AMAB EM FOCO
Um tratamento eficaz somente é possível a partir do diagnóstico correto
Confira a coluna Amab em Foco

Enquanto o Brasil celebra leis segmentadas, a violência estrutural devora seus filhos indiscriminadamente.
Não há mal que se cure tratando apenas os sintomas. O médico que, diante de um paciente em sepse, ocupa-se exclusivamente com a pneumonia comete negligência técnica. Salvará o pulmão. Perderá o doente. É essa a metáfora que melhor traduz o debate sobre violência no Brasil: um país em sepse, tratado como se apenas um órgão estivesse comprometido.
A violência contra a mulher é real, grave e inadmissível. Reduzi-la a um fenômeno autônomo, apartado do tecido mais amplo da violência brasileira, constitui erro intelectual com consequências práticas desastrosas.
O Brasil registra mais de 40 mil homicídios dolosos por ano. Desse número brutal, 75% a 80% das vítimas são homens — em sua maioria jovens negros das periferias. Morrem cedo, violentamente, em silêncio institucional. A Doutrina Social da Igreja é peremptória: todo ser humano possui dignidade inalienável por ser imago Dei. Quando o discurso dominante estabelece gradação de importância entre vítimas, comete violência simbólica — e fraude intelectual.
A vulnerabilidade não tem gênero exclusivo. Tem endereço, idade e condição social. Crianças, idosos, pessoas com deficiência, moradores de rua — cada grupo marginalizado carrega cicatrizes do mesmo mal-estar estrutural. Ignorar essa teia para enfocar apenas uma vulnerabilidade não é empatia: é miopia analítica vestida de virtude.
Há uma verdade incômoda: os homens são simultaneamente as principais vítimas e perpetradores da violência. Esse paradoxo é estrutural. Um homem que mata outro numa disputa de tráfico carrega a mesma estrutura psicossocial do que agride a companheira. São manifestações distintas do mesmo déficit civilizatório. O Brasil tem uma das maiores taxas de feminicídio do mundo não apesar de ter uma das maiores taxas de homicídio geral — mas precisamente por causa disso. Para cada mulher assassinada em razão do gênero, mais de 25 pessoas morrem nas ruas, presídios e favelas. Isso não minimiza nenhuma morte — amplifica o escândalo.

Santo Tomás de Aquino ensina que o remédio deve corresponder à causa real do mal. A Lei Maria da Penha representa avanço civilizatório — mas não reduzirá o feminicídio enquanto não houver política séria de redução da violência estrutural que o alimenta.
O debate brasileiro sofre de fragmentação ideológica: progressistas priorizam o feminicídio; conservadores, o tráfico. Ambos capturam uma fatia da realidade e, ao absolutizá-la, perdem a visão do conjunto. A violência tem causas profundas: desigualdade econômica abissal, colapso das estruturas familiares, falência educacional nas periferias, corrupção sistêmica e crime organizado como única via de ascensão para milhões de jovens. Enquanto não enfrentarmos essas causas, continuaremos fazendo curativos num corpo que sangra por dentro.
A mulher espancada em casa e o jovem baleado na favela são vítimas do mesmo fracasso civilizatório. O agressor doméstico e o pistoleiro do tráfico beberam na mesma fonte de brutalidade. Curar o paciente exige coragem intelectual — e resistir à tentação de transformar sofrimento alheio em capital político.
Tratar a violência contra a mulher com a seriedade que ela merece não é incompatível com tratar a violência contra todos os outros. Pelo contrário: só é possível fazer o primeiro se fizermos o segundo.
"Não existe uma hierarquia de dignidades. A vida humana, em qualquer circunstância, reclama da consciência moral o mesmo respeito absoluto."
*Juiz de Direito da 2ª Vara de Família da Comarca de Vitória da Conquista (BA)Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
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