Noites de Alface chama espectador para montar quebra-cabeças sobre ficção e realidade

Publicado sexta-feira, 18 de junho de 2021 às 16:12 h | Atualizado em 18/06/2021, 17:39 | Autor: Bianca Carneiro

Quando “Noites de Alface” começou a ser filmado lá no final de 2018, o mundo nem sequer tinha ouvido falar em Covid-19. No entanto, quase três anos depois, na sua estreia nas salas de cinema marcada para a próxima quinta-feira, 24, o longa sobre envelhecimento se mantém atual ao trazer a solidão e a perda de entes queridos como temas que norteiam a trama.

A pandemia pode até não ter chegado à bucólica cidadezinha onde mora Otto (Everaldo Pontes), no entanto, após uma grande perda, ele escolheu ficar confinado em casa. Tentando vencer a insônia com o chá de alface preparado por sua esposa Ada (Marieta Severo), ele atravessa as noites entre espiadas pela janela e a leitura de um livro de suspense, enquanto se dedica a resolver o mistério do sumiço do carteiro da vizinhança.

“A ficção tem essa capacidade de se antecipar. Ela lê o que talvez ainda não esteja acontecendo. É interessante esse filme que fala sobre a perda ter sido feito antes da pandemia. A arte tem essa capacidade infinita de escutar o que tá lá na frente, ver o que tá lá atrás, unir, juntar, prever os fatos, tirar conclusões, fazer você chegar a conclusões ou não”, afirmou a atriz Marieta Severo, em coletiva na quinta-feira, 17.

“A gente não fazia ideia desse momento que estaríamos vivendo. O que o filme coloca muito é a percepção da falta [...] A ausência, a perda do afeto estão no filme. A gente reflete sobre isso hoje de outra maneira”, explica o produtor Alexandre Rocha.

Com uma sinopse que lembra de A Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, Noites de Alface é baseado no livro homônimo de mesmo nome da jornalista Vanessa Barbara e traz à tona o clássico dilema de fato real ou fruto da imaginação. O mérito, no entanto, é a forma como o problema é criado por meio das lembranças e da abordagem ao envelhecimento, o que acaba fazendo com que a resposta sobre o que é verdade e o que é inventado seja apenas um detalhe irrelevante.

As lembranças, inclusive, requerem total atenção do espectador, pois o filme embaralha passado, presente e futuro para contar a história, tal qual o quebra-cabeça que Ada adora montar. O que marca o tempo é, principalmente, a iluminação, o som...e a falta dele. A história demora um pouco para atingir seu ápice, mas quando se desenvolve, o ritmo é corrido.

Para Everaldo Pontes, há uma certa semelhança entre ele e o seu personagem Otto. Assim como o protagonista que interpreta, o ator paraibano se considera curioso e inventivo.

“Fora as razões profissionais, eu não vivo se não tiver uma janela para olhar a vida dos outros. É uma necessidade minha. É muito importante ver o mundo, as ruas. É uma escola para quem é ator e para nossas vidas também”, afirmou.

Premiado em curtas, Zeca Ferreira faz a sua estreia na direção de longas. Teuda Bara, Inês Peixoto e Eduardo Moreira, do famoso Grupo Galpão de teatro, junto a João Pedro Zappa, completam o time do filme. A junção dos estilos de trabalho aparecem suavemente através do uso recorrente de plano-sequência e do ar teatral. Outro ponto é o cruzamento das histórias, que por sua vez, perpassam a diversos gêneros como drama, romance e comédia.

Cinema Nacional

Marcado para chegar ao circuito pouco depois do Dia do Cinema Nacional, neste sábado, 19, Noites de Alface teve a estreia celebrada pelo elenco. Fazendo um paralelo com o personagem Otto, que passa os dias lendo romances policiais, Marieta destacou a importância do consumo da ficção para as pessoas, principalmente no contexto da pandemia.

“O que mais me tocou nesse filme é a questão da ficção. A necessidade da ficção na vida das pessoas foi o motor principal que me levou para o filme e a querer contar essa história. O ser humano não sobrevive sem a arte, sem a ficção e o Everaldo, o Otto, personifica isso”, afirmou.

Para o diretor e roteirista do filme, Zeca Ferreira, o sentimento em finalmente colocar o filme na rua é um misto de vitória, mas também de estranhamento pelo fato da pandemia atrapalhar a completa experiência de cinema e do público.

“Dá um sentimento de vitória, mas também é estranho porque a gente não esperava por isso (pandemia). Pra mim a grande questão do cinema é a comunhão, muita gente estar vendo um filme junto, se emocionando junto. Vou sentir muita falta disso. É um filme feito para cinema, tem sangue do cinema”, explica.

“Quando se trata de cinema, tudo tá em crise. O formato, a duração dos filmes, o gênero, o veículo e o consumo. É impressionante isso”, lamenta Everaldo.

Sobre cinema nacional, Zeca ressalta que a pandemia atrapalhou o melhor momento já vivido pela sétima arte no país. No entanto, ele garantiu que ele e os outros diretores na cena vão continuar se esforçando para fazer com que a produção siga a todo vapor.

“A gente está vivendo o pior momento do melhor momento do cinema brasileiro porque a gente nunca produziu tanto e tão bem e vendo tão pouco. Temos uma produção muito diversa, um cinema de periferia muito poderoso. O grande cinema brasileiro hoje tá vindo de lugares que não sonharam a ter cinema até pouco tempo atrás. A gente tem uma produção muito poderosa, mas que ainda tem muita dificuldade de encontrar seu público e um público além do nicho dos festivais [...] Mas eu acho que a gente vai continuar insistindo. A gente vai fazer o que sabe fazer do jeito que der”, diz ele.

Confira o trailer de Noites de Alface

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