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Trump, o canário e os esquizoides

Confira o artigo de Jolivaldo Freitas

Jolivaldo Freitas*
Por Jolivaldo Freitas*

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Jolivaldo Freitas
Jolivaldo Freitas - Foto: Reprodução

Era um abafamento dentro de um cômodo pequeno, em um bairro afastado do centro de Miami. Sob um cobertor térmico, que afastava o frio lá fora, o ambiente era opressivo. Em Washington, a situação era outra: os seguidores do presidente Donald Trump enfrentavam uma sensação térmica de 11 graus Celsius. Trump acabara de tomar posse e já assinava suas medidas contra imigrantes estrangeiros. Na TV, transmitiam ao vivo imagens da fronteira dos EUA com o México, onde uma multidão chorava pela mudança na política migratória.

Numa gaiola dourada, na janela do quarto abafado, cantava Trump, o canário. O nome não era coincidência: seu topete amarelo, ligeiramente despenteado, lembrava o ex-presidente americano — símbolo de polêmicas, fronteiras, tuítes inflamados, fake news em abundância, ameaças, antidemocracia e imperialismo. Mas Trump, o canário, não tinha preocupações com a política. Sua missão era cantar, mesmo longe dos trópicos. Ele fora capturado na Reserva Sapiranga, perto da Praia do Forte, na Bahia, e levado clandestinamente por José, um brasileiro que sobreviveu, junto ao pássaro, aos caminhos nefastos das emboscadas na floresta rumo ao Eldorado norte-americano.

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José já morava nos Estados Unidos havia sete anos. Veio com grandes sonhos na mochila, que acabou se desgastando no percurso. Ele conseguiu alcançar o país, como tantos outros. Trabalhou como pedreiro, garçom e motorista de aplicativo. Tudo para enviar dinheiro à família que ficara em Subaúma. José gostava de repetir que “a América é a terra das oportunidades”, embora suas contas sempre estivessem no vermelho, e a incerteza sobre a imigração fosse uma sombra constante.

Era curioso, para dizer o mínimo, que José fosse um fervoroso apoiador de Donald Trump. O mesmo Trump que endureceu as leis de imigração, construiu muros — literais e figurativos — e, em seus discursos, deixava claro que imigrantes ilegais não eram bem-vindos. Mas José, como outros brasileiros, tinha uma explicação: “Trump é um homem forte, fala o que pensa e não tem medo de fazer o que é certo.” Era como se ele admirasse o “mito” da figura autoritária, mesmo que isso significasse apoiar políticas que um dia poderiam deportá-lo.

Enquanto Trump, o canário, cantava alegremente, alheio às ironias de seu nome, José decidiu enfrentar a fria manhã e saiu para organizar um churrasco para a comunidade brasileira do bairro. Os convidados eram, em sua maioria, apoiadores de Trump, mesmo vivendo sob a constante ameaça de uma batida da imigração. O assunto era sempre o mesmo: “A economia vai ficar melhor com ele. Aqueles cheques durante a pandemia foram uma mão na roda.” Parecia haver uma desconexão entre a dura realidade de suas vidas e a imagem idealizada do líder que acreditavam representar uma América forte.

No fim da tarde, entre carnes assadas e risadas, no momento do juramento de respeitar a democracia, feito pelo novo presidente no Capitólio, Trump, o canário, soltou um canto estridente que fez todos pararem por um instante. Um dos convidados, com forte sotaque carioca, apontou para a gaiola e disse: “Esse aí é o verdadeiro Trump, preso na gaiola dourada.” Uns riram; outros não gostaram, mas a piada tinha um fundo de verdade. José também estava em uma gaiola dourada: a promessa de um sonho americano que, até aquele momento, parecia inalcançável.

Quando a noite caiu e o churrasco terminou, José sentou-se na varanda, olhando para Trump, o canário, que agora dormia tranquilo. Pensou em sua família no Brasil, nas dificuldades e nos riscos que corria todos os dias. Acompanhava o noticiário após a posse. Ouvia a voz de um analista político vindo da TV na sala. Pensou também no motivo pelo qual ainda acreditava em um líder que não acreditava nele. Talvez fosse o desejo de pertencer, de se sentir parte de algo maior. Ou, quem sabe, fosse simplesmente a esperança teimosa — a mesma que o trouxera aos Estados Unidos — de que as coisas, de alguma forma, poderiam melhorar.

E assim, Trump, o canário, continuava a cantar. E José, como tantos outros, continuava a sonhar, mesmo com a sombra de um imenso muro e da deportação pairando sobre sua cabeça. Com o dedo do novo presidente recém-empossado apontando direto para sua cara.

*Romancista e jornalista. Autor do livro de contos “Cemitério de Cães Noturnos”

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