos armados que exibiam a bandeira branca do movimento, enquanto posavam para câmeras, ao lado dos helicópteros destruídos pelos americanos antes da retirada do país, resumem o novo capítulo que começa no país.

Na cidade de Kandahar (sul), a segunda maior do país e reduto dos pashtuns, etnia à qual a maioria dos talibãs pertence, também foram registradas comemorações nas ruas "Derrotamos a superpotência. O Afeganistão é o cemitério das grandes potências", afirmaram homens armados.

Desde que assumiram o poder, os talibãs se esforçam para apresentar uma imagem conciliadora e aberta, prometendo não aplicar represálias contra as pessoas que trabalharam para o governo anterior. "Queremos boas relações com os Estados Unidos e com o mundo", garantiu Zabihullah Mujahid nesta terça-feira.

Gosto amargo

Após duas semanas de retiradas precipitadas e em alguns momentos caóticas, o último avião de transporte militar C-17 decolou do aeroporto na segunda-feira, 30, pouco antes da meia-noite em Cabul (16h29 de Brasília), anunciou em Washington o general Kenneth McKenzie, que dirige o Comando Central dos Estados Unidos.

A retirada americana foi concluída 24 horas antes da data-limite estabelecida pelo presidente Joe Biden, para quem este dia tem um gosto amargo. O democrata discursará nesta terça-feira aos americanos, e muitos se questionam para que serviram as duas décadas de presença no Afeganistão.

Embora o objetivo de neutralizar Osama Bin Laden tenha sido concretizado em 2 de maio de 2011, quando as forças especiais americanas mataram o líder da Al-Qaeda no Paquistão, as tropas dos Estados Unidos permaneceram no Afeganistão - sobretudo, para formar um Exército afegão que rapidamente desapareceu diante do avanço dos talibãs.

No total, os Estados Unidos registraram 2.500 mortes e uma conta de US$ 2,3 trilhões em 20 anos de guerra, de acordo com um estudo da Brown University.

Além disso, o país deixa o Afeganistão com a imagem abalada por sua incapacidade de prever a rapidez da vitória dos talibãs e pela maneira como a retirada foi organizada.

- Quase 123.000 deixaram o país -Desde 14 de agosto e durante 18 dias, aviões dos Estados Unidos e de países aliados retiraram quase 123.000 pessoas do Afeganistão, segundo o Pentágono.

O retorno dos islamitas ao poder obrigou os países ocidentais a retirarem seus cidadãos, mas também os afegãos que trabalharam para países e organizações estrangeiras e poderiam ser alvo dos talibãs.

A grande operação de retirada a partir do aeroporto de Cabul foi manchada de sangue em 26 de agosto com o atentado suicida reivindicado pelo grupo extremista Estado Islâmico de Khorasan (EI-K). Deixou mais de 100 mortos, incluindo 13 soldados americanos.

Grande inimigo do Talibã, o EI-K pode prosseguir como uma ameaça e executar novos ataques no país.

O Pentágono anunciou que evitou, no domingo (29), um atentado com carro-bomba do EI-K contra o aeroporto ao destruir, com um drone, um veículo que estaria lotado de explosivos.

Este ataque aéreo pode representar o epílogo da longa lista de tragédias com mortes de civis que marcou as duas décadas de intervenção americana e provocou a perda de apoio local.

Membros de uma família de Cabul disseram à AFP que um erro fatal foi cometido, e 10 civis morreram no ataque.

- Medo de um recuo -O governo dos Estados Unidos continuará "ajudando" todos os compatriotas que desejarem sair do Afeganistão, afirmou na segunda-feira (30) o secretário de Estado, Antony Blinken, acrescentando que os EUA "trabalharão" com os talibãs, caso cumpram seus compromissos. 

"Os talibãs querem legitimidade e apoio internacional. Nossa mensagem é que legitimidade e apoio precisam ser merecidos", completou.

Na segunda-feira, os militares americanos admitiram que não conseguiram retirar todas as pessoas que desejavam, um fracasso que foi criticado pela oposição republicana.

Entre 100 e 200 americanos ainda estariam no Afeganistão, segundo Blinken. 

O aeroporto de Cabul tem uma "importância existencial" para o Afeganistão e para o apoio médico e humanitário, declarou a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, nesta terça-feira.

O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, também disse que é "essencial" manter o aeroporto de Cabul aberto e prometeu não esquecer os que tentam fugir do regime talibã.

Os talibãs estão negociando com a Turquia para que o país administre a logística do aeroporto, mas os islamitas querem garantir a segurança do local, algo que pode dissuadir o governo turco de seguir adiante com o plano.

O movimento islamista herda um país devastado, apesar dos bilhões de dólares investidos pelos Estados Unidos, em meio a uma pobreza extrema, seca e ameaça jihadista.

Além disso, os novos governantes também terão de enfrentar os receios de grande parte da população, que teme um novo regime fundamentalista como o imposto entre 1996 e 2001. Este período é tristemente lembrado pelo tratamento reservado às mulheres, pela proibição das liberdades básicas e pela brutalidade de seu sistema judicial.

"Temos o direito de dirigir o próximo governo. E seguimos comprometidos com a formação de um governo representativo", insistiu Mujahid.

Os talibãs afirmaram que pretendiam anunciar a composição do governo após a saída militar americana.

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