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DESPEDIDA DO VIRAMUNDO

Geraldo Sarno deixa legado de cinema atento às questões do NE

O olhar à própria gente se fortaleceu após temporada em Cuba, quando articulou um cunho social crítico

João Paulo Barreto | Especial para A TARDE
Por João Paulo Barreto | Especial para A TARDE
Geraldo Sarno (centro) em seu elemento natural: em campo, dirigindo
Geraldo Sarno (centro) em seu elemento natural: em campo, dirigindo - Foto: Acervo Geraldo Sarno | Arquivo A TARDE

Com a morte de Geraldo Sarno, na noite de terça-feira, às vésperas de completar 84 anos, um olhar aguçado da realidade brasileira se perde.

Em sua filmografia, o rapaz saído da cidade de Poções trouxe a identidade desse povo migrante do Nordeste, cuja miséria palpável tem por baixo uma ainda mais consistente riqueza cultural e popular.

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"Eu vou fazer minha escola de cinema junto com a cultura popular nordestina", afirmou Geraldo durante entrevista para o curta documental Reviramundo, que os cineastas Glauber Lacerda, Rogério Luiz Oliveira e Carlos Rizério lançaram em sua homenagem há oito anos. Essa vontade de registrar o Nordeste e, por consequência, o Brasil, a partir de suas ondas migratórias se refletiu logo de cara em seu filme de estreia, o fundamental Viramundo, lançado em 1965.

O olhar voltado à sua própria gente se fortaleceu quando passou uma temporada em Cuba, entre 1962 e 1964, período em que se articulou com ainda mais força dentro desse cinema com um cunho social crítico diante da peleja do povo que migrava errante pelo Brasil, principalmente o seu próprio. Em entrevista que concedeu ao A TARDE há dois anos, Sarno falou sobre os ciclos de sua carreira, já que voltava ao tema da migração no então recém-lançado Sertânia.

"No fundo, Sertânia tem uma ligação com Viramundo. O herói do Sertânia é um viramundo. É um migrante que sai da Canudos derrotada. Depois volta para o sertão e se encontra em um grupo de jagunços. Portanto, tem a ver com primeiro filme que eu fiz. Esse é um dos temas, o do exílio, da migração. É uma questão social central nesse país. Como a maior parte da população brasileira em grande parte do território nacional não tem uma viabilidade econômica e social, este acaba sendo um país de tangidos pela sorte. A migração não é em uma direção única. Uma migração, na verdade, é uma circulação. A população brasileira, em milhares e milhões, circula ao Deus dará pelo território nacional", disse-me Geraldo à época.

Cena de Coronel Delmiro Gouveia (1978), com Rubens de Falco
Cena de Coronel Delmiro Gouveia (1978), com Rubens de Falco - Foto: Lauro Escorel Filho | Divulgação

Crítica ao establishment

“Os filmes do Geraldo falam por si e mostram o seu comprometimento e amor pelos temas que trouxe à tona. Ele me ensinou a ver o Brasil de um jeito que eu não seria capaz sem a sua presença luminosa. Apontando a crueldade do processo histórico e, o que me emociona ainda mais, a humanidade de nossa gente, especialmente do povo sertanejo. E, acima de tudo, cravou filmes belos e potentes. Ficava ali, à sombra do establishment, mesmo do cinema da margem, e como quem não quer nada, marcava golaços", afirma o professor e jornalista Marcos Pierry.

Ao ficar à beira desse establishment, Sarno mantinha foco no que realmente interessava na sua labuta como cineasta e documentarista. Um desses trabalhos demonstra seu esmero na preservação do audiovisual, quando, entre 1997 e 2001, realizou a série documental A Linguagem do Cinema, no qual realizou entrevistas com diversos cineastas brasileiros, como Ruy Guerra, Ana Carolina, Júlio Bressane, Carlão Reichenbach e Walter Salles, entre outros.

O cineasta Henrique Dantas relembra, também, o impacto da amizade de Geraldo em sua própria carreira. "Quando ele vinha aqui a Salvador, promovia encontros comigo e Edgard Navarro, quando bebíamos e comíamos conhecimento. Corajoso, tinha uma maneira muito especial de ver o cinema e a vida e me encorajava a vivê-la e a manter essa utopia de fazer cinema. Quando estava fazendo Sertânia, me telefonava para contar as angústias que passava, pedindo uma indicação ou coisa parecida. Queria muito ter trabalhado com ele. Ele queria que eu produzisse um filme seu, mas me sentia incapaz de tanta responsabilidade. Dizia pra ele que queria ser estagiário de um filme dele ou quarto assistente de direção. E queria muito ele no meu primeiro set de ficção, que ainda rodarei esse ano. Queria muito ele ainda por aqui, almoçando cinema", lamenta o diretor.

Influência e saudades

“Geraldo parte levando uma parte desse sertão dentro dele. Mas muito dele também fica com cada um de nós, impresso no cinema desde Viramundo até Sertânia. Fica uma lacuna na filmografia sertaneja, mas fica também um legado nos escritos e no audiovisual deixado por esse gênio e estudioso da estética e da linguagem cinematográfica. Que ele siga nos iluminando, na alquimia, na poesia, na literatura e no cinema", afirma a produtora Solange Moraes.

Nas redes sociais, o cineasta conterrâneo de Sarno, Fernando Bélens, lamentou: “Parece que esse inferno de perdas não tem fim, tristeza também não tem. Chora Poções, chora a Bahia, o Brasil e especialmente a América Latina que tanto amou. Seus filmes ficarão. Eternamente”.

Do mesmo modo, a vereadora Maria Marighella o homenageou: "Viramundo. Perdemos Geraldo Sarno, baiano, cineasta de profundo compromisso com o nosso país. Um dos grandes intérpretes do Brasil, em suas obras, o retrato de trabalhadoras e trabalhadores, o Nordeste e nossas migrações, a religião e as culturas populares”.

Da nova geração de cineastas influenciados pelo olhar a adentrar o Nordeste e o Brasil que Geraldo tanto valorizava, Ramon Coutinho relembra seu encontro com o mestre. "Antes dos filmes, a figura de Sarno me mobilizou inicialmente a partir das reflexões e diálogos do quase esquecido Seminário Permanente de Cinema, que aconteceu na Dimas em 2008. Ali, encontrei boa parte do que viria a ser a nova geração do audiovisual feito na Bahia. Grupos que podiam, com mais tecnologia e estratégias de produção, experimentar ao passo das provocações que Geraldo Sarno que já tinha, em sua trajetória, afirmado. Dos hibridismos estéticos entre documentário e ficção unidos a um desejo de transformação social permanente instigava outros modos de inventar imagens. Geraldo Sarno, junto a outros realizadores, perguntou sobre um país desconjuntado e complexo. Às vezes até antes da sociologia, alguns dos seus filmes ampliaram nosso imaginário da luta, do sertão, dos jogos de poder e do fazer cinematográfico em si", pontua o jovem realizador.

Do seu último filme, o citado Sertânia, aquela pancada que ecoa muito tempo depois dos créditos, os protagonista Vertin Moura e Julio Adrião relembram que o processo de composição dessa última obra-prima foi bem de acordo com a condição de mestre que Geraldo possuía. "Pessoalmente, ter feito Sertânia há quatro anos, é um alento, bem como uma responsabilidade, pois fizemos o último e magistral trabalho do Mestre Sarno, esse senhor que, como outros brasileiros, deveria ter um fundo permanente para continuar a dar sua melhor contribuição ao país, por meio de suas obras. Tem gente que devia ser proibida de morrer", afirma Julio Adrião.

Vertin Moura aprofunda essa última presença de Geraldo em um set. "Minha experiência com ele tem cheiro de intuição. A intuição que é o ponto alto do nosso encontro, da nossa amizade e, com toda licença poética, do nosso cinema. Eu acho que ele sempre soube o que queria com o cinema e isso não o fez engessado. Pelo contrário! Foi daí que extraiu seu ouro. Geraldo fazia filmes antes de eu nascer. Começou a filmar antes da era do HD, antes de poder revisar um plano ou sequência na hora. E mesmo já tendo estes recursos à mão para fazer seus últimos filmes, eu vi este homem intuir os acontecimentos do seu cinema sem necessitar de ‘monitor’, e saber de maneira poética, intuitiva e pessoal que daria certo. Mais que dar certo, que seria o certo. Foi assim em Sertânia, minha experiência direta com ele. Um dia, no set, filmando a cena em que Antão e Jesuíno discutem, onde a quarta parede se quebra, e o Antão fala em off: ’parecia que a gente tava numa espécie de teatro’. Não sei por qual ‘razão’ ou por falta de intuição, desconfiei dele, se ele sabia mesmo o que estava fazendo. Cometi o sacrilégio de perguntar sobre a continuidade do filme. Ele me deu um berro: ‘Você tá preocupado com isso?!’ Corta! Perdão, Geraldo! Agora eu sinto o que você sentia. Agora eu sei que o plano era outro. Cinema é poesia. Ficção e documentário se misturam, e eu e você estamos na mesma frequência. Até logo. Te amo”.

Todos nós, mestre Sarno. Todos nós.

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Cinema, Geraldo Sarno

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