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Quando a luz esquece da sombra

O que acontece dentro de um ser humano para que isso seja possível

Sheila Maria Lima Santos
Por Sheila Maria Lima Santos
Imagem ilustrativa da imagem Quando a luz esquece da sombra
Foto: freepik

Existe algo profundamente perturbador quando percebemos que a mesma pessoa capaz de acolher dores humanas, conduzir reflexões profundas e tocar a alma de alguém, também pode atravessar limites e se tornar abusadora. O que acontece dentro de um ser humano para que isso seja possível?

Em que momento alguém deixa de servir à luz e começa a servir à própria imagem iluminada? Talvez a questão mais difícil seja justamente esta: luz e sombra não habitam pessoas diferentes. Habitam a mesma psique. E, talvez, um dos maiores perigos do ser humano seja acreditar-se consciente demais. Evoluído demais. Espiritualizado demais. Bom demais. Porque aquilo que negamos em nós não desaparece; apenas desce silenciosamente para a sombra.

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Quantas vezes alguém constrói uma identidade tão sustentada em ser “o curador”, “o terapeuta”, “o guru”, “o líder”, “o consciente”, que já não consegue reconhecer a própria escuridão? E, o que acontece quando uma pessoa passa a acreditar mais na imagem que sustenta do que na humanidade que carrega?

A sombra não aceita exílio. Ela continua viva...E, quando não é reconhecida, começa a agir pelas costas da consciência. Às vezes como sedução. Às vezes como necessidade de poder. Às vezes como manipulação emocional. Às vezes como a perigosa sensação de estar acima dos próprios limites humanos.

O problema não é ter se aproximado da luz, da consciência ou da espiritualidade. O perigo é quando alguém acredita que “é” essa luz.

Mas, em que instante o ser humano deixa de se relacionar humildemente com a consciência e começa a identificar-se com ela? Em que momento o cuidado vira domínio? A condução vira poder? A escuta vira sedução? A admiração vira autorização? Talvez esse seja um dos fenômenos mais perigosos dentro dos espaços terapêuticos e espirituais: quando alguém passa a acreditar que pode atravessar os limites do outro sem perceber que já perdeu os próprios.

É onde cabe uma afirmação de Jung que diz: Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Porque o amor verdadeiro não captura. Não invade. Não manipula. Não transforma o outro em extensão do próprio ego. O amor devolve o outro para si mesmo. E, talvez, toda vez que alguém se acredita “acima” do humano, comece, lentamente a perder a própria humanidade.

No fundo, o perigo nunca esteve na sombra. A sombra faz parte da condição humana. O perigo começa quando alguém acredita ter se tornado apenas luz; e é nesse exato instante que a escuridão deixe de ser percebida e passe a conduzir silenciosamente a consciência pelas costas.

Talvez amadurecer espiritualmente não seja eliminar a sombra. Mas lembrar-se dela com humildade.

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