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LITERATURA

Vidas (e mortes) paralelas

Chico Castro Jr.
Por Chico Castro Jr.
Empresário e publicitário, Ricardo Cury lançou em 2008 o livro de crônicas Para Colorir
Empresário e publicitário, Ricardo Cury lançou em 2008 o livro de crônicas Para Colorir - Foto: Will Vieira l Divulgação

As verdades mais óbvias são geralmente as mais difíceis de aceitar. A começar pelo fim: vamos todos morrer um dia. A consciência do fim definitivo, que nos distingue dos animais, também faz por nós aquilo que muitos passam a vida inteira evitando: iguala a todos, sem distinção. Grande tema – possivelmente o maior –, a morte já rendeu obras-primas em todas as formas de arte. Destemido, o baiano Ricardo Cury fez do último adeus o tema do seu segundo livro (e primeiro romance): Tchau.

Lançado em maio, após uma campanha de crowdfunding, Tchau tem de cara um enorme mérito: concede inequívoca leveza a um tema que, de outra forma, poderia tornar a leitura de suas páginas tarefa penosa, quase insuportável – ainda mais em dias tão deprimentes quanto estes têm sido.

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Outra característica que Cury conseguiu imprimir em sua prosa é a agilidade: escrito em linguagem (baiana) coloquial e com muitos diálogos, suas páginas voam rapidamente pelos olhos e mãos do leitor.

Em suma, Tchau é daqueles livros que muitos são capazes de ler de uma sentada em uma cadeira de aeroporto. Se a leitura é ligeira, a impressão que ela deixa, porém, é justamente o inverso: seus personagens e seus apuros permanecem na mente do leitor por dias, levando-o a, novamente, encarar o “Jaime”, como dizia aquele velho comercial de TV sobre seguro de vida.

Mas sem traumas: ao longo do livro, são tantas as despedidas sofridas, que duas coisas se transformam na mente do leitor atento. A primeira é a desmistificação da morte – ops, do Jaime –, a quebra do tabu. “Se nascer é natural, morrer também é”, reflete em dado momento Luiza, a personagem principal. Ponto.

A segunda coisa é a valorização da vida, do momento, do agora. Como muitos bons livros, filmes, músicas, telas etc., a arte serve (também) para isso: nos lembrar de que estamos vivos e que tudo o que temos garantido é o hoje. Amanhã, quem sabe?

E agora é a hora de pedir aquele perdão ao leitor, mas o clichê é absolutamente inevitável: ao falar da morte, Tchau se constitui em uma sincera celebração da vida.

Talvez seja melhor deixar um escritor de verdade, o imortal Ariano Suassuna, resumir este pensamento: “A arte é uma espécie de protesto contra a morte”.

Encontro fortuito

Tchau segue as vidas paralelas de duas pessoas: Luiza, uma jovem psicóloga que trabalha no setor de cuidados paliativos aos doentes terminais de um grande hospital de Salvador, e Zinho, um humilde pescador da mesma idade de Luiza.

Zinho e Luiza tiveram um encontro muito rápido e fortuito ainda crianças – encontro que, eles nem imaginavam, definiria suas vidas para o resto de suas existências.

Foi em 1985, durante uma viagem de carro pelo sul da Bahia com a família, que Luiza encontrou Zinho, que também estava acompanhado da mãe e dos irmãos. Uma parada rápida na cidade de Ituberá para esticar as pernas, um encontro de crianças, uma foto para guardar o momento.

Luiza e família entram no carro e vão embora, tchau. A mãe e os irmãos de Zinho entram em uma Kombi e também pegam a estrada. Zinho, por um motivo qualquer, fica em casa. Minutos depois, no meio do caminho, Luiza e família se deparam com um acidente na estrada. O pai de Luiza, por um impulso qualquer, bate uma foto do acidente.

Enquanto isso, em Ituberá, Zinho recebe a pior notícia de sua vida: sua mãe e irmãos morreram em um acidente na estrada. A ele agora só resta esperar que Luiza, a menina que lhe havia prometido enviar aquela foto pelo correio, cumpra a promessa. Afinal, é a única imagem da sua família viva – tirada minutos antes do acidente fatal. Conseguirão Zinho e Luiza se reencontrar? Tchan, nan, nan, nan!

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