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Do outro lado da estrada

Confira o artigo de José A. Moura Neto

José A. Moura Neto
Por José A. Moura Neto
Imagem ilustrativa da imagem Do outro lado da estrada
Foto: Ilustrativa | Freepik

Toda geração produz seus símbolos involuntários. Houve o tempo dos cigarros no canto da boca, dos bigodes e dos festivais hippies. Os de hoje talvez sejam os vídeos verticais de quinze segundos e as indignações instantâneas.

Foi assim que um estudante de medicina conseguiu transformar um tênis suíço, uma estrada de barro e uma Unidade Básica de Saúde em personagens de um pequeno drama nacional. Bastou ligar a câmera do celular e lamentar, em tom de deboche, o destino reservado ao seu calçado importado.

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Em alguma medida, é até compreensível. Imagine nascer numa prateleira impecavelmente iluminada de Zurique, cercado por ciclovias perfeitas, cafés silenciosos e design minimalista, para terminar os dias numa estrada de barro no interior do Nordeste. Não deve ser exatamente o futuro imaginado para um tênis suíço.

Passada a caricatura, o episódio revela algo maior do que a imprudência de um estudante na internet. A medicina brasileira vive uma contradição curiosa. Nunca tivemos tantos cursos e tantos alunos de jaleco. Ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos discutido tão pouco o sentido humano da profissão. Formamos médicos capazes de interpretar exames sofisticados, mas nem sempre preparados para interpretar o Brasil.

E o Brasil, à despeito dos tênis importados, acontece ali: na Unidade de Saúde distante, na estrada ruim, no município pequeno, no posto sem glamour, na sala abafada onde alguém espera atendimento. Para boa parte da população brasileira, aquilo que o estudante chamou de “fim do mundo” é casa. É onde vivem, trabalham, criam filhos, adoecem e morrem milhões de brasileiros. A verdade é que nenhum hospital de ponta existe sem periferia. Nenhum centro médico sofisticado existe sem o interior. E nenhuma medicina pode existir apenas dentro de bairros nobres, congressos científicos e salas climatizadas.

O caso também traz uma oportunidade para os gestores públicos. Se a estrada até a Unidade de Saúde virou personagem principal do debate, talvez ela realmente mereça atenção. Quem sabe o prefeito – que reagiu com indignação compreensível – possa transformar a crise em símbolo positivo: melhorar o acesso, fortalecer a estrutura da unidade e, ironicamente, eternizar o episódio como o dia em que um comentário infeliz ajudou a acelerar melhorias reais. Seria um desfecho elegante.

No fim, todos temos algo a aprender. O poder público, que indignação pode – e deve – se transformar em melhoria concreta. As faculdades, que técnica sem sensibilidade produz profissionais incompletos. E o estudante, que medicina não combina com desprezo social. Mais grave do que um tênis suíço sujo de barro é não conseguir enxergar a dignidade do outro lado da estrada.

*Médico nefrogista
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acesso à saúde desigualdade social Educação Médica Empatia na Medicina Medicina Brasileira saúde pública

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