À CPI, Osmar Terra diz que não aconselhou Bolsonaro sobre imunidade de rebanho e nega gabinete paralelo

Publicado terça-feira, 22 de junho de 2021 às 13:17 h | Atualizado em 22/06/2021, 20:14 | Autor: Da Redação

O deputado federal e ex-ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB-RS) negou a participação em um gabinete paralelo de aconselhamento ao Governo Federal sobre medidas sanitárias de combate à Covid-19, e afirmou que o isolamento não é capaz de reduzir o contágio e suficiente para evitar a contaminação.  Em depoimento à Comissão Parlamenter de Inquérito (CPI) da Covid nesta terça-feira, 22, ele creditou toda a responsabilidade do enfrentamento da pandemia aos prefeitos e governadores e disse que o presidente Jair Bolsonaro pouco pôde fazer para minimizar a crise sanitária.

Segundo ele, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou que estados e cidades pudesse decidir sobre medidas restritivas, tirou toda a autonomia do presidente e "limitou" o seu "poder" de condução do governo frente à pandemia.

Omar Terra foi bastante contestado pelos senadores de oposição da Comissão sobre as projeções feitas por ele no início da pandemia, no primeiro semestre do ano passado. O relator Renan Calheiros (MDB-AL) exibiu diversos vídeos em que o ex-ministro minimiza as consequências da doença e minimiza o potencial de mortalidade do vírus. Em publicação na rede social à época, o deputado afirmou que o novo coronavírus mataria menos do que a gripe suína e o H1N1, por exemplo. 

Em sua defesa, o parlamentar assegurou que as suas opinião tinham como base os dados acessíveis à época, diferente do conhecimento que se tem hoje em dia. Ele argumentou que "todas as pandemias" costumam acabar em um prazo muito menor do que tem perdurado a da Covid-19, e que na história sempre cessou com a "imunidade coletiva".

A imunidade adquirida pela contaminação, somada ao aceleramento da vacinação, segundo Osmar, que serão responsáveis por colocar um ponto final no descontrole epidemiológico no Brasil.

Ex-secretário de Saúde do Rio Grande do Sul, o deputado admitiu que foi surpreendido com as mutações do coronavírus, que segundo ele foram o principal motivo para o recrudescimento da doença no Brasil e em todo o mundo.

Em determinado momento, Terra lamentou que neste período grave que o país passa, a "política infectou a ciência", o que foi rebatido pelo presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), que disse que foi justamente pessoas como o ex-ministro que contaminaram a ciência com o seu negacionismo.

Indagado sobre a sua relação com alguns nomes que aparecem nas reuniões do Palácio do Planalto com o governo Bolsonaro, como com o virologista Paulo Zanotto e a oncologista Nise Yamaguchi, Omar afirmou que nunca foi próxima e os encontrou somente naquela ocasião ou em raros momentos.

Segundo Osmar Terra, o presidente Jair Bolsonaro nunca pediu o seu conselho para adotar a estratégia de "imunidade de rebanho" ou qualquer outro assunto relacionado à doença, e que os seus comentários sempre foram no espectro da "opinião" como deputado, sem ter qualquer tipo de "influência" sobre a presidência.

"Gosto do presidente, tenho simpatia por ele. Quando, de vez em quando, ele me pergunta alguma coisa ou eu acho que tenho que falar alguma coisa, eu falo. Mas são opiniões pessoais. O presidente julga as coisas do jeito que ele quer. Ele não é teleguiado por ninguém. Eu não tenho poder sobre o presidente. Não tem cabimento uma coisa dessas. Isso não quer dizer que tem gabinete paralelo, estruturas paralelas. Isso é uma falácia. É um absurdo, uma ficção", declarou o ex-ministro.

O senador baiano Otto Alencar (PSD), e Alessandro Vieira (Cidadania-SE), rebateram Osmar Terra. Vieira pediu questão de ordem para apelar para que a CPI não se tornasse naquele momento "palco para a desinformação". Otto, por sua vez, disse que um país com a "dimensão do Brasil" é impossível atingir esse nível de imunidade coletiva sem a devida vacinação.

"O controle da doença se perdeu pelo que ouvimos aqui. O senhor [Osmar Terra] falando em imunidade de rebanho por contaminação. Sabe o que significa isso? Em um país da dimensão do Brasil, só se consegue por vacinação. Se fosse para conseguir com “imunidade de rebanho, morrendo de 2,5% a 3% da população, faça a conta para saber quantos óbitos iríamos ter no Brasil", provocou.

Ao colocar em dúvida a eficácia do isolamento e das medidas de restrição, citando países onde supostamente a estratégia foi a de não fechar o comércio e as atividades em geral e em certo ponto dizer que o "contágio familiar" contribuiu para aumentar os níveis de infecção, novamente Osmar foi interrompido por Omar Aziz. 

O presidente da Comissão lembrou que em seu estado, o Amazonas - um dos mais afetados pela doença -o pico de mortes por Covid-19 se deu justamente quando o governador Wilson Lima decidiu afrouxar as normas restritivas.

"Responsabilizo por essas mortes no Amazonas aqueles que foram contra o lockdown. Podem estar até festejando porque se abriu o comércio. Mas cada pessoa que foi para a rua, cada pessoa que comemorou no Twitter ou no Facebook não tem o direito de deitar num travesseiro e dormir tranquilamente. São cúmplices de assassinato do povo amazonense", disse.

DEFESA - A despeito das críticas, houve também quem defendesse Osmar Terra. O senador governista Eduardo Girão (Podemos-CE) seguiu a opinião do ex-ministro ao responsabilizar governadores e prefeitos pelo resultado diante da pandemia. Como é rotina nas sessões, o emedebista citou casos de corrupção e compras mal sucedidas de equipamentos de saúde.

O senador Marcos Rogério (DEM-RO) exibiu um vídeo do médico Dráuzio Varella, produzido ainda em janeiro de 2020, antes do primeiro caso da doença no Brasil, no qual o médico diz que a doença será como uma "gripezinha" na maior parte das pessoas. A fala do médico renomado, segundo o senador, prova que "todos podem errar", principalmente quando ainda não existe consenso científico sobre a questão.

"Um homem altamente qualificado e influente não acertou em todas as suas previsões logo no começo da pandemia. Não é privilegio de uma só pessoa errar. Aliás, muitos erraram. Para não dizer, todos erramos de certa forma em relação a essa pandemia. O mundo inteiro errou e continua errando porque não existem respostas seguras sobre diversas questões. Todos erraram buscando acertar. Mas erraram", opinou.

Nesta quarta-feira, 23, a CPI não tem depoimento, mas vota os requerimentos dos senadores, dentre eles os que pedem a convocação das empresas Facebook, Google e Twitter, para que falem sobre as publicações sobre a doença neste período no país, inclusive com a censura de matérias sobre tratamento precoce e cloroquina.

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