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A política e a crise em carne e osso

Publicado sexta-feira, 10 de julho de 2015 às 12:48 h | Atualizado em 10/07/2015, 12:48 | Autor: Paulo Fábio Dantas Neto | Cientista político e professor da Ufba | [email protected]
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Ao final de artigo publicado neste espaço em junho, prometi seguir discutindo resultados e não resultados de recente congresso do PT. A conjuntura roubou a relevância do assunto. E também o ex-presidente Lula, ao desqualificar virtuais resultados do evento, afirmando, logo após ele findar, que o PT precisa de uma "revolução". O ziguezague posterior do seu discurso responde à pergunta sobre por que não defendeu essa tese no próprio congresso petista. Ao dilema de ser ou não ser governo, que alimenta há meses, Lula adiciona o de ser ou não ser PT. Dilemas retóricos, pois é cada dia mais clara sua impossibilidade de diferenciar-se do governo ou do partido. Só se Dilma renunciar ou cair, o PT imergir e o ex-comandante sobreviver, sabe-se lá como.

Não há Lula sem PT e a recíproca é verdadeira. Sem o protagonismo de Lula, o PT pode, no máximo, ser coadjuvante. A lógica não é idêntica para o governo. Mesmo embaraçado pelo lulismo, por áreas do petismo e pela própria presidente, ele pode deixar a posição de coadjuvante passivo se revogar a lenda do fundamentalismo petista de que o PMDB atrapalha e reconhecer que sem o PMDB não é provável qualquer governo Dilma e, sim, a imolação da presidente.

A política real impõe o desvio do foco do PT e de Lula para o PSDB e seu presidente, Aécio Neves. O motivo é que o PSDB, embora venha sendo, como o PT, incapaz de atuar com unidade efetiva, está em posição de causar estragos, em futuro próximo, à diferença do seu "outro" funcional, cuja obra contraditória está pronta e sendo julgada, negativamente, em várias arenas, não só no Judiciário.

Aécio circunscreve seus movimentos ao lugar do "outro" de Dilma, insistindo em competição já finda, o que só faz apequená-lo. Após a convenção tucana, deu mostras de não estar levando a crise política e econômica tão a sério e de que não enxerga além do próprio umbigo. Caso contrário não proporia a cassação da presidente e seu vice e a realização de novas eleições. Não é difícil medir a inconsequência disso em ambiente político conturbado com o governo nas mãos do presidente da Câmara. As chances de tal saída ocorrer são remotas, mas vale perguntar: que aposta é essa?

Penso que o PSDB já perdeu a condição de liderar uma saída negociada para a crise. No máximo, ponderações como as de FHC e Serra, se ouvidas, afinal, podem fazer com que a saída encontrada não inviabilize o futuro eleitoral do tucanato.

Já o PMDB, sob a liderança de Michel Temer, está em posição de viabilizar essa saída. Quem tenta afastar Temer pela via judicial (PSDB aecista) trabalha contra ele no governo (lulismo e petismo "de esquerda") ou, no Congresso (Eduardo Cunha), aposta, com objetivos e gradações diferentes, no recrudescimento da crise. Cunha, aliás, tem sido criticado por posições "conservadoras" (considero-as reacionárias) em religião, costumes e direitos civis, como se fosse um político ideológico. Preocupa-me mais o Cunha despótico, que tenta fazer da Câmara arena plebiscitária, quando a vocação da instituição é negociação e formação de consensos.

As forças do confronto aparentam ser maiores que as do PMDB de Temer, tucanos mais ponderados, setores do PSB e raros ministros petistas, como Eduardo Cardoso. Intolerantes de vários matizes e objetivos eleitorais a granel somam-se em coalizão informal de veto ao entendimento. Mas a crueza crescente da crise econômica e social pede soluções urgentes para pessoas reais, de carne e osso.

É pertinente ao contexto o mote de Keynes de que a longo prazo todos estaremos mortos. Na democracia, tende a prevalecer quem souber que a política não tem salvação se não produzir saídas objetivas para as crises. E, no caso dessa, vai ficando claro que não haverá nítida demarcação entre vencedores e vencidos. A opção política hoje é conciliação ou tragédia.

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