Editorial - Entre a vida e a morte

Publicado quinta-feira, 23 de setembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 22/09/2021, 21:57 | Autor: Da Redação

Pressupondo a defesa da vida como necessária para a felicidade de uma nação, a cidadania brasileira enfrenta mais uma ocorrência originada de gestão federal vacilante em relação à saúde coletiva: a interrupção da assistência a dois milhões de portadores dos vários cânceres. O cálculo corresponde, como desdobramento, a curto prazo, da redução de 46% das verbas do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, afetando o tratamento de pessoas em situação de risco, em todas as regiões do Brasil.

A curiosidade produz inevitável questionamento, por força de raciocínio lógico: a quem interessa parar a produção dos remédios, sem os quais não se pode vencer a doença, cujo enfrentamento teria de acontecer, necessariamente, com a importação de radiofármacos? Dirigentes da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear vieram a público externar sua dificuldade de compreensão de uma mecânica de mercado estranha ao contexto de atendimento à demanda dos contribuintes, de onde provêm os recursos da União.

Entre aceitar o determinismo do Ministério da Ciência e Tecnologia, órgão responsável por distribuir as verbas, e a liberdade de denunciar e lutar para salvar os doentes, os médicos preferiram esta segunda opção, atuando com velocidade para tentar evitar o sofrimento geral. Nos cálculos emergenciais, são necessários quase R$ 90 milhões a fim de continuar a fabricação de insumos até o fim de dezembro, considerando como obstáculo a alta do preço do dólar para importação de parte do material.

O Congresso Nacional precisa aprovar sem demora um aditivo como forma de cobrir as bruscas subtrações impostas pelo texto da Lei Orçamentária Anual, mas não se verifica mobilização entre os parlamentares visando promover o reparo imediato. A supressão do investimento sugere repensar as prioridades do país, com o aprimoramento da capacidade de julgar as ações do Estado brasileiro, escolhendo, uma vez mais, diante da iminência da morte, se vale a pena trancar o cofre, quando o efeito seria cavar sepulturas.

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