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A nova fazenda modelo ou a quadrilha de Thor
Confira o artigo de Jolivaldo Freitas

Naquela manhã sonolenta, enevoada, chamando chuva, perto dos arvoredos e cachoeiras do Eco Zen, quando o silêncio da vizinhança era quebrado apenas pelo tilintar distante de correntes, barulho de prato, tilintar de talheres e pelo balançar das folhas, uma organização verdadeiramente criminosa, sem precedentes, pensava na forma de colocar em prática o mais ousado plano já arquitetado no submundo animal.
Sob o comando do líder — cão de porte de pelagem branca, imponente, originário da cruza de labrador com chow-chow e, por isso, com a língua vermelha, olhar de veterano, cheio de desfaçatez e agora com reputação dividida entre justiceiro e fora da lei — reunia-se a temida “Quadrilha de Thor”.
Ao seu lado, o estrategista Shaolin, pai de Thor, de medidas menores que o filho, mas cheio de autoridade, mestre em fugas silenciosas e invasões de quintais; e Chayanne, cadela malhada de charme irresistível, que costuma sumir de sua casa, mais distante, para se encontrar com a matilha. Ela tem faro infalível para linguiças defumadas.
Como cérebro logístico da operação, a potra Pocotó, especialista em coices táticos e que não gosta de nenhum tipo de carga. Só faz desfilar seu charme de potrinha Appaloosa dourada e alaranjada. Transporte de carga pesada, nem pensar. Nem leve também. Ela é conhecida por roubar escondido até mesmo a ração dos cachorros — e onde se viu égua gostar de ração canina? Ela gosta e até foi pega degustando um saco de 50 quilos de ração. Pegaram com a pata na massa.
O alvo? Nada menos que o estoque completo de carnes destinadas à maior feijoada comunitária de Imbassahy, no Litoral Norte de Salvador. Estavam lá, na mesa da cozinha, o pé de porco, costelinha, paio, calabresa, charque, bacon, músculo, toucinho e até aquela carne-seca reservada por Zé, o organizador e excelente hostess, para “ocasiões especiais”.
Thor, embora hoje temido como líder da carnificina gastronômica, carregava em seu currículo um ato heroico recente. Semanas antes, salvara bravamente seu Zé de um feroz ataque de pitbull. Em combate digno de filme policial, avançou sobre o agressor, sofreu ferimentos em uma das patas e garantiu a sobrevivência do cidadão.
Mas a gratidão humana mostrou-se mais curta que rabo de bulldog: nem um osso, nem um sachê premium, somente um cafuné de agradecimento e tome furada de injeção para curar o ferido. Thor ficou revoltado, mas não disse nada. Engoliu as agulhadas calado.
Foi esse descaso que, segundo fontes cigarreiras do oco das árvores, despertou em Thor sua faceta vingativa.
— Se não reconhecem heróis, conhecerão ladrões! — teria latido o líder, segundo testemunhas galináceas e bovinas.
Pois, quando os organizadores e cozinheiros deram as costas, o plano urdido entre cães e potra foi colocado em prática. Pocotó derrubou discretamente a cerca dos fundos com precisão cirúrgica. Shaolin neutralizou os alarmes improvisados (duas latas presas em barbante). Chayanne farejou os petiscos na cozinha com precisão de investigadora forense. E Thor coordenou a retirada.
Em menos de um minuto — tempo recorde no mundo do crime rural — toda a carne desapareceu.
Os produtos foram levados para um esconderijo secreto atrás de uma pousada do Eco, onde a quadrilha realizou o “banquete do século”. Testemunhas afirmam que a velocidade de consumo foi tão absurda que uma linguiça inteira desapareceu antes mesmo de tocar o chão.
A vítima, ironicamente o mesmo homem salvo por Thor semanas antes, encontrou apenas a panela vazia e marcas de patas. Thor tinha se vingado porque gratidão atrasada tem juros.
Chamaram o ganso, que cogitou abrir investigação, mas ele declarou não possuir jurisdição sobre equinos estrategistas e cães organizados.
Certo é que, até hoje, moradores contam em tom de suspense sobre a manhã em que a feijoada sumiu. Thor permanece uma figura controversa: metade lenda do bem, metade meliante.
Herói? Bandido? Vingativo? Vingador?
Mas saiba, para seu governo, que a partir de então uma coisa ficou certa em toda a região e adjacências: quando o cheiro de carne de churrasco sobe aos céus, a famosa “Quadrilha de Thor” está por perto.
Jolivaldo Freitas é Escritor, romancista e jornalista. Autor do livro infantil “Pequenas Histórias para o seu Boizinho Dormir”, dentre outros.
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