AGRO
Investimento em mobilidade impulsiona escoamento de grãos no Matopiba
Matopiba é formada por áreas que têm uma estabilidade climática

Responsável por cerca 12% da produção nacional de grãos, a região do Matopiba, que engloba os estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia, tem previsão de investimentos que prometem alavancar o escoamento de grãos, hoje a segunda maior porta de saída dos cereais produzidos no país. A posição é motivada em boa parte pela tecnologia de transporte multimodal (rodovias, ferrovias e hidrovias) aplicada na região.
Apesar do alto volume de produção, o escoamento ainda é um desafio, com grande parte da produção de grãos sendo transportada por estradas vicinais. Além disso, há necessidade de adequação dos terminais já existentes para absorver a produção.
Concessão de rodovias, ampliação da capacidade ferroviária e melhoria da navegabilidade das hidrovias são algumas ações previstas pelo Ministério dos Transportes para favorecer este importante portal de distribuição para a América do Norte, Ásia e Europa.
“Diversos projetos envolvem a ampliação da capacidade das rodovias, que representam cerca de 47% da malha, a maioria envolvendo a concessão de vias. Na parte rodoviária, nós fizemos 23 leilões, de 2023 até agora. Já contratamos R$240 bilhões em investimentos”, informa a secretária nacional de Transporte Rodoviário do Ministério dos Transportes, Viviane Esse.

Nova logística de distribuição
A utilização do sistema multimodal para escoamento de produção inverteu a lógica vigente de criar infraestrutura depois que a região produtiva já estava instalada.
“Durante muito tempo, a gente veio do histórico de ampliação de capacidade muito tardia. Então, as obras de duplicação, faixas adicionais, os próprios dispositivos que são os trechos nas áreas urbanas tão importantes para reduzir o número de acidentes, eles sempre aconteciam depois que aquela região já tinha se desenvolvido economicamente”, informa.
O crescimento regional, que antecedia a estruturação local, tornava-se um problema a ser solucionado.
“A região crescia, a infraestrutura ficava inadequada e aí era quase uma necessidade gritante de a gente ampliar a infraestrutura”.
Segundo a secretária, esse entrave estrutural fez com que boa parte do desenvolvimento se concentrasse nas regiões sul e sudeste.
A criação do Matopiba, em decreto presidencial de 2015, mudou essa realidade. “Agora, nós temos um desenvolvimento econômico nas cinco regiões do país, principalmente motivada pelo agronegócio”, afirma Viviane Esse.

O sistema multimodal de transporte, interligando as já existentes rodovias, ferrovias e hidrovias no Matopiba, promove economia de recursos, rapidez e segurança no transporte das cargas.
Ampliar a intermodalidade da exportação no Matopiba é uma das metas do governo, que pretende crescer a infraestrutura junto com o crescimento da produção.
“Precisamos de rodovias adequadas que levam a terminais ferroviários existentes”, diz a secretária. “Isso é muito importante: a ligação entre os diversos modais, seja ele rodoviário, ferroviário, e aquaviário”

Geografia favorece
Matopiba é formada por áreas que têm uma estabilidade climática, com regimes hídricos muito específicos, que é excelente para o agronegócio.
“Isso com que essa produção aconteça em duas safras e não apenas uma safra. Antes, a gente tinha a safra e a safrinha, que era muito menor do que a safra principal. Hoje em dia, a gente tem duas safras que produzem em tonelagem quase a mesma coisa”, explica a secretária.
Entre as ações realizadas para esta adequação, ela cita a ampliação da capacidade da rodovia 163, que vai até Santarém, Meritituba, e da 364, que vai para Porto Velho, fazendo uma ligação com o Arco Norte.
“É algo bastante relevante, porque diminui as extensões para alguns mercados como consumidores, já que somos produtores de commodities”, completa.
Ferrovias
“Nós teremos oito leilões de concessões ferroviárias”, anuncia Viviane Esse. Além disso, estão previstas ações de melhoria da capacidade e construção de novas ferrovias.
“A ideia é implantar melhorias na capacidade das ferrovias existentes, construção de novas, como a ferrocruz, que exige uma maturação mais complexa, porque implica em um investimento mais alto, já que está se instalando algo novo”, diz.
A capacidade das ferrovias será ampliada, ampliando seu volume, baseado em mapeamento realizado pelo Ministério dos Transportes, melhorando as funções dos terminais.

Conab estima produção nacional de grãos em 356,3 mihões de toneladas
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou recentemente a estimativa da produção de grãos na safra 2025/2026, que pode chegar a 356,3 milhões de toneladas. Os dados estão no 7º Levantamento de Grãos para o atual ciclo.
O volume estimado representa um incremento de 4,1 milhões de toneladas em relação à temporada de 2024/2025 e uma alta de 2,9 milhões de toneladas em comparação ao 6º Levantamento publicado no mês anterior. Caso o resultado se confirme, este será um novo recorde no volume a ser colhido pelos produtores brasileiros.
A Conab prevê uma nova produção recorde para a soja, sendo estimada em 179,2 milhões de toneladas. A redução das precipitações em março garantiu melhores condições de campo para que a colheita pudesse evoluir, chegando a 85,7% da área.
Mesmo com importantes estados produtores de soja apresentando um desempenho médio inferior ao registrado no ciclo passado, a produtividade média nacional das lavouras da oleaginosa foi a melhor já registrada, projetadas neste ciclo em 3.696 quilos por hectares.
Para o milho, segunda cultura mais cultivada no país, a Conab espera uma produção total de 139,6 milhões de toneladas, representando recuo de 1,1% em relação ao ciclo anterior.
Enquanto que o cultivo da primeira safra do grão registrou uma elevação na área, estimada em 4,1 milhões de hectares, refletindo em uma alta da produção, podendo chegar a 28 milhões de toneladas; na segunda safra do cereal a colheita está prevista em 109,1 milhões de toneladas, redução de 3,6% em relação ao volume obtido na temporada 2024/2025.
ARCO NORTE
O Arco Norte é um conjunto de portos, terminais portuários e estações de transbordo localizados nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Inclui portos em estados como Pará (Barcarena, Santarém, Miritituba), Amazonas (Itacoatiara, Manaus), Rondônia (Porto Velho) e Maranhão (São Luís). É um corredor logístico estratégico para o escoamento de grãos, especialmente soja e milho do Centro-Oeste, reduzindo custos e dependência dos portos do Sul/Sudeste.
Segundo a Embrapa, o Arco Norte é o principal eixo de escoamento para a produção do Matopiba. O porto de Itaqui (MA) é o grande destaque, movimentando cerca de 26,3% da soja exportada pela região.
Utiliza a logística multimodal, incluindo hidrovias (rios Tapajós, Madeira e Amazonas) e rodovias, a exemplo da BR-163, para transporte da safra. Representa o segundo maior ponto de saída de grãos do Brasil, consolidando-se como alternativa eficiente.

Investimentos em hidrovias
Na região do Matopiba, embora ainda não haja navegação comercial consolidada, os investimentos em curso buscam viabilizar o uso do modal hidroviário, ampliando a eficiência logística, reduzindo custos de transporte e fortalecendo o escoamento da produção agrícola.
De acordo com a Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação, do Ministério dos Transportes, o Governo Federal vem estruturando investimentos no transporte hidroviário com foco em três frentes: expansão da malha, melhoria da navegabilidade e estruturação de concessões.
No campo da expansão, o planejamento hidroviário federal, com base em georreferenciamento da Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação, prevê o desenvolvimento de milhares de quilômetros de vias navegáveis, com destaque para rios estratégicos nas regiões do Matopiba, como:
- Itapecuru (MA – 650 km)
- Mearim (MA – 616 km)
- Grajaú (MA – 561 km)
- Pindaré (MA – 456 km)
- Parnaíba (PI – 1.246 km)
- Eeixo do São Francisco, no oeste da Bahia (2.500 km)
- trechos nos rios Tocantins e seus afluentes.
Em relação às intervenções operacionais, destacam-se a manutenção de atracadouros no Maranhão e no Piauí, com investimento de R$ 24 milhões até 2027, e o destocamento (processo de remoção de toras e galhadas, bem como da vegetação aquática, de canais navegáveis bloqueados) do rio Parnaíba, que prevê a desobstrução de 455 km de canais navegáveis até 2028.
Também estão previstos investimentos estruturantes na hidrovia do rio São Francisco, com recursos oriundos da desestatização da Eletrobras, incluindo as seguintes ações:
- Dragagem sustentável - R$ 10,5 milhões
- Implantação de Instalações Portuárias Públicas de Pequeno Porte (IP4s) - R$ 14,5 milhões
- Implantação da IP4 de Juazeiro -R$ 30 milhões.
No eixo de estruturação, estão em desenvolvimento projetos como a concessão da hidrovia do rio Tocantins (1.778 km, com previsão de leilão no primeiro semestre de 2027), a delegação da hidrovia do Parnaíba ao Estado do Piauí e as tratativas para a retomada da navegação no rio São Francisco.
O Matopiba
Região considerada a grande fronteira agrícola nacional, o Matopiba compreende o bioma Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e responde por aproximadamente 12% da produção brasileira de grãos e fibras, principalmente soja, milho e algodão. A região é a que mais cresce, em área plantada, em todo o país.
O Matopiba reúne 337 municípios, 31 microrregiões e representa um total de cerca de 73,1 milhões de hectares (51% da área dos quatro estados). O Tocantins tem 37,95% da área, enquanto o Maranhão conta com 32,77%, seguido da Bahia, com 18,06%, e Piauí, com 11,21%.

O nome curioso é um acrônimo referente às duas primeiras letras dos estados em que faz divisa: Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia. Até a primeira metade do século 20, essa grande área era coberta por pastagens em terras planas e vegetação de cerrado e caatinga.
A região começou a ser explorada para o agronegócio a partir da década de 1980. A topografia plana propícia à mecanização, os solos profundos, a disponibilidade de água e o clima favorável ao cultivo das principais culturas de grãos e fibras com dias longos e elevada intensidade de sol possibilitaram o crescimento vertiginoso da região.
O movimento levou o Governo Federal a solicitar à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) um estudo sobre a região, por meio de acordo de cooperação técnica com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
O trabalho avaliou as características naturais, as questões fundiárias, o perfil da agropecuária, a infraestrutura e as condições socioeconômicas locais. Chegou-se, assim, à delimitação do Matopiba, oficializada em decreto da Presidência da República, em 2015.
Apesar de grande parte da área ser dedicada à agricultura de grãos, além de imensas áreas de pecuária, os imóveis rurais da região também abrem espaço para frutas, raízes e tubérculos, espécies florestais e pecuária.
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