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Terrorismo, linguagens e vaidades

Publicado quarta-feira, 23 de dezembro de 2015 às 09:25 h | Atualizado em 23/12/2015, 13:41 | Autor: Marcos Luna | Médico pós-graduado na Harvard University e Ufba | [email protected]
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O olhar resoluto e temeroso do presidente Hollande no comunicado televisivo imediato aos genocídios nas ruas de Paris disseminou sinais ambíguos advindos de um homem liderança mundial, mas ainda assim um ser humano em suas contingências. Desde há muito tempo, quando as sociedades ainda revelavam suas vulnerabilidades materiais e resolviam as suas diferenças ideológicas ou culturais através da barbárie, chefes de governos imperadores nutriam a si mesmos com a gestalt da arrogância sobre as maiorias dos comuns. Em nome dos deuses e mistérios, expressavam prepotência com inclemente violência desumana tergiversando uma ontogênica fragilidade, pois a existência era ameaçada pela natureza e agentes patológicos, que o conhecimento ainda não dominara.

Desde os tiros em Columbine há alguns anos nos EUA, o governo e a sociedade se revolvem em humores fúnebres da violência fratricida dilacerante - como agora na Califórnia -, porquanto paradoxal ao nível civilizatório da potência tecnológica, econômica e social mais poderosa desde sempre (?!). O presidente Obama, altivo, vem enfrentando o lobby das associações armamentistas et caterva respaldadas na Constituição, que prescreve o direito de defesa pessoal e propriedade com olho por olho, dente por dente do seu cidadão. Esta reconstituição federal restritiva do acesso às armas pelos americanos certamente seria significativo legado da administração na Casa Branca refletindo urbi et orbi.

Um salto no tempo nos permitirá reconhecer as inúmeras conquistas dos seres humanos, mormente na sobrevivência planetária - nada obstante a depredação dos ecossistemas -, a medicina preventiva e curativa, a formação de cooperativas produtivas, a diplomacia nos conflitos geopolíticos e econômicos. Insanidade é continuar fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes (Einstein). Entretanto, o olhar clínico queimando as superfícies aparentes das linguagens midiatizadas dos estadistas, dos déspotas e áulicos na contemporaneidade, desnuda a condição humana terminal: a vaidade ambiciosa contaminando multidões sequiosas de autoridade como nos experimentos de obediência. A submissão do homem ordinário àqueles - e suas máquinas de poderes destrutivos - transcende a sua própria percepção do Bem e do Mal. Os sistemas geram monstruosidades a partir de pessoas banais (Hannah Arendt).

Contemplemos a comunicação verbal e as decisões beligerantes do presidente francês nas últimas semanas, com a escalada do contencioso étnico-político militarizado na Europa e Oriente Médio: a retaliação vingativa com o rationale primitivo de resgatar a honra e a segurança de seu povo por meio de sua aparência poderosa. Conquistará as cinzas da degradação e escombros de milhares de seres vivos e objetos inanimados... As classes médias não prescindem da dialética transformadora dos preconceitos arraigados e propósitos de dominação perversa. As mídias pertencentes às plutocracias disseminam os discursos da hegemonia e poder excludente, fascista desumanizador. A linguagem está no centro de todo o pensamento com uma estrutura lógica subjacente que reflete a estrutura lógica de poder no mundo (Wittgenstein). Os interditos nos noticiários nacionais significam aquilo que deveria ser reportado de fato; fosse o (des) compromisso do jornalismo de relatar os fatos como eles estão no mundo. No final dos tempos estaremos todos mortos... e desvanecidos perante as nossas finitudes existenciais, ansiando pela pulsação vital naturalmente fecundada através da evolução biológica natural, com as nossas biografias individuais e histórias coletivas nesse mundo de seres humanos e suas contradições. Devemos pagar pelos nossos erros se quisermos nos ver livres deles; então poderemos dizer que tivemos sorte (Goethe).

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