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Após revolta, militares assumem o poder em Burkina Faso

País africano sofre com críticas após fracasso do presidente em conter a ascensão dos jihadistas

Publicado segunda-feira, 24 de janeiro de 2022 às 18:59 h | Atualizado em 24/01/2022, 22:05 | Autor: AFP

Os militares de Burkina Faso anunciaram na televisão nesta segunda-feira, 24, que tomaram o poder após uma revolta no país africano por críticas ao fracasso do presidente em conter a ascensão dos jihadistas.

Os autores do golpe, em uniforme de camuflagem, anunciaram na televisão o "fim do mandato" do presidente Roch Marc Christian Kaboré, após um motim que começou no domingo.

 

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Na mensagem, os soldados rebeldes também anunciaram o fechamento das fronteiras e prometeram um "retorno à ordem constitucional" dentro de um prazo "razoável".

Antes do anúncio, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pediu a "libertação imediata" de Kaboré, uma mensagem também enviada pela União Europeia. A União Africana já tinha condenado o que era então "uma tentativa de golpe de Estado".

O secretário-geral da ONU, António Guterres, "condenou fortemente" o "golpe de estado" militar. Em texto lido por seu porta-voz, Guterres demonstrou preocupação com "a proteção e a integridade física" de Kaboré, cujo paradeiro é desconhecido.

Soldados se mobilizaram em várias bases neste país africano no domingo, pedindo a saída da liderança militar e mais recursos para combater os grupos jihadistas que assolam o país desde 2015.

Kaboré, que está no poder desde 2015 e foi reeleito cinco anos depois com a promessa de tornar prioridade a luta contra os jihadistas, é alvo de críticas pelo fracasso de sua política de conter a violência de extremistas.

O partido do presidente, o Movimento Popular para o Progresso (MPP), informou que Kaboré foi vítima de "uma tentativa fracassada de assassinato" após relatos de que o presidente foi detido.

O MPP denunciou que o país "se encaminha para um golpe militar a cada hora que passa" e apontou que a residência do presidente foi "saqueada".

Um correspondente da AFP constatou que fora da residência havia veículos crivados de balas e vestígios de sangue.

Anteriormente, havia relatos conflitantes sobre o paradeiro de Kaboré.

Uma fonte de segurança indicou à AFP que o presidente, o chefe do parlamento, Alassane Bala Sakandé, e alguns membros do gabinete estão nas mãos dos soldados.

Esta informação foi confirmada por outra fonte de segurança, mas um membro do governo informou que o presidente foi retirado de sua casa por seu segurança, antes da chegada de homens armados que atiraram em sua comitiva.

Apoio aos golpistas

Antes do início do toque de recolher, centenas de moradores de Uagadugu foram às ruas da capital comemorar.

"É uma vitória, um novo começo para o povo burquinense após a queda de um regime incapaz", declarou à AFP Amado Zoungrana, que exibia uma bandeira de Burkina Faso, montado em uma moto.

"É uma nova página para o exército que vai entrar na história, concentrando-se no essencial, ou seja, libertar Burkina dos grupos terroristas", completou Serge Campaoré.

Burkina Faso sofreu várias tentativas de golpe de Estado. No país vizinho Mali, onde começou a insurgência jihadista, os militares derrubaram um governo civil em 2020.

Nos últimos meses, houve várias manifestações de protesto em Burkina Faso para denunciar a incapacidade das autoridades de conter o número crescente de atentados jihadistas. 

Esta região da África está cada vez mais desestabilizada pelos extremistas, que também atuam no Níger e no vizinho Mali, um país que sofreu dois golpes de Estado em poucos meses.

Os militares golpistas apresentaram uma lista de demandas, enfatizando a necessidade de uma melhor estratégia na luta contra os jihadistas, mas sem mencionar a partida de Kaboré.

Os soldados pediram a substituição da liderança militar, melhor atendimento aos soldados feridos e mais apoio às famílias dos mortos em combate, disse um porta-voz dos amotinados em uma gravação enviada à AFP.

No domingo, os manifestantes apoiaram os amotinados e instalaram barricadas em várias avenidas da capital, que em seguida foram dispersadas pela polícia, constataram jornalistas da AFP.

Assim como Mali e Níger, Burkina Faso está mergulhada em uma espiral de violência atribuída a grupos jihadistas armados. Eles são afiliados à Al Qaeda e ao Estado Islâmico (EI).

Em quase sete anos, a violência dos grupos jihadistas deixou mais de 2.000 mortos e 1,5 milhão de deslocados.

A chegada do presidente Kaboré ao poder em 2014 trouxe grandes esperanças para o país. Ele tomou posse um ano depois da queda de Blaise Compaoré, derrubado por uma revolta popular após 27 anos no cargo. 

Uma década de golpes de Estado na África

A tomada do poder pelos militares em Burkina Faso nesta segunda foi uma de uma longa série de golpes e golpes na África na última década.

2012

Mali

Em 22 de março, os militares derrubaram o regime de Amadou Toumani Touré. Um "Comitê Nacional para a Recuperação da Democracia e Restauração do Estado", chefiado pelo Capitão Amadou Haya Sanogo, dissolveu as instituições.

Guiné-Bissau

Em 12 de abril, um golpe militar interrompeu o processo eleitoral duas semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais. Os golpistas, liderados pelo general Antonio Indjai, afastaram o presidente Pereira e o primeiro-ministro, Gomes Junior.

2013

República Centro-Africana

Em março, os rebeldes Seleka, essencialmente muçulmanos, tomaram a capital Bangui, expulsando François Bozizé, no poder há 10 anos.  

Seu chefe, Michel Djotodia, se autoproclamou presidente. O país então afundou em uma crise política e de segurança que opõe principalmente milícias cristãs e animistas, os anti-balaka, e os Seleka.

Egito

Em 3 de julho, após grandes manifestações exigindo a saída de Mohamed Morsi, eleito em 2012, o exército o destituiu e o prendeu.

2015

Burkina Faso

Em 17 de setembro, menos de um ano após a queda de Blaise Compaoré, deposto do poder por uma revolta popular, o presidente Michel Kafando foi deposto por um golpe liderado por uma unidade de elite do Exército. Ele recuperou suas funções uma semana depois, após um acordo entre soldados leais e o atores do golpe. 

2017

Zimbábue

Em 21 de novembro, o presidente Robert Mugabe, o líder mais velho do planeta aos 93 anos, renunciou sob pressão do exército, de seu partido e da população, após uma semana de crise.

2019

Sudão: 

Em 11 de abril, Omar Al Bashir, no poder há 30 anos, foi deposto pelo exército após quatro meses de protestos populares. Foi criado  conselho de transição e um primeiro-ministro civil tomou posse.

2020

Mali

Em 18 de agosto, o presidente Ibrahim Boubacar Keita foi deposto após vários meses de crise política. O golpe militar deu origem a sanções internacionais, levantadas após a formação, em 5 de outubro, de um governo de transição por um período de 18 meses para devolver o poder aos civis.

2021

Chade:

Em 20 de abril, um dia após a morte do presidente Idriss Déby Itno, um conselho militar de transição presidido pelo filho do falecido presidente, Mahamat Idriss Déby, até então chefe da poderosa Guarda Presidencial, dissolveu o governo e a Assembleia Nacional. Prometeu novas instituições após eleições "livres e democráticas" em um ano e meio.

Um "diálogo nacional inclusivo" deveria começar em 15 de fevereiro de 2022, mas foi adiado, principalmente porque os grupos rebeldes que realizam ataques regulares contra o governo demoram a tomar uma posição unida nas negociações com a junta militar.

Mali:

Em 24 de maio, os militares prenderam o presidente e o primeiro-ministro, após a nomeação de um novo governo de transição do qual não gostaram. O coronel Assimi Goita foi empossado em junho como presidente de transição.

A junta garantiu primeiro que devolveria o poder aos civis no início de 2022. Depois, propôs prolongar a transição por vários anos.

Guiné:

Em 5 de setembro, o presidente Alpha Condé foi derrubado por um golpe militar. Os golpistas, liderados pelo coronel Mamady Doumbouya, prometem uma "consulta" nacional visando uma transição política para um "governo de unidade nacional".

Sudão:

Em 25 de outubro, os militares prenderam os líderes civis das autoridades de transição, desencadeando manifestações massivas contra esse novo golpe, liderado pelo general Abdel Fatah al-Burhan, cuja repressão deixou dezenas de mortos.

2022

Burkina Faso:

Em 24 de janeiro, soldados uniformizados anunciam na televisão nacional que tomaram o poder, prometendo "retornar à ordem constitucional" dentro de um "período de tempo razoável".

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