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Lavoura de cultivo de soja avança sobre a vegetação do cerrado na região do Vão do Uruçuí, nos Gerais de Balsas

AGRO

Matopiba: a fronteira que virou potência agrícola

Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia fazem parte da principal fronteira agrícola do país nas últimas décadas

Lavoura de cultivo de soja avança sobre a vegetação do cerrado na região do Vão do Uruçuí, nos Gerais de Balsas - Foto Fernando Frazão / Agência Brasil

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Divo Araújo
Por Divo Araújo

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Poucas regiões do Brasil mudaram tanto em tão pouco tempo quanto o Matopiba. O que hoje é visto como uma potência agrícola era, há poucas décadas, um território pouco valorizado e com baixa ocupação produtiva.

“O Cerrado nem dado nem herdado, ninguém queria, porque não valia nada”, resume o engenheiro agrônomo Paulo Baqueiro, coordenador do governo baiano do Plano de Desenvolvimento do Matopiba.

Resumo

O que você vai ler nesta reportagem

  • Matopiba, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é uma fronteira agrícola brasileira com 73 milhões de hectares.
  • A região se consolidou a partir da pesquisa agropecuária da Embrapa, que superou as limitações do solo do Cerrado
  • Migração de agricultores do Sul trouxe conhecimento e habilidade, resultando em uma agricultura mais tecnológica e competitiva.
  • O impacto do agronegócio se estende ao desenvolvimento econômico local, com crescimento de infraestrutura e melhorias na qualidade de vida das comunidades.
  • Os desafios atuais incluem a busca por novas áreas de cultivo e garantir a inclusão da agricultura familiar no crescimento da região.

Formado por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o Matopiba consolidou-se como a principal fronteira agrícola do país nas últimas décadas. O nome é um acrônimo das iniciais desses quatro estados e a região, oficialmente delimitada em 2015, abrange cerca de 73 milhões de hectares distribuídos em 337 municípios.

No recorte territorial, o Matopiba engloba o sul do Maranhão, praticamente todo o estado do Tocantins, o sudoeste do Piauí e o oeste da Bahia — áreas que concentram as principais zonas de expansão agrícola no Cerrado.

A expansão agrícola, iniciada de forma mais intensa a partir da segunda metade dos anos 1980, transformou esses áreas— muitas vezes ocupadas por pastagens subutilizadas — em grandes polos de produção de grãos.

Para o subsecretário de Agricultura e Pecuária do Maranhão, Sérgio Delmiro, é preciso compreender melhor esse processo.

“O Matopiba ainda pode ser considerado uma fronteira agrícola, mas não mais como aquela fronteira virgem do passado. A gente já está num estágio de consolidação, com polos produtivos estruturados e alto nível de tecnologia”, afirma.

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A transformação começou pela ciência. A criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a formação de pesquisadores agrícolas no exterior abriram caminho para entender e corrigir as limitações do solo do Cerrado.

“Eles começaram a ver que a limitação para se usar o Cerrado era a questão do solo. O solo era ácido, tinha toxidez de alumínio”, explica Paulo Baqueiro. A partir daí, a correção com calcário e o avanço das tecnologias agrícolas tornaram viável uma produção antes considerada impossível.

Imagem ilustrativa da imagem Matopiba: a fronteira que virou potência agrícola
| Foto: Editoria de Arte A TARDE

Delmiro reforça esse ponto ao destacar o papel central da pesquisa. “O principal fator de transformação do Matopiba foi a ciência. Todo o trabalho da Embrapa com o Cerrado permitiu abrir novas áreas com culturas como soja, milho e algodão”, explica. Para ele, trata-se de um conjunto de inovações.

“A correção da acidez, o uso do calcário, a adubação — tudo isso aumentou a eficiência e a competitividade da produção.”

Esse processo não foi isolado. Ele dialoga com uma estratégia nacional mais ampla, voltada à redução da dependência externa de alimentos. “Nós importávamos praticamente 40% de tudo que a gente consumia”, diz Baqueiro.

Em pleno regime militar, conta Baqueiro, o presidente Ernesto Geisel reuniu os secretários de Agricultura da época e afirmou a necessidade de enfrentar o problema, “porque o que faz a revolução é fome”.

Foi nesse contexto que, seguindo a recomendação de Alysson Paolinelli, que viria a ser ministro da Agricultura, o governo decidiu enviar ao exterior cerca de “2.500 a 3 mil jovens entre 24 e 35 anos, formados em agronomia, medicina veterinária e biologia, para realizar mestrado e doutorado”, como conta o coordenador da expansão do Matopiba na Bahia.

A partir desse esforço, o Brasil passou a desenvolver uma agricultura adaptada às condições tropicais. Segundo o chefe-geral da Embrapa Cocais (MA), Marco Bomfim, esse é um dos pilares do sucesso do Matopiba.

O Brasil hoje é líder em ciência tropical. Não tem ninguém no cinturão tropical do globo que tenha o conhecimento para a produção que o Brasil tem

Bomfim conta que, quando a Embrapa foi criada, o desafio era considerado enorme. Ele também lembra que o Brasil era fortemente dependente da importação de alimentos e que a área do Matopiba era vista como inóspita.

“O pai da agricultura verde, um americano que ganhou o prêmio Nobel, veio até o Brasil, olhou o Cerrado e falou: vocês nunca vão conseguir produzir nessa área, não tem condição”, relata.

Bomfim destaca que a mudança de perspectiva veio com a atuação conjunta da Embrapa, das universidades e dos institutos federais, que passaram a desenvolver conhecimento próprio, adequado às condições tropicais. Segundo ele, ficou claro que não era possível simplesmente importar tecnologias de países de clima temperado. “Entendemos a questão da estrutura do solo”, afirma.

Marco Bomfim, chefe-geral da Embrapa Cocais (MA)
Marco Bomfim, chefe-geral da Embrapa Cocais (MA) | Foto: Divulgação

Migração de produtores

Ao mesmo tempo, o território recebeu uma onda de produtores. Vindos principalmente do Sul do país, esses agricultores trouxeram experiência, tradição e disposição para assumir riscos. “O pessoal do Sul trouxe esse incremento que foi o conhecimento e a tradição de serem agricultores”, diz Baqueiro.

Delmiro observa que esse perfil foi determinante. “O produtor que veio para o Matopiba já tinha um perfil mais empresarial, com mecanização em larga escala. Isso colaborou muito com o processo de crescimento da região”, afirma.

Muitos migraram após perdas com geadas ou deslocamentos causados por grandes obras, como a Hidrelétrica de Itaipu. Ao chegar ao Cerrado, encontraram terras baratas e a possibilidade de expandir a produção.

Esse movimento foi sustentado por crédito agrícola e políticas públicas. “Sem o crédito agrícola, o Banco do Brasil, principalmente, não teriam conseguido”, afirma Baqueiro.

Programas como o Prodecer (Programa de Cooperação Nipo-Brasileiro para o Desenvolvimento Agrícola dos Cerrados), com participação japonesa, também tiveram papel importante ao financiar infraestrutura e tecnologia.

Para Delmiro, esse ambiente institucional foi decisivo. “As políticas agrícolas e o crédito rural ajudaram a dar sustentação a esse processo de expansão. Sem isso, não teria sido possível avançar na escala que a gente viu”, diz.

A combinação entre ciência, capital financeiro e migração produtiva resultou em uma expansão acelerada.

“Quando eu cheguei em 1985 em Barreiras, o oeste baiano tinha em torno de 30 mil hectares plantados. Hoje são 3 milhões 785 mil hectares”, relata Baqueiro. A produtividade acompanhou esse avanço. “Quando a gente chegou, um hectare produzia 25 sacas de soja. Hoje a média são 67 sacas.”

Esse crescimento colocou o Matopiba no mapa da produção nacional. A região já responde por cerca de 12% da soja produzida no país, com milhões de hectares cultivados e safras que movimentam bilhões de reais. Para Marco Bomfim, esse estágio representa uma mudança definitiva.

“Hoje, a gente já pode dizer que é uma região consolidada do ponto de vista de estrutura produtiva”, afirma.

Segundo Baqueiro, a matriz produtiva do Matopiba é bastante diversificada, embora a soja tenha se consolidado como cultura dominante, ocupando hoje quase 2 milhões de hectares.

O Brasil já viveu o ciclo do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do café, da seringueira, do cacau. E agora nós estamos no da soja

Incertezas climáticas

Ainda assim, a expansão não foi homogênea nem simples. No início, os produtores enfrentaram incertezas climáticas e falta de informação. “Os agricultores do Sul foram aprendendo na marra onde é que chovia bem e onde é que não chovia”, lembra Baqueiro.

Em algumas áreas, os erros custaram caro. “Quem vai de Barreiras para Luís Eduardo do lado esquerdo é tido como cemitério dos gaúchos. Muita gente escolheu ficar ali porque era perto de Barreiras, mas não chovia tão bem quanto em outros locais.”

A dinâmica das chuvas é um dos elementos centrais para entender o funcionamento da região. Em áreas mais ao norte do Matopiba, os índices pluviométricos podem chegar a 1.800 milímetros por ano, concentrados em cerca de seis meses.

“Quando chove um milímetro, significa que cai um litro de água por metro quadrado. Então você imagina o volume que é isso”, explica Baqueiro.

Imagem ilustrativa da imagem Matopiba: a fronteira que virou potência agrícola
| Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

Esse regime, combinado com a evolução do manejo do solo, permitiu maior resiliência das lavouras.

“Hoje as raízes conseguem ir a profundidades maiores. Elas vão buscar água no subsolo e resistem mais tempo”, afirma.

Nesse contexto, o aquífero Urucuia tem papel fundamental. Trata-se de uma grande formação geológica que funciona como reservatório natural. “Imagine um grande colchão que você vai jogando água. Quando ele se satura, começa a brotar pelos lados. Esses são os rios nossos”, descreve Baqueiro.

Ele destaca a importância do aquífero Urucuia para a disponibilidade de água na região, permitindo a instalação de poços artesianos de alta vazão.

“Tem postos artesianos de 300 metros cúbicos por hora. Significa você encher 300 caixas de mil litros em uma hora”, diz.

Segundo Baqueiro, essa abundância também se reflete na paisagem, com a presença de tanques pulmão e de rios — como o Rio Grande, que nasce na fronteira com Goiás e percorre 594 km até chegar a Barra, no Rio São Francisco — em diferentes pontos do território, ajudando a garantir o abastecimento humano, animal e industrial das cidades.

Para Delmiro, esse conjunto de fatores naturais e tecnológicos explica a consistência da produção. “O Matopiba reúne condições naturais favoráveis com tecnologia já consolidada. Isso permite um padrão produtivo competitivo”, afirma.

Desafios para o crescimento

Se o passado foi marcado pela expansão, o presente impõe novos limites. A região entra agora em uma fase mais complexa, em que crescer exige mais tecnologia, planejamento e infraestrutura.

Do ponto de vista produtivo, uma das principais mudanças é a ocupação das áreas mais aptas. “As áreas com maior aptidão agrícola estão praticamente todas ocupadas”, afirma Marco Bomfim.

Isso significa que a expansão passa a ocorrer em solos mais desafiadores. “Agora, temos uma expansão para áreas consideradas menos aptas”, acrescenta.

Delmiro reforça esse diagnóstico. “Ainda existe área para crescer, mas não são mais aquelas áreas mais fáceis. Isso exige mais tecnologia e mais planejamento”.

Imagem ilustrativa da imagem Matopiba: a fronteira que virou potência agrícola
| Foto: Divulgação

Essas áreas exigem novas soluções técnicas. São solos mais arenosos, com menor retenção de água e maior vulnerabilidade climática. “Elas precisam envolver tecnologias para a utilização racional desses solos”, explica Bomfim. Isso inclui a adoção de culturas alternativas e maior diversificação produtiva.

Outro eixo central é a inclusão produtiva. Apesar da forte presença do agronegócio empresarial, a agricultura familiar tem peso significativo na região. “Mais de 70% dos produtores são de agricultura familiar”, destaca Bomfim.

Delmiro também chama atenção para esse ponto. “O desenvolvimento precisa alcançar todos. Não é só o grande produtor. A agricultura familiar também precisa estar inserida nesse processo”, afirma.

“A gente deu muita ênfase também à agricultura familiar, de maneira a acabar com essa divisão entre grande e pequeno”, afirma Baqueiro.

Bomfim reforça essa necessidade. “A tecnologia sozinha não resolve. É preciso política pública estruturante, acesso ao mercado e organização social”, diz.

Nova realidade

O impacto do agronegócio no Matopiba vai além da produção. Ele transformou cidades, ampliou serviços e mudou a dinâmica econômica de regiões inteiras. “A transformação no oeste baiano foi fantástica para quem assistiu”, afirma Baqueiro.

No Maranhão, esse processo também é evidente. Delmiro cita o município de Balsas como exemplo. “O impacto é estrutural e transformador. Não só no campo, mas na cidade. Balsas virou um polo regional dinâmico do agronegócio”, afirma.

O crescimento populacional e econômico é visível. “Você tem empresas chegando, rede hoteleira crescendo, comércio se expandindo. Só em Balsas são mais de 600 engenheiros agrônomos registrados”, destaca o subsecretário de Agricultura do Maranhão.

Novos corredores surgiram, especialmente voltados para o Norte e o Nordeste
Novos corredores surgiram, especialmente voltados para o Norte e o Nordeste | Foto: Divulgação

Esse avanço puxou uma cadeia mais ampla de desenvolvimento. Educação, saúde e comércio se expandiram. “Quando o agronegócio vai bem, você vê isso imediatamente no comércio, no emprego, na arrecadação. O município ganha autonomia e capacidade de investir”, afirma Delmiro.

Segundo ele, o agronegócio tem impacto direto no crescimento econômico do estado.“ O PIB do Maranhão, em especial, aumentou 4% nesse ano, bem maior do que a média nacional”, diz.

O avanço é mais evidente, explica, na região sul do estado, onde estão concentradas áreas produtivas, com destaque para municípios como Balsas, que hoje figura entre os maiores PIBs do Maranhão.

A mudança também aparece na qualidade de vida. “Hoje você tem no oeste baiano um polo de saúde, um polo de educação, serviços proliferando de maneira intensa”, afirma Baqueiro. O resultado é uma economia mais dinâmica e diversificada. “Essas fazendas hoje são verdadeiras cidades

Baqueiro, que também é professor, conta que, em uma palestra na Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob), foi questionado pelos alunos sobre concentração de renda e desigualdade social no oeste baiano. Ele defendeu o papel do agronegócio na dinamização da economia regional.

“Se não fosse o agronegócio, não existiria a Ufob, não existiria a Uneb, não existiria o Ifba, não existiriam as universidades privadas”.

Para Marco Bomfim, o desafio agora é consolidar esse avanço. “Nós entramos numa outra fase, que é de garantir o que a gente já conquistou”, diz.

Delmiro segue na mesma linha: “O Matopiba já mudou de patamar. Agora o desafio é sustentar esse crescimento com mais eficiência e inclusão.”

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