Morte de militante no Paraná acende alerta entre pré-candidatos

Políticos baianos reforçam tradição de boa convivência no estado, mas não escondem apreensão

Publicado sábado, 16 de julho de 2022 às 00:00 h | Atualizado em 15/07/2022, 23:51 | Autor: Alan Rodrigues
Marcelo Arruda, militante petista, foi morto quando comemorava o aniversário de 50 anos
Marcelo Arruda, militante petista, foi morto quando comemorava o aniversário de 50 anos -

A morte do Guarda Municipal Marcelo Aloysio de Arruda, em Foz do Iguaçu, acendeu o alerta para os riscos e a necessidade de cuidados adicionais nas campanhas dos pré-candidatos à presidência. Marcelo, militante petista, comemorava o aniversário de 50 anos quando foi morto pelo policial penal federal José da Rocha Guaranho, bolsonarista com várias postagens nas redes sociais, que invadiu a festa armado e gritando “aqui é Bolsonaro”.

Apesar da polarização em questão se referir diretamente aos dois principais pré-candidatos à presidência, militantes e pré-candidatos a Governo, Senado e Câmara na Bahia demonstram preocupação com o estado de ânimo de eleitores mais radicais e, diante de ataques já registrados em atos políticos pelo Brasil – como ataque com drone a um evento em Uberlândia (MG) ou a bomba caseira atirada em militantes petistas no Rio -, as coordenações das campanhas locais buscam reforçar a segurança e reduzir ao máximo a vulnerabilidade dos seus pré-candidatos.

A preocupação é maior entre os partidos de esquerda, alvos preferenciais do discurso beligerante do presidente Bolsonaro, que, mesmo diante da tragédia em Foz do Iguaçu, insiste em classificar seus opositores como violentos. Prova disso é que aliados e apoiadores do presidente - e mesmo aqueles que procuram aparentar neutralidade -, não demonstram apreensão diante do acirramento da disputa, que escapa do confronto de ideias para descambar em violência e ameaças.

Para o cientista político Cláudio André de Souza, professor de ciência política da Universidade Católica do Salvador (UCSal) e colunista de A TARDE, a escalada de violência na política pode ser analisada a partir das eleições de 2018. “A polarização eleitoral durante décadas não causou nenhum grande embaraço à política brasileira, envolvendo PSDB e PT como protagonistas da disputa presidencial”, recorda Cláudio. Para ele, a chegada de Bolsonaro ao poder inaugurou um momento de maior radicalização entre seus apoiadores. “A ascensão do bolsonarismo, ela foi de fato responsável por esse aumento do ódio na política, numa perspectiva também de um discurso de Bolsonaro, muito frontal, de eliminação dos adversários, de aniquilamento das ideias, das divergências”.

Para o professor, esse processo começou alguns anos antes, com o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), mas ganha escala com as ideias disseminadas pelo presidente. “A gente não pode deixar de considerar o discurso armamentista de Bolsonaro, de já ter sido um deputado a favor de grupo de extermínio. O que acontece em Foz é resultado da radicalização do bolsonarismo frente a uma postura anti-democrática que não entende que as divergências políticas devem ser levadas para as urnas.

O secretário estadual de emprego, renda e esporte, Davidson Magalhães, presidente do PCdoB na Bahia, tem análise parecida. Para ele, a polarização tão propagada no período eleitoral não justifica episódios como o de Foz de Iguaçu. “Muitas pessoas argumentam que essa violência tem a ver com a polarização política. Isso não é verdade. O Brasil sempre teve polarização política, mas nunca descambou para a violência. O fato novo que tá acontecendo no Brasil é que desde a ascensão do bolsonarismo, veio à tona uma forma de fazer política diferente, que usa a violência como instrumento do convencimento e da intimidação política. Ele vive da mentira, do ataque às instituições, do uso da violência e da articulação com as milícias”.

O Senador Otto Alencar (PSD-BA) também aponta na conduta do presidente posturas que incentivam e legitimam a conduta hostil de seus apoiadores. “Já há algum tempo que o Brasil vem experimentando um ambiente de conflito, beligerância, tendo como patrocinador o Presidente da República. Agressivo com a imprensa, com adversários, fazendo ameaças à democracia, como no 7 de setembro, atacando o Estado Democrático de Direito. Como ele tem muitos seguidores, muitos seguem esse comportamento e isso leva ao que aconteceu em Foz, uma manifestação política legítima de alguém que não defendia o presidente, termina em assassinato”.

Alerta

Embora o assassinato do militante petista tenha sido um caso extremo, Cláudio André alerta para o perigo da replicação de fatos como esse. “O que tem acontecido na política brasileira ainda são casos pontuais. Mas, há um perigo na esquina. A gente tá diante de um fenômeno que pode descambar para um aumento de casos, de episódios de violência, envolvendo sobretudo a base bolsonarista, isso tem que servir de alerta para uma perspectiva dos políticos em acenar para a paz, para a tolerância, tolerância das ideias, tolerância de ouvir o outro, nos ambientes de trabalho, na família, na igreja”.

No aspecto prático, entretanto, o episódio trágico não alterou, num primeiro momento, o planejamento das pré-campanhas. A assessoria do pré-candidato ao governo do estado pelo PT, Jerônimo Rodrigues, informa que não houve alteração de agenda e ratificou que o candidato repudia os ataques e que a sigla sabe conviver com o contraditório.

O presidente do PT baiano, Éden Valadares, aposta na mobilização para impedir que atos como o assassinato de Marcelo Arruda se repliquem no estado. “Nós vamos construir uma série de ações para denunciar o incentivo e a apologia à violência que são feitos pelo Presidente da República e seus seguidores. Mobilizaremos partidos políticos, movimentos sociais e organizações da sociedade civil para exigir das autoridades uma atenção especial e providências concretas para evitar casos de violência - como o assassinato do companheiro Marcelo Arruda no Paraná ou do mestre Moa do Catendê aqui na Bahia - e desmistificar a narrativa de que esses casos são isolados ou fruto da polarização política. Não são”, insiste Éden, lembrando o assassinato do capoeirista após o primeiro turno das eleições de 2018.

O dirigente, no entanto, não admite qualquer recuo na disputa eleitoral. “Não vão nos intimidar. Nossa militância seguirá nas ruas defendendo nosso projeto; nossa campanha seguirá defendendo Lula e Jerônimo; a Bahia, o povo baiano, não se curvou nem nunca se curvará a mais essa tirania”.

Ex-deputado federal e ex-prefeito de Ilhéus, Jabes Ribeiro, Secretário-Geral do PP, partido do pré-candidato ao Senado, Cacá Leão, defende uma união suprapartidária. “Aqui na Bahia temos visto na campanha que, felizmente, as coisas não perderam o rumo. Mas não podemos ficar esperando. Supremacia se expressa nas urnas, senão vamos para a barbárie. É nessa hora que a gente vê realmente quem é quem. Não pode ser um pacto somente da oposição ou governo, é um pacto da democracia”.

A deputada federal pelo PSB, Lídice da Mata, também expressa preocupação e atenta para o monitoramento da internet como forma de prevenir atos extremistas. “Esse é o momento de reforçar a segurança de todos os candidatos e candidatas, pois há um clima muito ruim no País. Além disso, é preciso que as forças de inteligência policial estejam atentas na internet e também na ‘deep web’, que é uma especie de porão das redes sociais, onde há todo tipo de crime sendo praticado. Ainda assim, será uma eleição de muita tensão”.

Cautela

Embora nenhum candidato tenha anunciado qualquer medida adicional de segurança, até mesmo para evitar o estímulo ou antecipação por parte de virtuais agressores, a tensão é inegável entre os postulantes às eleições de outubro, sobretudo os que militam no campo da esquerda. 

“Ligou o alerta, né? Porque a expectativa, era de que poderia haver um tensionamento na campanha, um ambiente de violência, mas a expectativa, enquanto as coisas não acontecem, fica no campo da imaginação. O fato é que agora aconteceu e se produziu uma morte. É o fato mais grave, mas tem outros casos diversos aí de violência envolvendo a eleição. Obviamente que todo mundo agora está muito assustado, porque isso mostra que o bolsonarismo está mobilizado e está incontrolável, né?”, admite o pré-candidato ao governo pelo PSOL, Kléber Rosa.

Otto Alencar prefere apelar para o bom senso, mas também não nega a apreensão. “Claro que todos nós temos que ter segurança, nunca se sabe o que virá de uma pessoa violenta. Eleva o nível de atenção, mas, tradicionalmente as eleições no nosso estado não vêm tendo casos de agressão e violência”.

Para o professor Cláudio André, a própria relação entre os pré-candidatos, mesmo as relações institucionais, contribuem para um ambiente menos violento. “Fica mais difícil a gente ter um cenário de radicalização, porque é interessante que os três grupos políticos estiveram juntos, têm aliados que estiveram juntos nos últimos anos em algum momento da política baiana. João Roma esteve com ACM Neto, fez parte do governo Bolsonaro, parte da base de ACM Neto estava com o PT, o caso do PP, do PDT, então a gente percebe que há um clima menos radicalizado”.

Dois lados

O pré-candidato a governador, ex-ministro da Cidadania e deputado federal, João Roma (PL), também comentou o assassinato do militante petista. Em entrevista a um canal do youtube na última segunda-feira, 11, Roma declarou: “Lamento profundamente o triste episódio que resultou na morte de Marcelo Arruda no final de semana. Tem o nosso repúdio toda e qualquer prática que ameace o direito à justa e merecida liberdade do nosso povo. Em qualquer discussão, o diálogo deve sempre prevalecer, jamais a violência”.

Roma, entretanto, comparou as reações de Bolsonaro, que republicou mensagem de 2018 em que rejeitava apoio de quem comete atos de violência, ao do ex-presidente Lula (PT), que parabenizou e agradeceu ao ex-vereador Maninho do PT, acusado e condenado por tentativa de homicídio contra o empresário Carlos Alberto Bettoni. Em 2018, a vítima foi agredida pelo petista após protestar contra o PT em frente ao Instituto Lula.

O pré-candidato ACM Neto (União Brasil) se encontra em viagem pelo interior. Sua assessoria tentou conseguir uma declaração do ex-prefeito de Salvador mas, até o fechamento dessa matéria, o posicionamento não havia sido enviado.

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