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Amanhã é dia de festa no Bonfim

Publicado quarta-feira, 11 de janeiro de 2006 às 00:00 h | Atualizado em 11/01/2006, 00:00 | Autor: JORNAL A TARDE
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Espera-se que mais de 300 mil pessoas participem do segundo maior festejo popular de Salvador, comemorado desde 1754



SANDRO LOBO




Dentre as várias lavagens realizadas durante o ano na Bahia, nenhuma tem a força e o encanto da Lavagem do Bonfim. Amanhã é dia de a Cidade Baixa se transformar num mar de gente de todos os lugares, numa balbúrdia de sons, cores e cheiros sem tamanho, que só perde em volume para o Carnaval – o que faz dela a segunda maior manifestação de rua do planeta.



Carros-de-som, carroças superenfeitadas, grupos de percussão, baianas vestidas a rigor compõem o cenário da grande festa. A Polícia Militar estima que mais de 300 mil pessoas dispostas a cantar e dançar vão transitar no percurso de cerca de 12 km que liga a Basílica da Conceição da Praia à Igreja do Senhor do Bonfim.



Às 7 horas, uma corrida organizada pelo Palácio dos Esportes marca a primeira atividade do dia relacionada à festa. Por volta das 8h30, um ato inter-religioso (diferente de ecumênico, que congrega apenas religiões cristãs) e a execução do Hino ao Senhor do Bonfim por uma centena de vozes de corais diversos já servem de mote para a concentração que se forma em frente à Conceição.



Entre 9 e 9h15, o cortejo sai em direção à Cidade Baixa, depois de um repicar de sinos. Este ano haverá uma parada em frente à sede das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) para que contribuições sejam feitas nas urnas que estarão colocadas ali.



O cantor e compositor Carlinhos Brown integrou o grupo de trabalho que reuniu representantes de entidades como Fundação Gregório de Mattos e Emtursa e tinha como objetivo dar novo gás à festividade, inclusive acentuando seu caráter religioso.



Diferentemente do que fez em outros anos, Brown vai levar sua “maratona musicada” – o grupo Zárabe, com 300 percussionistas – até o Bonfim somente a partir das 15 horas, em vez de partir com a procissão pela manhã, como fez em outros anos, junto com o Filhos de Gandhy.



“Estamos motivados a dar uma manutenção à lavagem. Sempre parece que ela está precisando ser resgatada, mas ela não precisa ser resgatada. É uma novena de potencial turístico religioso e, no ano de Oxalá, eu não poderia deixar de colaborar”, disse em entrevista coletiva ontem, no Palácio Thomé de Souza.



Esvaziamento – A saída do grupo percussivo no meio da tarde tem como objetivo não permitir que haja desânimo ou esvaziamento em nenhum dos dois pólos do cortejo, o que habitualmente acontece naquele horário. “Nosso grupo diagnosticou que um dos aspectos negativos da festa era esse esvaziamento que se dá pelo meio da tarde.



Programar a saída do Zárabe e de outras entidades para este momento foi uma idéia que Carlinhos aceitou prontamente. Ele, aliás, deu uma idéia que também foi acatada: a de usarmos fitões do Bonfim na decoração”, explicou o presidente da FGM, Paulo Costa Lima.



“De Roma até o Bonfim, os postes estarão ligados por reproduções em papel das tradicionais fitinhas, como forma de marcar o Corredor da Fé, que esperamos consolidar com a beatificação de Irmã Dulce”, disse Benito Gama, da Emtursa.



O tema que a prefeitura escolheu este ano para a festa – “Andar com fé eu vou” – é uma variação de outros anteriores (como “Quem tem fé vai a pé”), que remete ao esforço físico de quem quer conhecer a verdadeira Festa do Bonfim.



A caminhada sob o sol é em geral regada a muita cerveja e roscas, com direito a paradas para repor as energias com pratos de feijoada, mocotó, sarapatel e outras delícias que – pelo menos do ponto de vista dos nutricionistas – não são nada adequadas para a situação. Um pecado para a saúde, talvez, mas escolhas quase imutáveis nesse ritual que se repete todos os anos, desde 1754, sempre na segunda quinta-feira do mês de janeiro.



Uma pausa para comer e beber



A Praça do Mercado do Ouro, a menos de um quilômetro do ponto de saída do cortejo, é tradicionalmente um local onde muita gente dá uma pausa para comer e beber. Tem quem se empolgue e fique por ali mesmo, mas, no caso de apenas querer fazer uma boquinha, os pratos são variados.



Alguns comerciantes estão bem interessados em vender cerveja em lata a R$ 2, mas a maioria confessou que vai esperar a “reação dos colegas”. O refrigerante em todas as barracas da praça vão custar R$ 1,50 a lata, enquanto a garrafa mineral sai por R$ 1. O preço da porção de feijoada varia entre R$ 5 (a maioria) e R$ 7 (Quiosque Encontro dos Amigos). A R$ 5 são servidas também porções de dobradinha, mocotó, sarapatel e moela.



Caruru com mil quiabos, 30 quilos de sarapatel, 20 de feijoada e, como se não bastasse, bacalhoada, moqueca de arraia e dobradinha. Dona de um bar ao lado do Posto Miranga, na Avenida Dendezeiros, a comerciante Rosângela Galeão tem que se virar para atender a grande clientela que procura seu tempero.



“Vamos abrir na quarta à noite servindo feijoada e sarapatel e dar um virote pela quinta adentro, eu e minhas assistentes”, promete.



Um dos principais pontos gastronômicos do Mercado do Ouro, o Restaurante do Juarez, não vai oferecer suas delícias no dia da lavagem. “Não é o público que queremos, vem mais gente para beber, fazer zoada, bagunçar ou então apenas usar os banheiros”, justifica o proprietário.



Opção para quem evita caminhar



Quem quer apenas aproveitar a festa como se estivesse no Carnaval não cumpre o trajeto até a colina sagrada. Fica circulando ali nas imediações do Elevador Lacerda ou na altura da Conceição da Praia.



Outra opção, mais cara, é participar das festas de camisa que acontecem no início do percurso e também no Clube dos Oficiais, já no Bonfim. Desde que a prefeitura proibiu os trios elétricos e limitou o número de carroças e carros de som no percurso, os blocos de trio encontraram a saída para continuar ganhando muito dinheiro com uma das mais fortes tradições do Estado.



Para quem está em Salvador e vai ter a oportunidade de conhecer a festa pela primeira vez, ir até o Bonfim é imprescindível para se entender melhor um pouco dessa tão propalada “baianidade”.



Nenhuma das festas populares aglutina tantos elementos típicos da cultura local – a começar pela presença maciça de mulheres de todas as idades, mães-de-santo ou não, que se vestem como “baianas”, vaidosas em seus vistosos torços, turbantes, colares, vasos de água de cheiro, braceletes e badulaques de todo tipo.



Por volta das 12h45, a procissão profana chega até a escadaria da Igreja do Bonfim, onde uma multidão já espera pelas baianas. Ali elas têm seu momento de estrelas da festa e derramam água-de-cheiro na cabeça das pessoas que solicitarem, como forma de purificação, proteção e bênção.



Imagem do santo teria vindo de Portugal



O culto a Senhor do Bonfim em Salvador remonta ao ano de 1740. Há versões diferentes para a chegada da sua imagem à Bahia. A mais recorrente afirma que ela chegou trazida pelo capitão-de-mar-e-guerra Teodósio Rodrigues de Faria. Em cumprimento a uma promessa, ele teria trazido a imagem do santo da cidade de Setúbal, em Portugal.



Uma vez na Bahia, o Senhor do Bonfim – que logo começou a ser identificado com Oxalá, divindade máxima do candomblé – chegou a ser reverenciado numa pequena capela na Igreja da Penha. Em 1745, a Igreja do Senhor do Bonfim começou a ser construída na Colina do Monte Serrat, apelidada de Colina Sagrada. Cerca de nove anos depois, ela ficou pronta e a festa anual em louvor ao santo passou a ser realizada no novo templo.



Atribui-se à presença de grupos de samba-de-roda com carroças enfeitadas, obra dos romeiros que se reuniam para lavar a igreja e deixá-la pronta para a celebração, o início da aproximação entre catolicismo e candomblé na realização da festa.



Desde o século XVIII, três dias antes da missa do domingo de Bonfim – que coincide com o segundo depois da Festa de Reis – a arrumação era feita por esses grupos. Alguns historiadores acreditam que os escravos – sem qualquer outra motivação aparente – começaram a louvar Oxalá nesses dias de festa.



Evite transtornos



Dicas para uma festa tranqüila



  • Procure usar roupas leves, claras. O ideal é camiseta, bermuda ou short, O melhor calçado é o tênis.
  • Quem gosta de um banho de mar pode querer se refrescar com um mergulho na Praia da Boa Viagem, Beira-Mar (Bonfim) ou Ponta de Humaitá. Não custa nada deixar o biquíni ou sunga por baixo.
  • Um óculos de sol é uma ótima pedida para proteger as vistas.
  • Não esqueça de proteger a pele do rosto com bloqueador (fator 30 para as peles normais ou 50 para quem não tem costume de se bronzear). Um boné também ajuda muito.
  • O percurso entre a Conceição da Praia e o Bonfim pode ser cansativo para quem não está acostumado a caminhar. Beba água mineral para matar a sede. Beber só cerveja pode esgotar suas energias antes da hora.
  • Embora haja uma variedade grande de pratos para degustar, como feijoada, mocotó e dobradinha, o melhor mesmo é começar o dia com frutas ou saladas e, se sentir fome, não exagerar em pratos gordurosos para não dificultar a digestão.
  • Como em todas as festas populares, há sempre o risco de se perder dinheiro ou documentos (inclusive por furto). O melhor é provisionar uma quantia que vá suprir suas necessidades no caminho, a partir dos preços médios, e colocar tudo numa bolsinha discreta no bolso da frente.
  • Evite manipular dinheiro na frente de estranhos e seja discreto ao fazê-lo.
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