CINEMA
Premiado filme baiano traz história de jovem prestes a perder a visão
'Saudade Fez Morada Aqui Dentro' venceu o prêmio máximo no Festival de Mar del Plata, na Argentina


Apenas três filmes brasileiros chegaram a vencer o principal prêmio do Festival Internacional de Cinema de Mar del Plata, um dos mais tradicionais e antigos da América Latina: o primeiro foi Macunaíma (1970), de Joaquim Pedro de Andrade, e depois Separações (2003), de Domingos Oliveira. Pois o terceiro deles é a produção baiana Saudade Fez Morada Aqui Dentro, direção de Haroldo Borges, que levou o prêmio Astor Piazzolla no final do ano passado.
“O festival foi extraordinário, inimaginável. Ganhamos o prêmio principal. E foi a primeira vez que um filme ganha o prêmio pelo júri oficial e também o prêmio de público, o que é raro de acontecer”, comemorou Borges, que conversou com A TARDE sobre o filme.
“Ficamos muito empolgados porque o público era muito variado, desde jovens a idosos, e todos gostaram do filme. Foi muito especial”, conta.
Este é o segundo longa-metragem assinado por Haroldo Borges (o anterior foi Filho de Boi), mas o terceiro do coletivo/produtora da qual faz parte, a Plano 3 Filmes. A primeira produção deles foi Jonas e o Circo sem Lona, cuja direção é assinada por Paula Gomes.
Todos esses filmes rodaram por diversos festivais no Brasil e no mundo, mas o prêmio máximo em Mar del Plata é uma grande vitória a se comemorar, ainda mais sendo na Argentina.
“A gente tem um vínculo muito grande com Buenos Aires. Já estudamos lá, já filmamos lá, tem uma troca de muito tempo mesmo”, comentou Borges.
Agora, o filme está prestes a voltar ao país vizinho, já que foi a produção brasileira convidada a participar da mostra Cine del Mercosur, que começará amanhã, marcando uma fase de transição da administração argentina à frente do Mercado Comum do Sul (Mercosul) nos últimos anos em que esses filmes foram produzidos.
Na trama de Saudade Fez Morada Aqui Dentro, acompanhamos a história de Bruno, um garoto de 15 anos que está perdendo a visão.
Ele vive no sertão baiano e os dramas da adolescência e do amadurecimento são atravessados pelo destino trágico que ele enfrenta.
Cegueira como alegoria
O diretor conta que a gênese dessa história foi um curta-metragem que eles realizaram há muito tempo para a TV, sobre um garoto que vivia esse mesmo drama.
A atualização da história, no entanto, se deu por via metafórica, a partir do retrocesso de pensamento que veio à tona no governo Bolsonaro.
“Na minha família e entre amigos próximos, muitos compactuavam com ideias bolsonaristas, e isso foi muito chocante para mim. Daí passei a pensar a metáfora da perda da visão, parecia uma outra epidemia, mas de cegueira. Não é possível que as pessoas não enxerguem o que está acontecendo, eu pensava”, confidenciou Borges, que, então, resgatou a história do filme anterior, mas agora tratada na chave da ficção, e com boas doses de alegoria.
“Só que a gente não queria tratar da cegueira apocalíptica, daquela coisa terrível que a gente estava vivendo. Pensamos em uma história que, mesmo dentro da cegueira, apontasse para uma esperança, um caminho. Uma cegueira que mirasse a luz”, pontuou o diretor.
A partir de então, nasceu o projeto que foi feito na esteira do filme anterior do cineasta, Filho de Boi, gravado no interior da Bahia, no distrito de Poço de Fora (município de Curaçá, região do Vale do São Francisco, a 80 km de Juazeiro). Quando o projeto de filmagem se concretizou, eles retornaram à região que já conheciam bem.
Mas, diferentemente do filme anterior, filmado na zona rural do município, dessa vez eles preferiram fazer um filme mais urbano.
Lugar de resistência
“Poço de Fora, apesar de ser bem pequenininho, é um lugar muito rico culturalmente. Canudos aconteceu ali pertinho de onde o povoado foi montado. Há pessoas que moraram lá que conheceram Lampião, viram Antônio Conselheiro passar por ali, então é um lugar muito rico de luta e resistência”, observou Borges.
Ao herdar as tradições históricas e de raízes sertanejas fortes, a região passou a ser ideal para contar essa história, que é também sobre resistir e esperançar. O cineasta contou que isso está não só na trama do filme, mas também por trás das câmeras, uma vez que muitos moradores passaram a integrar a equipe de produção do filme.
Além disso, grande parte do elenco é da região, incluindo as crianças e adolescentes que dominam a trama. “São garotos que a gente foi conhecendo no caminho. Chegamos a fazer testes com cerca de 1300 meninos e meninas, o mesmo processo usado em Filho de Boi. O protagonista, aliás, Bruno Jefferson, é de Juazeiro. Ele já havia feito uma participação no filme anterior e dessa vez ele se destacou muito porque estava com muita vontade de fazer o filme”, lembrou Borges, que ainda pontuou a importância do trabalho de Fátima Toledo para a preparação do elenco. Não à toa, o filme também ganhou um prêmio pelo conjunto das atuações em Mar del Plata.
O diretor falou também de como o filme foi se construindo pela via da imersão no processo de filmagens. “A gente brincava que o Jonas e o Circo sem Lona era um documentário com jeito de ficção e no Filho de Boi quisemos fazer a ficção, mas com a coisa imprevista do documentário, usando atores não profissionais e trabalhando com muita improvisação”, afirmou o cineasta. “Mas no Saudade a gente deu um passo a mais no documentário”.
Isso porque, além dos atores não conhecerem o roteiro do filme – algo que foi se dando no decorrer do processo de filmagem –, a intimidade que eles já possuíam com a região e com grande parte da equipe proporcionou um entrosamento maior entre todos.
O diretor conta que entre chegar ao lugar, começar os testes, fazer a preparação e depois filmar, foram seis meses de convivência ininterrupta – as filmagens acabaram em janeiro de 2020.
O filme parte agora para outros ares antes de entrar em cartaz no Brasil, já tendo passado por outros festivais importantes, como o de Málaga, na Espanha.
E a trupe da Plano 3 Filmes não para. Haroldo Borges está finalizando o filme Abraços do Fim do Mundo, feito à distância na interlocução com os mesmos jovens de Saudade, durante a pandemia.
Eles também começam a trabalhar no documentário Sam, que acompanha o processo de transição de gênero de um personagem no interior da Bahia.
Com tantos sucessos e projetos em andamento, nem dá tempo de ter saudades de um próximo filme do grupo.