Brasil registra mais que o triplo do número de cesarianas recomendados

Organização preconiza, no máximo, 15% dos partos por cirurgias, mas no país o percentual ultrapassa 50%

Publicado segunda-feira, 01 de agosto de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 31/07/2022, 21:49 | Autor: Jane Fernandes
Nizarala diz que  a cesárea virou uma questão cultural no Brasil
Nizarala diz que a cesárea virou uma questão cultural no Brasil -

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as cirurgias cesarianas representem, no máximo, 15% dos partos realizados em um país, mas o Brasil tem registrado mais que o triplo desse percentual, ultrapassando os 50%. Na Bahia, a realidade não é diferente, pois entre os 184.413 partos feitos na rede estadual no ano passado, 46,8% deles foram cesáreas. 

Mundialmente, segundo a OMS, em média 21% dos nascimentos acontecem por meio de cirurgia cesariana e as tendências estatísticas indicam que haverá crescimento até 2030, podendo chegar a 29% do total dos partos. De acordo com a entidade, as maiores taxas são registradas em países da América Latina e da Ásia Oriental, enquanto em alguns países africanos o acesso à cesárea está aquém do necessário para salvar mães e bebês em condições adversas. 

Um estudo publicado pelo jornal da Universidade Johns Hopkins, em meados do ano passado, indicou que a taxa média de cesariana do Brasil é 55%, a segunda maior do mundo, atrás apenas da República Dominicana. O artigo assinado pelos pesquisadores Cassia Roth, da Universidade de Geórgia (EUA), e Luiz Antonio Teixeira, da Casa de Oswaldo Cruz, aponta ainda que considerando apenas o sistema privado de saúde, a taxa brasileira chega a 86%. 

“Quando se fala de três milhões de nascimentos, aonde eu tenho 55% de cesarianas, nós estamos falando de um milhão e seiscentas mil cesarianas, quando o necessário teria sido 450 mil, então estamos falando de um milhão e 150 mil cesarianas que poderiam e deveriam ter sido evitadas”, comenta o diretor da Maternidade Maria da Conceição de Jesus, Amado Nizarala. 

“A cesariana é uma excelente instrumento médico para solucionar os problemas, tanto maternos quanto fetais. Não somos contra a cesariana, somos a favor da cesariana com a indicação correta e oportuna”, esclarece o obstetra, concordando que, com base nas evidências científicas, o procedimento seria necessário em aproximadamente 15% dos partos.

Casos indicados

Como indicações absolutas de cirurgia cesárea, Nizarala cita gestações múltiplas com mais de dois bebês, por conta do risco de complicações; gravidez gemelar na qual o primeiro bebê está sentado ou atravessado; placenta prévia, pois ocorre obstrução do canal de parto; prolapso de cordão umbilical; cicatrizes no corpo do útero, resultantes de cirurgias de mioma, por exemplo. 

“Quando eu tenho um desprendimento da placenta antes da saída do bebê e o bebê está vivo, tenho que fazer uma cesárea de emergência para salvar a vida desse bebê e salvar a vida da mãe”, ressalta o médico. Nas indicações, ele inclui as situações nas quais o feto muito maior do que o canal de parto, a chamada desproporção cefalopélvica, e casos de deformações pélvicas que não permitem a passagem do bebê.  

Para Nizarala, a realização da cesárea virou uma questão cultural no Brasil, sendo uma preferência inicialmente observada nos consultórios médicos que posteriormente ganhou adesão das mulheres. “Se eu pego duas populações exatamente iguais, em uma eu faço partos normais em outra eu faço cesariana, o grupo de cesariana vai ter chance de morrer entre seis e oito vezes maior, e o risco de ter morbidades, que são complicações, chega até 23 vezes mais”, alerta. 

“Cesárea a pedido pode ser solicitada pela gestante e foi autorizada pelo Conselho Federal de Medicina na Resolução no 2.284/20, podendo ser realizada pelo médico somente a partir de 39 semanas de gestação (273 dias de gestação) com registro em prontuário”, lembra a presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia da Bahia (Sogiba), Márcia Sacramento Cunha.

A medida, aponta a obstetra, evita complicações que demandam cuidados em UTI neonatal como distúrbios respiratórios, metabólicos e neurológicos do recém-nascido. Entre as indicações de cesárea intraparto ou de emergência, ela acrescenta complicações no decorrer de um trabalho de parto normal, como sangramento excessivo, falha na progressão do trabalho de parto e sinais de sofrimento fetal.

“Sem dúvida o parto sem intervenção cirúrgica é mais seguro e vantajoso tanto para a mãe quanto para o recém-nascido”, reforça Márcia. O favorecimento do vínculo precoce entre mãe e do bebê através do contato “pele a pele” logo após o nascimento e um menor tempo de recuperação no período do puerpério estão entre os benefícios listados por ela. 

“Mais facilidade na locomoção pós-parto, oferecendo também menor risco de complicações como, por exemplo, trombose de membros inferiores, hemorragias e infecções além da  redução de dor no pós parto. Para o recém-nascido, o parto normal reduz riscos de prematuridade com imaturidade pulmonar e dificuldades respiratórias e aumenta o sistema imunológico com redução de doenças alérgicas e autoimunes”, completa a presidente da Sogiba. 

Nizarala explica que a liberação de hormônios resultante do estresse da passagem pela bacia é o que finaliza o amadurecimento pulmonar do recém-nascido, permitindo que respire melhor fora do útero. Essa compressão na bacia também faz o bebê expelir o líquido presente no seu pulmão, pois quando está dentro da placenta, o feto ‘respira’ líquido amniótico.

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