ARTIGOS
O 13º Apóstolo
Confira artigo do jornal A TARDE desta sexta

Hoje é sexta-feira da Paixão. Acordei reflexivo para ler um pouco da Palavra de Deus e terminar a minha segunda leitura de O 13º Apóstolo, de autoria do escritor baiano e advogado criminalista Sérgio Habib.
Sérgio foi o autor preferido de minha mãe, Tereza, que hoje, certamente, está sentada à direita de Deus Pai, onde Cristo intercede por nós (Romanos 8:34), orando por nós e celebrando a Semana Santa. Justamente por conta desta obra, ela não cansava de afirmar: “— O livro é lindo, Lú.”
Sérgio é uma das mais brilhantes mentes que já conheci: pensamento rápido, escrita fácil, ideias conectadas, capacidade criativa incrível. Bom pai, bom amigo, leal companheiro. Suas palavras são flechas que, dirigidas ao papel, cortam os adversários ao meio — irrespondíveis; aos canalhas, soam como uma luva. Já li defesas brilhantes preparadas por ele.
Mas hoje, em especial, deparei-me com suas reflexões sobre Judas, dignas de uma peça forense que aclamaria uma sentença de inocência. Na inteligência de Sérgio, Judas não traiu Jesus, ainda que as evidências apontem que o teria feito por 30 moedas de prata. “Judas não tinha perfil de traidor; ao contrário, era fiel aos ideais de libertação do povo judeu, fundamentalista e radical opositor da dinastia romana” (p. 152).
Sentença: não houve traição. Judas avaliara mal os acontecimentos. Ao entregar Jesus aos que o perseguiam, imaginou que, com isso, deflagraria um levante da massa contra o império. Primeiro, por conta de sua entrada triunfal em Jerusalém, fazendo crer que sua prisão poderia dar início a um levante. Segundo, porque Jesus era tido como o Messias e, como tal, não se deixaria prender. Terceiro, porque o seu posterior suicídio é a prova de que, depois que tomara consciência do mal que causara, deu-se conta de que seu plano falhara inteiramente e seria irreversível. Por fim, afirma que, sem Judas, a história não se escreveria, as Escrituras não seriam cumpridas e o cristianismo não teria se perpetuado. “Sem Judas não haveria Pilatos, julgamento, bacia, sentença. Judas foi o motivo de tudo.”
Só uma inteligência como a de Sérgio poderia conceber um argumento tão candente para uma das mais inglórias defesas que poderiam ser apresentadas a um advogado criminal. Demais, a linda história de cumplicidade entre Domenicus — o mordomo de Cláudia Prócula, esposa de Pôncio Pilatos — e Raquel, sua amada judia, e o caminho de evangelização que deveria seguir com os gentios após a crucificação de Jesus.
Relembrei minha passagem, há menos de 60 dias, por Israel, poucos dias antes de ser deflagrada a guerra. Depois de me banhar no Mar Morto, percorrer o deserto de Neguev, o oásis de En Gedi, passar pelo Monte da Tentação, ouvir o pastor João pregar no Monte das Bem-aventuranças, cruzar o mar da Galileia, me batizar no rio Jordão, passando antes por Tiberíades, e orar no Muro das Lamentações, agora, com a leitura da obra de Sérgio, estou pronto não mais para ler a Bíblia, mas para vivê-la como um livro de rituais diários que inspiram e fazem respirar. Afinal: “Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom; porque a sua misericórdia dura para sempre” (Salmo 118:1). E, como afirma o principal salmo do Hallel: “Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Salmo 118:24).
Boa Semana Santa para todos. Feliz Páscoa.
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