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‘Único lugar onde há críticas à política industrial é no Brasil’

Diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI diz que Brasil tem uma 'oportunidade histórica' para crescer

Publicado segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024 às 06:00 h | Atualizado em 19/02/2024, 11:39 | Autor: Divo Araújo
Rafael Lucchesi, diretor de Desenvolvimento Industrial e Economia da Confederação Nacional da Indústria
Rafael Lucchesi, diretor de Desenvolvimento Industrial e Economia da Confederação Nacional da Indústria -

Para Rafael Lucchesi, diretor de Desenvolvimento Industrial e Economia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil tem agora uma janela de oportunidade histórica. Janela aberta pela emergência climática e a necessidade do mundo criar novos modelos econômicos mais sustentáveis.

“Esses próximos poucos anos valerão por muitas décadas”, diz o economista nesta entrevista exclusiva ao A TARDE. Para não deixar passar essa chance, que pode ser a última, o país precisa investir cada vez mais na indústria, explica ele. “O Brasil não pode pensar em ser somente um grande produtor de energia verde e isso virar uma nova commodity”. Veja essas e outras questões relacionadas à indústria brasileira na entrevista que segue.

O senhor defende que o Brasil tem agora uma janela de oportunidade histórica para iniciar o processo de neoindustrialização do país. Porque este momento é tão favorável?

Em primeiro lugar, por conta da emergência climática. Nós tivemos, em 2023, os dias mais quentes de toda a série histórica de medição do tempo. E, nos próximos cinco anos, essas questões vão se agravar. Qual a consequência? Cada vez mais eventos climáticos extremos e toda complexidade associada a isso. Precisamos salvar a civilização como nós conhecemos e, para tanto, tem de haver uma inflexão das atividades humanas, que são regidas sobretudo pela economia. Isso pode ser sintetizado numa frase: o mundo precificou as emissões de carbono. É claro que isso vai determinar uma enorme janela de oportunidade. Os países que conseguirem construir uma coesão nas suas sociedades estarão mais adaptados a esse novo ambiente econômico. É por isso que está acontecendo um grande bloco de investimentos no mundo inteiro. Centenas de políticas industriais estão em curso, como mostra uma recente sistematização que o FMI fez. Porque os países estão fazendo isso? Porque entenderam que estamos vivendo um período de transformação ecológica. Isso passa pela transição energética, descarbonização produtiva e ascensão da bioeconomia. Esses próximos poucos anos valerão por muitas décadas. Vão determinar de que maneira as atividades econômicas dominarão as novas cadeias globais de valor. Por isso é tão importante. Historicamente, todos os países sempre se preocuparam em fazer política industrial. O único lugar no mundo onde há críticas à política industrial é no Brasil. Mas, no resto do mundo, há um consenso sobre o desenvolvimento de políticas industriais. Por que há esse movimento? Porque as indústrias são as cadeias mais complexas. Nos Estados Unidos ou no Brasil mais de 70% do gasto de PIB são feitos pela indústria. Ela é mais intensiva em conhecimento e determina o ciclo tecnológico. Enfim, estamos vivendo esse processo em que mais países estão investindo intensamente para construir as vantagens competitivas para as suas empresas e, dessa forma, gerar um ambiente empresarial mais próspero. A revista The Economist, veículo de comunicação inglês que foi um baluarte do neoliberalismo, afirmou recentemente: uma economia deve evoluir da pobreza agrária para indústrias diversificadas para que possa competir com países rivais, que são ricos há séculos. Essa é a jornada que a maior parte dos países, sobretudo os emergentes e em desenvolvimento como o Brasil, tem de se situar.

O Brasil tem a matriz energética mais limpa do mundo. Como usar essa energia verde a nosso favor?

Tem a matriz energética mais limpa e com enorme potencial de reunir condições de ampla produção de energia verde, barata e abundante. Mas o Brasil não pode pensar em ser somente um grande produtor de energia verde e isso virar uma nova commodity, uma nova soja ou minério de ferro. Temos que pensar, sim, no Brasil sendo um grande ofertante de energia verde, mas sobretudo pensar isso como uma grande vantagem competitiva estratégica. Vantagem que pode impulsionar a produção de vários segmentos da bioeconomia. É pensar o aço verde, o cimento verde, a agroquímica, a bioquímica, entre outros múltiplos arranjos que vão permitir um enorme impulsionamento de atividades produtivas com maior agregação de valor. Como a indústria são cadeias mais longas e mais complexas e pagam melhores salários, isso acaba gerando empregos de classe média. E a classe média, por exemplo em Salvador, vai comprar ingressos para o Teatro Castro Alves, vai comprar o jornal A TARDE, vai tomar cerveja no Rio Vermelho, vai acessar delivery de pizza, assinar streaming e por aí vai. Tudo isso marca um consumo que gera emprego e muito impacto na economia de serviços. É muito importante se pensar isso.

De 1930 até a década de 80, o Brasil foi um dos países que mais cresceram no mundo, impulsionado pela indústria. O que aconteceu para regredirmos ao ponto em que estamos?

Nós abandonamos a indústria como uma obsessão nacional. Curiosamente, Deng Xiaoping (líder comunista chinês) visitou os Estados Unidos em 1979. O PIB relativo da China frente aos Estados Unidos à época era de 1%. No ano 2000, era de 12% e hoje é 70%. Pela medida do poder de paridade de compra da moeda, a China é hoje a maior economia do planeta. E ela fez isso com uma obsessão de construir uma moderna plataforma de manufatura global. Os chineses entenderam muito corretamente a terceira revolução industrial que permitia você estruturar a produção industrial em longas distâncias. A China entendeu como nenhum país as novas cadeias de valor e se tornou a manufatura do mundo. Enquanto em nosso ambiente vicejava as ideias do consenso de Washington e do liberalismo, a China aproveitou isso como uma grande oportunidade. Em poucas décadas, vimos a ascensão de uma nova superpotência, o que é muito incomum. Recentemente, a prestigiada Harvard Business Review destacou uma nova era de política industrial. E o governo de Joe Biden prova que até Washington abandonou o consenso de Washington. Desde 2021, o governo dos Estados Unidos já alocou na política industrial 1,9 trilhão de dólares. A União Europeia, por sua vez, mobilizou 1,6 trilhão de dólares. A Inglaterra, 1,7 trilhão; o Japão, 1,5 trilhão. É claro que o Brasil não tem o espaço de política fiscal para ter uma dimensão dessas. Mas os R$ 300 bilhões é uma boa partida. Certamente, o país vai precisar de muito mais.

Falando nesses  R$ 300 bilhões, o governo Lula lançou recentemente o Plano Nova Indústria Brasil. Vi algumas críticas, dentre elas a de que o governo não deveria criar uma política industrial dependente de dinheiro público. Como o senhor viu essas reações?

Vi também muitos elogios, mas as críticas em geral não se sustentam. Do ponto de vista objetivo, o impacto fiscal dessa política é zero. Impacto fiscal seria você usar dinheiro público. Você tem alocado em torno de R$ 300 bilhões, mas são recursos de crédito. E é preciso garantir crédito para indústria. Você sabe qual é o spread bancário cobrado no Brasil? É 27%.  Entre 94 países, o spread bancário brasileiro é o terceiro mais elevado. Só perde para Zimbábue e Madagascar. O país que ocupa a posição anterior ao Brasil é o Peru, com algo em torno de 7%. Porque nós temos um país que tem uma das maiores taxas reais de juros no planeta? Nós temos uma taxa de juros real que é 7,65% num país que tem inflação controlada. Não faz sentido. O próprio Banco Central coloca que a taxa de juros neutra é de 4,5%. Outras consultorias do mercado colocam em 4%. Nós temos uma taxa de juros que é contracionista e pune a economia real. A esses críticos, normalmente muito ligados ao mercado financeiro, falta o mínimo de honestidade para um debate de interesse nacional. É só ver o que os Estados Unidos estão fazendo, o que os países centrais estão fazendo. Esse pessoal quer colocar o Brasil na agenda do atraso.

Um dos argumentos usados para criticar o plano é que essa política industrial que nasce agora repete outras implantadas no passado. Qual a diferença desta política para outras?

É de novo uma mentira. No dia de lançamento da Nova Indústria Brasil, a maior economista do planeta, quem mais entende de política industrial, publicou um artigo no jornal Valor elogiando a política brasileira e dizendo que ela é uma política moderna. Entre essas pessoas que defende os interesses associados ao rentismo improdutivo e a economista que melhor compreende a política industrial, que é Mariana Mazzucato, eu comungo com a opinião dela. É um contraponto claro. Porque a política é moderna? A política é moderna porque está presa a seis missões que são fortemente horizontais e que estão antenadas com a construção de vantagens competitivas do Brasil para o futuro e com a agenda que está acontecendo no mundo.

Quais são essas missões?

Nós temos como primeiro grande macro-objetivo aumentar o complexo agro brasileiro e a segurança alimentar. Isso está em linha com as vantagens competitivas brasileiras e as possibilidades de construção do futuro. O segundo é o complexo de saúde. Desde a pandemia da Covid-19, a agenda de segurança sanitária se impôs pelo elevado risco de concentrar a produção de EPIs, fármacos e vacinas em países que poderiam estar mais impactados, como foi o caso da China, epicentro dessa pandemia. Da mesma maneira, o Brasil é um dos países mais urbanos do planeta. O total de 84% da população brasileira vive em cidades. E as cidades brasileiras perderam o sentido de modernização das suas infraestruturas urbanas. Salvador é um exemplo; Brasília é outro; Rio, São Paulo... Esses grandes problemas de mobilidade criam uma enorme ineficiência para o mundo da economia real e para o bem-estar das pessoas.  A eletromobilidade vai trazer um enorme benefício para as grandes cidades, reduzindo a emissão tanto de veículos de passageiros como de coletivos e isso é uma enorme fronteira de impulsionamento para a política industrial. Como pensar também novas tecnologias associada à construção. A agenda de digitalização também é muito importante pelo progresso que vai permitir e os ganhos de produtividade. Ela é super horizontal. A agenda de defesa, que é estratégica em política industrial desde sempre no mundo. E está sendo colocada até porque nós vivemos um momento de enorme instabilidade geopolítica, com algumas guerras quentes, como é o caso da Guerra da Ucrânia. Como também as instabilidades no Oriente Médio e a ascensão de uma tensão crescente entre Estados Unidos e China. E a última das missões, eu deixei para o fim, mas não menos importante, que é a transição energética e a bioeconomia. Então, sinceramente, é uma sandice dizer que trata-se de uma política que repete o passado. Da mesma forma quando se diz que é usar dinheiro público. Ainda que fosse um mundo muito moderno, as políticas tratam de incentivos, subsídios e conteúdo nacional. O que a União Europeia está fazendo? O que os Estados Unidos estão fazendo? A China, Japão, Coreia do Sul? É impulsionar fortemente o conteúdo nacional, é fortemente subsidiar o desenvolvimento da sua matriz industrial. Agora, o Brasil tem um grave problema que a gente precisa discutir, que é essa  taxa de juros extremamente elevada. Isso acaba anulando uma série de vantagens competitivas que o país tem.

Até que ponto essa alta taxa de juros contribui para estagnar a indústria nacional?

Essa taxa de juros só é boa para os bancos. Ela é ruim para os interesses de 99% dos brasileiros. A taxa de juros real de 7,65% está bem acima de uma taxa de juros neutra. O que quer dizer que ela é uma taxa de juros restritiva. Vai ter menos emprego, menos investimento, renda e bem-estar econômico. As empresas e as famílias empobrecem para nós termos os bancos mais lucrativos do planeta. Isso não é razoável. A taxa de juros real nos Estados Unidos é de 2,7%. É outro país, há outras variáveis, outros fatores que determinam isso. É claro que a estabilidade macroeconômica é importante, que controlar a inflação é importante. A despeito disso, a inflação brasileira está controlada. Em 2022, a nossa inflação foi de 5,8%; em 2023, 4,6%. O último boletim do Banco Central, o Boletim Focus, coloca que a taxa de inflação prevista para 2024 é de 3,8%. O boletim do mês passado é de 3,9%. Ou seja, a inflação está em queda, com tendência de queda e dentro da meta. E o país continua tendo uma das maiores taxas de juros do mundo. Isso vai inibir o emprego, o desenvolvimento econômico, o investimento. A sociedade brasileira precisa sinalizar que esse modelo fracassou. O Brasil tem tido taxas medíocres de crescimento, com muito desemprego, muito desalento, porque nós somos há muitos anos um país que pratica a maior taxa de juros do planeta, para prejuízo de toda a sociedade.

O senhor falou da taxa de juros, mas a indústria enfrenta também a alta carga tributária, uma das maiores do planeta. A Reforma Tributária nesse sentido atende às expectativas da indústria?

No país, o ambiente macroeconômico passa por uma combinação de políticas. A Reforma Tributária, muito bem conduzida pelo ministro Fernando Haddad e pelo Congresso Nacional, que aprovou numa demonstração de maturidade do Legislativo brasileiro, vai melhorar bastante o cenário. Tem um longo período para sua implementação. Mas ela vai melhorar muito o ambiente de negócios, porque a carga tributária da indústria brasileira é o dobro da média dos emergentes. A indústria brasileira recolhe uma carga tributária de 37%. É um valor extremamente elevado. É o dobro da média dos países e não estou nem falando daqueles que tem a menor carga tributária. Isso acaba punindo muito a indústria brasileira.

O senhor acredita que esta reforma, a longo prazo, vai conseguir reduzir essa carga?

Ela vai reduzir o peso, o ônus do custo tributário sobre a indústria brasileira. O que é muito positivo porque a indústria reúne as atividades que geram o maior impacto para a produtividade. No mundo, as pessoas priorizam que a sua indústria seja competitiva e, por isso, não a sobreonera. É como você pensar numa competição e criar uma metáfora de uma corrida onde um corredor carrega uma carga de cinco quilos e outro dez quilos. Vamos imaginar que os dois corredores têm o mesmo preparo. É claro que aquele que carrega dez quilos vai ter a performance comprometida pela carga elevada.

O senhor afirmou que, para o país crescer e se desenvolver, é necessário um pacto social em torno de um projeto. Diante da polarização que parece não ter fim no Brasil, você considera isso possível?

Possível sempre é, mas a polarização vai exatamente na direção oposta da construção do consenso. Até por interesse pessoal, me debruço sobre estudar os processos de desenvolvimento acelerado que algumas sociedades alcançam. E é sempre necessário se criar um consenso em torno desse projeto. Especialmente em sociedades democráticas com é o caso da brasileira que defendo de forma incondicional. É claro que, como princípio, a construção do consenso  tem um papel extremamente importante. É um desafio ao sistema político e à sociedade ser capaz de construir esse amálgama em torno de um projeto de país. Os processos de rápida industrialização, de rápido desenvolvimento econômico, fazem com que os países peguem um elevador de mobilidade social. Por  princípio, eles têm essa capacidade da sociedade civil organizada, do sistema político e das instituições, de criarem essa energia mobilizadora em torno das bandeiras centrais do processo de transformação para o círculo virtuoso de desenvolvimento. O Brasil hoje apresenta as melhores condições para o desenvolvimento da economia verde. Mas se nós ficarmos deitados em berço esplêndido essa oportunidade vai passar ao largo. E os países que conseguirem se mobilizar e construir o consenso empreendedor em torno dessa agenda vão ocupar o espaço. Na economia, como na história, não existe vácuo. Alguém vai ocupar aquele espaço e vai capturar aquela oportunidade. Nos últimos 40 anos em que abandonou a indústria como locomotiva do desenvolvimento e se abraçou nessas ideias do liberalismo, o Brasil foi o país que mais regrediu. Nós precisamos abandonar o que deu errado.

O senhor que já foi secretário estadual de Ciência e Tecnologia aqui, como vê a Bahia nesse processo de neoindustrialização?

Na agenda de neoindustrialização, baseada em economia verde, o Nordeste vai crescer muito. O Nordeste tende a crescer proporcionalmente mais do que o Brasil. Por quê? Porque apresenta maior aptidão para a produção de energia de biomassa, hidrogênio verde, para a matriz renovável de produção energética. Isso vai criar todo um bloco de investimento associado à economia verde. Por isso, o Nordeste tende a ter um ciclo pujante de desenvolvimento. O presidente Ricardo Alban, ex-presidente da Fieb, tem essa visão absolutamente estratégica em torno do Brasil. O país precisa capturar essa oportunidade que será fundamental para o desenvolvimento do país. 

Raio-X

Rafael Lucchesi é diretor de Desenvolvimento Industrial e Economia da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e diretor-superintendente do Sesi. Economista, formado pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), é também integrante do Conselho Nacional de Educação desde maio de 2016. Foi diretor de Operações da CNI (2007–2010), secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado da Bahia (2003 – 2006), quando foi presidente do Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de Ciência, Tecnologia e Inovação (Consecti). Nesse período foi membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT).

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