“O vírus da COVID-19 não deixou de ser temido“, diz infectologista

PhD em Imunologia e Doenças Infecciosas, Roberto Badaró afirma ainda que a varíola dos macacos não representa uma pandemia

Publicado segunda-feira, 01 de agosto de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 31/07/2022, 21:24 | Autor: Osvaldo Lyra
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Considerado um dos maiores infectologistas do país, Roberto Badaró é enfático ao afirmar que “foi prematuro retirar a obrigatoriedade do uso das máscaras” no país. De acordo com ele, apesar de menos letal, “o vírus da COVID-19 não deixou de ser temido ainda“. PhD em Imunologia e Doenças Infecciosas e professor da Faculdade de Medicina da UNIFESP, São Paulo, Dr. Badaró diz que a “a varíola do macaco não representa uma pandemia”, mas que requer cuidados.

Ao falar sobre o pedido da OMS para que os homens gays controlassem a superexposição sexual como forma de conter o avanço da doença, o especialista disse que “não há nenhuma documentação de que a varíola seja sexualmente transmissível”. “A OMS está sugerindo que os homossexuais diminuam o contato sexual”. À frente do projeto formação de profissionais na área de tecnologia em Saúde, do CIMATEC, ele fala ainda sobre os avanços na descoberta e produção de novas vacinas. Confira:

Dr. Badaró, como o senhor vê a fase atual da pandemia hoje no Brasil? O vírus deixou de ser temido?

O vírus da COVID-19 não deixou de ser temido ainda, porque ainda existe um contingente significativo de pessoas que não vacinaram ou tiveram a vacinação parcial e podem ainda fazer uma pneumonia. Mas a pandemia mudou. Com a ômicron, a grande característica dela é que ela não causa pneumonia, ela causa inflamação nos brônquios, a pessoa fica com tosse, mas não tem nenhuma gravidade do ponto de vista pulmonar. Então, essa é a grande característica. A mortalidade por COVID-19 praticamente vem desaparecendo.

Ao analisar os números da vacinação da Bahia, percebe-se que quase metade da população não está com o esquema vacinal completo…

É exatamente isso que eu estou lhe dizendo. Por isso a gente ainda tem uma proporção de casos importantes. Lá no Hospital Espanhol, por exemplo, que eu sou diretor médico, lá a gente ainda tem um número de casos significativos. A gente varia de 70 a 100, mas a alta é muito rápida, porque as pessoas melhoram rápido também. Mas ainda temos muita pneumonia lá também.

O que fazer para convencer as pessoas da importância de se vacinar e completar o esquema vacinal?

Esse é um desafio grande, porque tem muitas pessoas que não acreditam na vacina, e agora com a ocorrência de COVID-19 em pessoas vacinadas até com quatro doses, três doses, as pessoas ficam desencorajadas. Eu vejo muito as pessoas falando “ah, para que eu vou vacinar, se as pessoas que vacinaram pegaram COVID-19?”. Mas o que a gente tem que enfatizar é dizer a eles que na verdade a vacina previne forma grave e mortalidade. Então, isso deve-se fazer propaganda, deve-se incentivar as pessoas com coisas bem diretas. Se você não é vacinado e pegar COVID-19, você pode morrer, por exemplo. Tem que fazer esse tipo de chamamento. Porque na maioria das vezes as pessoas não vacinam porque não têm ideia do risco de se pegar COVID-19 não vacinado.

Qual o risco que a baixa adesão a essa vacinação provoca? Há risco de novas variantes?

Não só poder pegar variantes que foram da primeira, segunda e terceira onda, que são a alpha, beta, gama e delta, que ainda circulam. Mas as pessoas vacinadas estão razoavelmente protegidas contra essas. Por isso que a pneumonia caiu significativamente. Mas os não vacinados têm risco ainda. É por isso que a gente está tendo ainda pessoas internadas com pneumonia grave.

Nem passou a pandemia de COVID-19 e já vivemos uma outra ameaça com a varíola do macaco. Como o senhor observa essa situação atual?

Eu sou um pouquinho mais otimista do que outras pessoas que estão estudando. A varíola do macaco não representa uma pandemia como a pandemia de COVID-19, de maneira nenhuma. Ela é uma coisa endêmica, a maioria das pessoas acima de 50 anos foram vacinadas contra a varíola comum, e parece que há uma proteção cruzada. Então, eu não vejo um problema de saúde pública hoje. Eu vejo um problema que a gente está tendo casos esporádicos, como é o que ocorreu em São Paulo, como é o que ocorreu no Rio de Janeiro, e agora aqui na Bahia que teve 3 a 4 casos, não teve mais do que isso.

Na verdade, acho que tem 5 casos confirmados na Bahia…

É, apareceu mais um agora, eu não tinha notícia desse quinto. E a velocidade com que ocorre isso não é uma coisa que dê ideia de que estamos tendo uma epidemia. E mais importante ainda, a doença é benigna, ela não mata. Ela faz só as lesões e com duas semanas a pessoa está recuperada.

A população baiana tem que aumentar o cuidado, tem que se preocupar e o que fazer para evitar o contágio?

Olha, o contato é com pessoas com lesões na pele, a pessoa tem que evitar o contato com essas pessoas. Porque ela não transmite pelo ar, ela transmite pelo contato. Às vezes as pessoas estão com as vesículas, não estão na face, não estão em um lugar visível, mas estão em outro local e tem contato. Então, a primeira coisa é dizer que se você tem uma vesícula dessa, procure investigar. Porque se for, você tem que proteger sua família, as pessoas dentro de casa para elas não pegarem. Isso reforça a higiene. A higienização com álcool a 70, que a gente aprendeu na pandemia, isso não deve acabar. Isso tem que continuar, porque vai proteger contra outras doenças, inclusive contra a varíola do macaco. Porque se o indivíduo estiver com ela e pegou na lesão, pegou na sua mão, você vai se contaminar. Então, é importante a gente chamar atenção nisso. Todos os casos têm uma relação de proximidade com outros.

Como o senhor viu a posição essa semana da Organização Mundial de Saúde pedindo para os homens gays controlarem a superexposição sexual como forma de conter o avanço da doença?

Na verdade, a OMS está sugerindo que as pessoas homossexuais diminuam o contato. Porque o problema é que às vezes a pessoa tem contato... E não só isso, mas o vírus do HIV, isso é outra coisa que a gente tem que também proteger. Mas eu acho que a recomendação é a recomendação mais genérica, não só para a varíola, mas também para outras doenças sexualmente transmissíveis.

Mas já tem alguma comprovação de que a varíola do macaco tem uma relação direta como uma doença sexualmente transmissível? E por que só entre homens de mesmo sexo, já que pessoas de sexos opostos também fazem sexo sem preservativo e estariam expostos ao vírus?

Essa é uma questão que a posição da organização mundial de saúde é uma posição de prevenção. Não há nenhuma documentação de que ela seja sexualmente transmissível. Como qualquer doença, se você tem o contato, a pessoa está com a varíola do macaco, ela tem lesão de pele. O nome está dizendo varíola porque é uma doença do tecido tegumentar. Ela não é uma doença que está ligada à transmissão sexual. O que houve foi a demonstração que eles fizeram coleta em indivíduos com a varíola do macaco, ele eliminava também por esperma, estava lá presente o vírus da varíola do macaco. O que não é nenhuma novidade. A maioria das doenças virais também são eliminadas em secreções, tanto da uretra como secreções vaginais. Então, eu não vejo como chamar de uma doença sexualmente transmissível. Não vejo. Ela é uma doença cutânea.

Corremos risco de viver novas pandemias, Dr. Badaró?

Agora a gente tem que tomar cuidado, porque estão ressurgindo casos de chikungunya. A gente tem que se proteger, porque chikungunya está voltando, eu já tive alguns casos agora no consultório. Não tive caso de dengue ainda, nem de zika, mas essas doenças, essas arboviroses que são as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, elas têm que ser monitorizadas, porque já teve locais com número de casos significativo. Então, essas doenças que são sazonais, que aparecem de tempo em tempo, elas têm que ser protegidas.

A gente percebeu também ao longo do ano doenças respiratórias acontecendo, como variantes até mesmo da H1N1, que foi a H3N2. Novas doenças respiratórias e novos surtos vão ser mais constantes no nosso dia a dia?

As variações ou as chamadas variantes é que a gente tem que se preocupar, na influenza a gente aprendeu isso. Em 1911, tivemos um surto grande de H1N1, depois veio em 1920, depois veio H2N3, em 1946 o Brasil teve um surto realmente importante, depois a gente vem sazonalmente tendo ciclos de influenza. A vacina quádrupla protege muito. Praticamente as pessoas vacinadas com a vacina quádrupla que contém as 4 variantes não pegam. Então, hoje a gente sabe que a vacinação é algo importante para influenza.

O senhor está à frente também do projeto de vacinas do Cimatec. O que está sendo desenvolvido no Cimatec da Bahia que mostra esse avanço da ciência baiana, Dr. Badaró?

Olha, é a primeira vacina feita com replicons de RNA, é uma cópia do RNA, é tecnologia da vacina Moderna e da vacina Pfizer, que é o RNA mensageiro que transporta a proteína S. Nós fizemos uma imitação do RNA mensageiro, é por isso que a gente chama a vacina de replicon de RNA como adjuvante que expõe essa proteína encapsulada que chama LION. A grande diferença é essa. É o adjuvante. Toda vacina precisa estar acoplada em um adjuvante. Por exemplo, a vacina de tétano usa alumínio.

São sistemas que o nosso sistema imunológico reconhece. Então, toda vacina tem um adjuvante. Então, essa vacina, o adjuvante deles é uma lípida da Pfizer, é uma molécula de gordura. A nossa é um LION, que na verdade é uma molécula, uma partícula lipopolissacarídica que dentro dela tem um ferro, ela tem capacidade de fazer múltiplas ligações, por isso a gente usa essa vacina. Essa é a novidade. É o adjuvante ligado com o replicon de RNA. Então, é uma vacina totalmente nova, nós diríamos até que é uma reação nova de vacina de RNA mensageiro.

O que temos de novidade sobre o desenvolvimento e registro da vacina contra a dengue? O senhor tem alguma informação?

Olha, a vacina contra a dengue apareceu, teve problemas na faixa etária de crianças de 2 a 5 anos. Também na faixa etária de adolescentes. Então, essa vacina teve ainda um processo maior, mais estudos para que a gente possa implantá-la como instrumento de saúde pública para proteger a população. Então, ainda está em fase de teste, fase 3, para a gente disseminar. não é uma vacina ainda que o governo incorporou para fazer campanha.

Está sendo sempre questionada a vacinação de crianças de 3 anos acima. Qual a posição do senhor com relação à vacinação de crianças com idade cada vez menor, Dr. Badaró?

Eu acho que na verdade essa é uma estratégia que vai depender muito do tipo de vacina. Eu não recomendaria vacinas de RNA mensageiro para crianças. Não recomendaria. As outras vacinas de vetores são interessantes, mas a vacina Coronavac, que é a que usamos aqui, essa é a vacina mais apropriada, que é um vírus atenuado e que é muito semelhante à vacina de pólio, a outras vacinas de vírus que a gente usa. A Pfizer está fazendo uma vacina para crianças, está testando, então não sabemos ainda com detalhe se podemos dar qualquer uma dessas quatro vacinas que estão no Brasil para crianças. O governo está investindo na Coronavac para crianças porque é uma vacina mais conhecida no método de fazer. É o próprio vírus que você atenua. Isso parece com outra vacina viral. Parece a vacina da gripe, parece a vacina da pólio, que também são vírus atenuados.

Então, isso é uma coisa ainda que nós não temos uma resposta segura. Eu seria cauteloso, porque a mortalidade e a morbidade em crianças são muito baixas. A maioria das crianças que estão pegando a variante ômicron nem sabem. A família testa porque um adulto começou com gripe, aí testou e deu coronavírus positivo para essa cepa que está aí. Aí quando testa, os filhos também não, às vezes pega até com o filho. Mas não tem nenhuma expressão de morbidade, de causar doença. Então, por isso que existe uma corrente que não quer vacinar crianças, porque acha que elas não têm perigo de ter uma doença grave. Mas outra corrente acha que tem que vacinar as crianças para proteger os adultos. Então, ela não pegando, ela não traz. Ainda é uma coisa muito confusa isso.

Foi prematuro retirar a obrigatoriedade do uso de máscaras ou o senhor acredita que aconteceu na hora certa?

Eu acho que foi prematuro. A gente realmente ainda não tinha certeza de que a ômicron circularia e tiramos a máscara. O que aconteceu? Nós vemos uma pandemia fantástica de ômicron em vacinados. Então, a vacinação deu uma sensação de liberdade às pessoas de que acabou a transmissão respiratória, mas nós erramos nisso. Ainda usar máscara é uma coisa importante em ambientes coletivos, em shows, em ônibus, avião.

Então, você tem que usar, porque você pode ter contato e pode ter uma outra variante, está tendo outra variante, a segunda BA.4 da ômicron que às vezes a pessoa pode pegar duas vezes. Eu tenho paciente que pegou duas vezes, porque pegou duas variantes. Então, é porque não estava usando máscara. Então, usar máscara ainda é uma estratégia de proteção.

Para finalizar, Dr. Badaró, muitas pessoas que vão estar nos lendo ou vão nos ouvir adorariam receber um conselho do senhor que é um dos maiores nomes da infectologia na Bahia. Que conselho o senhor daria para a população hoje?

Eu diria que a gente ainda não deve se esquecer da COVID-19. A primeira coisa é essa. Lembre-se que tudo que você aprendeu em 2020, 2021, que nós fomos obrigados a fazer um lockdown, a ficar dentro de casa com medo da disseminação da doença de uma forma incontrolável... E aprendemos durante esse período que a higienização das mãos com álcool em gel e o uso da máscara fizeram com que a pandemia fosse contida. E quando se associou com a vacinação, nós tivemos uma queda muito mais significativa.

Mas ainda eu diria às pessoas o seguinte: use sua máscara em ambiente público. Se você vai no ônibus, se você vai no metrô. Use sua máscara se você vai pegar um avião. Use sua máscara, porque ainda não nos livramos completamente do coronavírus.

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