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Compaixão e turma de Ali Babá

Publicado quinta-feira, 02 de abril de 2015 às 08:04 h | Atualizado em 19/11/2021, 06:46 | Autor: Ruy Espinheira Filho | Escritor, pertence à Academia de Letras da Bahia | [email protected]
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Já havia eu escrito artigo sobre o assunto, quando vi que dois leitores de A TARDE, Luiz A. Costa, em 23/03, e Walter Barreto de Alencar, em 29/03, já haviam escrito, cada um à sua maneira, estranhando que a ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, julgadora dos processos da Operação Lava Jato, houvesse declarado que fará os julgamentos "sem paixão e com compaixão", observando eles que o julgador deve sempre agir sem paixão ou compaixão, pois deverá ater-se à prova dos autos e segundo o apelo de sua consciência jurídica.

Eu havia escrito coisa semelhante, mas as cartas saíram antes e faço minhas suas palavras. Quanto à "compaixão", observei que a justiça brasileira vem sendo compassiva demais nos últimos tempos. Quando se trata de caso como o daquela mulher que pegou uma lata de leite sem pagar, num supermercado, para matar a fome do filho, ela age duramente, de forma até chocante. O episódio teria sido ainda mais hediondo se não fosse a denúncia da imprensa. Tratava-se de claro estado de necessidade, mas a compaixão ficou muito longe...

Por outro lado, a compaixão no caso do mensalão acabou funcionando bem, tanto que as penas mais duras foram aplicadas aos não-políticos. O que não deixa de ser estranho, pois se não fosse a corrupção política nada daquilo teria acontecido. E também o político tem a obrigação de ser mais correto do que o homem comum, pois assumiu compromisso de defender o bem público. No mais, a ministra deve levar em conta que a turma investigada do Lava Jato jamais sentiu nenhuma compaixão pelo país em suas bilionárias festanças na caverna de Ali Babá.

Aliás, prosseguindo no tema bandidagem, disseram que as recentes medidas da presidente Dilma de combate à corrupção são antibióticos leves demais para a gravidade da doença. Acho que sim, as providências têm que ser bem mais amplas e pesadas. Mas do pacote atual algumas coisas já me animam - como (a) o confisco de bens provenientes de enriquecimento ilícito e (b) a investigação da incompatibilidade de ganhos e bens de funcionários públicos.

Penso, em especial, no caso do funcionário - já que vereadores, deputados, secretários, governadores são funcionários públicos, como deputados federais, senadores, ministros, presidentes da República. Ora, pelo que se constata, não mais do que um por cento desses tais deixa o exercício de tais cargos sem uma bela gordura extra em suas finanças. A coisa é tão cínica que eles mesmos - ou suas deslumbradas esposas - logo se vangloriam de compra de terras, iate, apartamentos de milhões, quando se sabe que chegaram aos seus cargos sem nada disso e o salário que receberam jamais poderia causar tais "evoluções". E muito me impressiona que, ouvindo tais garganteios, nenhum repórter se anime a perguntar: "Com que dinheiro, Excelência?"

Bem, agora investigadores podem - e devem - perguntar. Alguns tentariam se justificar com empréstimo de familiares (que não têm dinheiro), e amigos (tão modestos que jamais se mostram) e patranhas que tais. Enfim, caça não falta para os que resolverem caçar com o pacote anticorrupção devidamente engatilhado. E que seja uma caçada sem nenhuma compaixão.

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