ARTIGOS
O Papa é pop ou frouxo?
Confira o artigo de Jolivaldo Freitas

O “coisa rúim” (como diria minha avó, que era católica carismática, ou seja, da mesma linha paralela do xiitismo islâmico, mas com outra roupagem) do Donald Trump conseguiu desagradar gregos, troianos, gaúchos e baianos quando, em sua rede Truth Social, disse com todas as letras que o Papa Leão XIV é fracote. Criticou sua visão de política externa, que considera insuficientemente rigorosa com armas nucleares. Será que o Vaticano esconde um botão vermelho na Capela Sistina? Talvez por isso não deixem que a gente fotografe lá dentro.
Mas sejamos coerentes. O “coisa rúim” do Trump, desta vez, tem mesmo razão. Nunca vi um papa ser tão menos pop e pronto como Leãozinho. O cara não rosna: mia! Esse episódio, que faz a amalgamação da geopolítica, teologia e um leve toque de stand-up involuntário, expõe o pontífice. Trump, gerente das armas mais letais do planeta, cobra do papa uma postura mais dura. Falndor a verdade: só se o papa ajudasse com um sermão e dois guardas suíços.
Mas o papa hesita demais. Pensa, pensa. Este Leão XIV não tem exatamente o estilo “tweet e ataque” de alguns líderes contemporâneos. Ele faz a tal da diplomacia contemplativa. Seus sermões, suas homilias, parecem as dos velhos padres de antigamente da Igreja de Nossa Senhora do Mont Serrat, na Ponta do Humaitá, que davam sonolência em nós, meninos.
Questionado sobre a guerra envolvendo o Irã, o papa foi “radical”: pediu paz e nada mais disse ou ousou. Talvez até se tivesse ameaçado Trump com a excomunhão funcionasse mais. Ou ameaçasse chamar São Miguel Arcanjo com sua espada flamejante. Todo diabo tem medo de São Miguel. Trump interpretou a posição do papa como apenas fraqueza.
Mas o papa é fraco mesmo. Mostrou desde o início, e claro que os cardeais elegeram para apagar o fogo que o Papa Francisco, seu antecessor, tinha posto no Vaticano. Era preciso alguém mais “prudente”. Um gato manso. Em outra ocasião, ao comentar tensões no Oriente Médio, Leão XIV pediu cessar-fogo e diálogo, como se essa posição no mundo atual fosse revolucionária. Hoje, na arena geopolítica, pedir calma soa como “titubear”. Existem relatos de que, em reuniões internas, o papa já demorou mais tempo escolhendo palavras do que alguns governos levam para escolher alvos. Foi defendido por um cardeal: “Sua Santidade não hesita — ele pondera”. O papa propôs “mais escuta e menos pressa”, ou seja, adiem, até que ninguém mais lembre.
Na maioria dos casos, tem feito um silêncio “estratégico”. Para muitos, é indecisão. Aí Trump se aproveita e atropela com seu jeito desumano e caótico de ser. Até garantiu que o papa deve a ele sua eleição. Vá saber. Só falta conclave em Washington. O papa disse que não tem medo de Trump; bom saber. Mas que ele saiba que não basta apenas ser um líder espiritual. Como diria uma boa e velha propaganda criada pelo falecido publicitário baiano Duda Mendonça: “Não basta ser pai. Tem de participar”. Que, a partir de agora, o Papa “vá de com força”, como se diz na Bahia.
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista. Membro da Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e da Academia de Cultura da Bahia (ACB).
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