"O foco da segurança tem que ser, sobretudo, a prevenção", diz Zé Raimundo Lula

Publicado quinta-feira, 02 de dezembro de 2021 às 06:05 h | Atualizado em 01/12/2021, 22:27 | Autor: Jefferson Beltrão

Segurança pública não se resolve só com Polícia Militar e investimento, mas também com pedagogia e convencimento da sociedade. O raciocínio é do deputado estadual Zé Raimundo Lula (PT). Para ele, a atual cultura política está ultrapassada. “A democracia direta precisa ser redescoberta”, afirma. Defensor da formação de jovens que sejam conscientes de sua responsabilidade social, ele também diz que “é importante que não só as esquerdas mas também o centro com uma visão de nação possa estar com a gente”. Acompanhe nesta entrevista também transmitida pela TV Alba (canal aberto 12.2 e 16 na Net).

Quais são as causas que movimentam sua atuação parlamentar e as regiões da Bahia que o senhor mais representa?

Sou filho do Recôncavo mas morei em Salvador e, na minha busca por um futuro melhor, me tornei professor e me radiquei em Vitória da Conquista. Depois, na luta social e política, [me tornei] professor universitário da UESB. Sou fundador do Partido dos Trabalhadores, militei também no movimento docente e, em seguida, fui vice-prefeito e prefeito de Vitória da Conquista. Em função de um grupo político muito solidário, encampamos essa luta também no parlamento. Aí, me tornei deputado estadual em 2010. Além da defesa do desenvolvimento para o interior do estado, sempre pautamos temas como educação, combate às desigualdades, democracia mais inclusiva. E agora, caminhando para 2022, a retomada do desenvolvimento brasileiro. [O Sudoeste] é a região que me apaixona, mas sem perder de vista o Brasil e a Bahia, sobretudo com foco do desenvolvimento social com mais igualdade e participação das populações excluídas.

Quais conquistas já teve para atender essas causas?

Esse é um debate também sobre o papel do parlamentar. Nós trabalhamos com grandes horizontes. Trabalho os projetos do Executivo, tomando também iniciativas para projetos de leis e em parceria com prefeitos e movimentos sociais. Tive o privilégio de relatar grandes projetos como a questão dos cartórios, o orçamento do Estado, os planos plurianuais, as LDOs. Além disso, tem as emendas. O deputado pode colocar recursos. E como trabalho em parceria com o querido [deputado federal] Waldenor Pereira, temos ajudado também com recursos para, por exemplo, as universidades estaduais e a agricultura familiar. As leis são importantes, mas quando você chega com recursos pra pavimentar um bairro, fazer uma barragem, uma adutora, aquilo é uma benção para as comunidades.

Com a experiência também de professor, qual tem sido sua contribuição para melhorar a educação na Bahia?

Esse também é um tema muito rico, porque às vezes a sociedade cobra do educador e do dirigente a função ou o comportamento que a sociedade não tem. Ao longo desse período, fui sindicalista mas sempre lutei não só pelas melhorias salariais e materiais para os educadores, como também por uma melhor visão da educação na pesquisa e na extensão. Tive a honra de quando prefeito ter sido um dos proponentes e articuladores da Universidade Federal da Bahia em Vitória da Conquista. Mais recentemente, temos ajudado muito o IFBA [Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia] e a rede estadual de ensino. Agora mesmo, estamos realizando o festival estudantil com recursos de emendas nossas na rede estadual do Sudoeste e apoiando feiras literárias. Vamos jogar muito peso nos eventos científicos e culturais, para criarmos uma energia nova na juventude nesse período de muita tecnologia. Nada substitui o livro e o convívio humano.

A educação pública na Bahia ainda é alvo de muitas críticas, assim como a segurança pública. São altos os índices de violência e ainda existe uma grande distância entre os estudantes e as escolas. O que é preciso para a educação baiana ser um exemplo de primeiro mundo e a segurança pública de fato confiável?

Há, inclusive, uma certa tendência entre não educadores, mas alguns dirigentes da educação, sobretudo municipais, de que criando uma estrutura militar nas escolas você vai resolver o problema da segurança. Acho que não é esse o caminho. A segurança pública merece uma abordagem própria. O foco da segurança tem que ser, sobretudo, a prevenção. Evidentemente, [também] o combate nas situações tensas, críticas, agudas. Para a educação o caminho é outro. É a formação de jovens conscientes de sua responsabilidade social e, sobretudo, com capacidade de produzir conhecimento. As críticas serão sempre bem-vindas, quando se trata dos aspectos educacionais. Mas agora estamos num momento extraordinário. [Com] o governador Rui Costa e o secretário [da Educação] Jerônimo Rodrigues, vamos investir pesadamente na infraestrutura física. São bibliotecas, auditórios, ambientes para música, laboratórios, ginásios cobertos, pra você ter uma escola de tempo integral e pra que o jovem possa interagir com a sociedade. Acredito que o distanciamento da sociedade em relação à educação é fruto também da modernidade das grandes cidades. Eu sou de um tempo em que você tinha que honrar também na rua o escudo do colégio. Claro, esse mundo moderno é muito desafiador. E acredito que reintegrar a vida coletiva na escola vai ser um caminho revolucionário que a Bahia vai pontuar muito bem nos próximos anos.

Independentemente de o senhor ser afinado com as políticas públicas do governador Rui Costa, em que a gestão do PT deixa a desejar?

A atividade política é muito complexa. Evidentemente que se cobra muito dos gestores resultados materiais. Sem dúvida, os nossos governos, o de [Jaques] Wagner e do companheiro Rui Costa, juntamente com a base aliada, têm feito um esforço muito grande pra manter a Bahia com investimentos, geração de emprego, o chamado desenvolvimento econômico. Mas precisamos criar uma cultura nova. E não é responsabilidade apenas do governante, mas do conjunto dos agentes políticos. A cultura política precisa ser modificada. A gente poderia estar investindo mais na democracia direta, que precisa ser redescoberta e valorizada. Temas, por exemplo, como segurança pública não se resolve só com Polícia Militar e investimento. É preciso muita pedagogia e convencimento da sociedade. Isso envolve conferências, reuniões, debates. Da mesma forma, a educação. Precisamos transformar o ambiente educacional num espaço de reflexão permanente, criando a oportunidade para a sociedade interagir e perceber que são possíveis outros caminhos além daqueles que o gestor pensa. A gente vai precisar investir muito na consciência coletiva. É preciso enraizar esse comportamento em toda a administração pública e nas instituições.

Sobre a compra de respiradores por parte do Consórcio Nordeste quando o governador Rui Costa era o presidente da autarquia – e que não foram entregues mesmo com o pagamento feito, deputados da oposição criticam o “silêncio” do governo. Uma CPI na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, inclusive, investiga o caso. Como o senhor avalia essa situação?

Eu acompanhei como deputado estadual e também como cidadão preocupado naquele momento. A Bahia inteira lembra que não havia nenhuma iniciativa do governo federal, uma passividade total. E os governadores se apressaram [na compra dos respiradores]. De qualquer sorte, se está sob investigação, vamos aguardar o parecer final da justiça, que é a quem compete. O governador Rui Costa, inclusive, determinou a prisão dos empresários que deram o golpe. Infelizmente, isso não ocorreu só na Bahia, mas em vários estados e países onde houve uma série de problemas com relação ao fornecimento do material de combate à Covid. Foi um momento muito tenso em que os governadores correram pra tentar resolver da melhor maneira possível, sobretudo no Nordeste que era alvo da perseguição do presidente da República. Mas tenho total confiança no governador Rui Costa. E virão, naturalmente, os esclarecimentos necessários. Aqueles que forem responsabilizadas deverão pagar por aquilo de errado que tenham cometido.

Sobre eleições 2022, quais partidos da base aliada podem representar dor de cabeça para o governador Rui Costa eleger seu sucessor?

A Bahia, especialmente o governador Rui Costa, tem remédio pra essa questão. Porque temos, em primeiro lugar, o governador bem avaliado. Hoje é o político com maior credibilidade na Bahia. Em segundo lugar, temos Lula que é uma referência também internacional enquanto estadista. E a Bahia tem esse carinho especial pela trajetória do Partido dos Trabalhadores. É claro que haverá algumas tensões, mas com esse cardápio. Além disso, já há uma indicação ao governo do nome de Jaques Wagner como pré-candidato do PT. Naturalmente, haverá conversas com os partidos aliados. O PT vai apresentar aos nossos aliados um caminho bom, porque teremos um candidato a presidente como o Lula, um candidato a governador como Wagner e um governador bem avaliado.

Deputados relatam que o grupo de ACM Neto, também pré-candidato ao governo, tem assediado deputados da base governista para que ingressem no partido que deve sair da fusão do DEM com o PSL, com a promessa de mais facilidade para a reeleição, em troca, naturalmente, de apoio a Neto. Como o senhor enxerga esse tipo de movimento?

A eleição parlamentar é um grande problema na estrutura política brasileira. A pulverização de partidos políticos leva, muitas vezes, o candidato a procurar a sigla que lhe dê melhores condições. É uma distorção da política no sentido programático. Isso haverá, como houve agora nas eleições municipais. Muitos companheiros, inclusive, saíram do PT, porque o partido não tinha como fazer o percentual pra poder eleger esses candidatos.

Com a volta de Lula à cena política, a oposição ao governo federal, certamente, ganha um novo fôlego. Já é hora de falar em união das esquerdas ou ainda existe um longo caminho para isso?

Lula está fazendo algo que, infelizmente, não ocorre no Brasil. Ele está dizendo que é preciso, em primeiro lugar, uma agenda para reconstruirmos o País. A conjuntura mundial não está fácil. A ascensão da China, da Índia... É claro que Biden reposiciona os Estados Unidos como um ator de convencimento, diferente do Trump que era aquela coisa esquisita, o que também ocorre no Brasil. O que Lula quer é reposicionar o Brasil nesse conserto mundial. A nossa infraestrutura está parada há seis anos. A Petrobras foi esquartejada. E é importante que não só as esquerdas mas também o centro minimamente com uma visão de nação possa estar com a gente. A agenda ambiental, contra a violência, a questão do racismo, o papel das mulheres, das organizações sociais, do poder público... Essa é a agenda que Lula quer de novo colocar pra que o Brasil pense no futuro.

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