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Trocar de presidente ou de detergente

Confira o artigo de Jolivaldo Freitas

Jolivaldo Freitas*
Por Jolivaldo Freitas*
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista
Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista - Foto: Divulgação

No meio de radioterapias, bancos e fantasmas políticos está a eleição mais embolada. Temos discursos repetidos, bandeiras desfraldadas e agitadas nas redes sociais e, como todo o sempre desde a implantação da República, garantias de salvação nacional.

De novo, outra vez, surgem os heróis da pátria. Inapelavelmente voltamos à chatice de “você é Lula”, “você é Bolsonaro”, agora na figura de seu filho Flávio. Começaram os capítulos finais de uma novela arrastada e desgastada que vem de antes das eleições de quatro anos atrás. E as famigeradas redes sociais não nos deram sossego, com o idiota da aldeia ganhando ares de sábio.

Estamos dentro de uma distopia, de um novelão asfixiante. O país espremido entre extremos ideológicos. Ninguém sequer se olha no elevador. Um aperta o botão do térreo e outro o primeiro andar para não saírem juntos, serem vistos lado a lado. Os amigos ficaram chatos. Os parentes, uns pentelhos.

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Da sua guarita, a extrema esquerda segue apostando na resistência histórica e na narrativa social. Do outro lado da trincheira está a extrema direita insistindo na guerra cultural permanente. O Brasil virou mero grupo de WhatsApp. Ninguém lê o texto inteiro. Mas entende de tudo. Opinião formada. O eleitor levado por uma doideira de furacão. E vai, no final das contas, encarar a urna como se fosse um cardápio de estrada na madrugada. Vai no lanche mais pela fome que pelo entusiasmo da qualidade.

Cenário ideológico dos infernos, tumultuado. Temos dois bons ingredientes para apimentar a feijoada geral. Os bastidores preenchidos de novos atos. De um lado – para mexer diretamente com o imaginário – vem a saúde do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro, a crise moral envolvendo o senador Flávio Bolsonaro.

Lula passou esta semana pela primeira sessão de radioterapia preventiva no Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, após a remoção de uma lesão na cabeça realizada em abril. Volta-se à questão das condições físicas do presidente e sua capacidade de enfrentar mais uma campanha marcada por tensão máxima, viagens exaustivas e bombardeios políticos diários. Ele, idoso. Em Brasília, até um espirro vira teoria da conspiração, e o assunto já vem tomando corredores, cafés e os hiperativos grupos de Telegram. É a nossa política modernosa.

Já na seara conservadora o mar não está para peixe. A Confederação Nacional da Agricultura, principal entidade do agronegócio brasileiro, de teor bolsonarista, chamou de forma extraordinária os presidentes de federações estaduais para discutir justamente o cenário eleitoral. Brasília inteira e o país a reboque sabem que o Caso Master lascou em bandas a campanha de Flávio Bolsonaro. O agronegócio da direita quer recalcular rotas. Existe o maior desconforto com o filho de Jair Bolsonaro.

O problema é que a novela está cansando a quem assiste e se vê no meio da trama. É muita repetição no roteiro: investigação, negação, polarização, guerra de hashtags e, na próxima semana, um novo escândalo envolvendo as partes. Se para a esquerda o clima é ruim, inclusive com desgaste administrativo, para a direita (notadamente para o agro que a abastece) é pior que risco climático. O leitor ainda não ouviu nenhum grande projeto para o Brasil. O que ocorre, no geral, tira o verbo das lideranças, que repetem a frase da Ypê pós-Anvisa: “Vamos analisar os fatos”. Mas agora está difícil lavar as mãos.

Jolivaldo Freitas é escritor e jornalista. Autor de “Manual Sintético e Minimalista Para Entender Um Pouco de Política e Ideologia” – e-book Amazon.

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