SALVADOR
Campanha visa restauro de sinos da Catedral

Ao meio-dia, o som dos sinos das quatro igrejas seculares do entorno do Terreiro de Jesus ecoam pelas ruas do Centro Histórico de Salvador. Não distante dali, os sinos das Igrejas do Rosário dos Pretos e da Misericórdia também compõem a melodia. Para o fiel, é o sinal da presença divina. Ao turista, resta o deslumbramento e, para o soteropolitano, a confirmação de que mora em uma cidade histórica.
A cena descrita só existe no imaginário da devota Maria de Lurdes Souza, 68 anos, mas se depender do padre da Catedral Basílica de Salvador, Abel Pinheiro, se tornará realidade. O líder religioso lançou campanha, no início do mês, para restauro dos quatro sinos da Catedral, inativos há 50 anos, e quer ser agente motivador para as igrejas do entorno.
Atualmente, no Centro Histórico, somente o sino da Igreja da Misericórdia toca com regularidade. A assessoria da Arquidiocese de Salvador não soube precisar o número de Igrejas que possuem sinos ativos. Diante disso, o padre Abel pretende recuperar inicialmente dois sinos. A fase inicial requer investimento de R$ 40 mil. Foram arrecadados, até a última semana, R$ 5 mil.
Na segunda fase, a previsão restauro dos outros dois sinos e aquisição de mais um, o que custaria o total de R$ 80 mil. São três sinos menores e um maior, com peso de uma tonelada. Os equipamentos são datados do século XVII e foram trazidos de Portugal.
“O nosso trabalho de restauração terá dois momentos. A primeira é física. O sino maior está danificado, pois durante muito tempo foi tocado de maneira errada. Na ausência do badalo, usavam martelo para tocar o equipamento. E depois, teremos a implantação eletromagnética, para automatizar o toque do sino. Do ponto de vista religioso e turístico, seria fantástico ter todos os sinos do Centro Histórico ecoando ao mesmo tempo”, explica.
Adesão
Ele ainda conta que a Igreja Nossa Senhora da Vitória, no Corredor da Vitória, demonstrou interesse em também realizar campanha para recuperar o sino. A administração da Igreja confirmou a informação, mas o padre do templo não foi encontrado pela reportagem.
O presidente da Terceira Ordem da Irmandade de São Francisco, Jayme Baleeiro Neto, cona que, no momento, não há necessidade de tocar o sino da igreja com regularidade e que tal ação é realizada em missas e celebrações específicas.
Para Maria de Lurdes, o toque do sino é algo acolhedor, mesmo para quem não é religioso. “Espero que a ação do padre [Abel] sirva de motivação. Quem está acostumado com o toque do sino sabe que o som é especial”, diz a devota.
O padre Abel explica que os sinos possuem notas específicas e que, a depender do som, correspondem a determinados sentimentos.
“As notas menores e lentas pode significar um momento de luto. As notas maiores, abrangentes, trazem sentimento de alegria. O som do sino purifica o ambiente, espanta os demônios e convida o povo à celebração. Eleva a oração e a alma dos fiéis a Deus”, diz Abel, que recuperou os sinos da Igreja Sant'Ana, no bairro de Nazaré.
Para o reitor do Santuário Nossa Senhora Auxiliadora, que integra o Colégio Salesiano do Salvador, padre Carlos Alberto Leite, o sino possui importância para os fiéis. “Há pessoas que só vão às missas se ouvirem os sinos. Ele também é um convite aos pais quando buscam os filhos aqui na escola”.
Utilização
No Santuário, há cinco sinos, instalados em 1955 e trazidos da Alemanha. Quatro menores e um maior, com 1,3 toneladas. Esse último, desta destaca o padre Carlos, não há necessidade de ser usado diariamente. Apenas em celebrações especiais.
“Tocamos os sinos todos os dias, às 6h, 12h e 18h. Não somos insensíveis ao entorno da escola. É importante ter em mente que há hospitais próximos, como o Santa Izabel e o Santa Luzia”, destaca o reitor.
O diretor do museu da misericórdia, Junot Barroso, explica que o sino da Igreja da Misericórdia toca de hora em hora e o número de badalos do sino corresponde ao do horário registrado.
DESUSO COMEÇOU NA DÉCADA DE 1970
Foi a partir da década de 1970, que os sinos começaram a cair em desuso, conforme explica o historiador Francisco Senna. De acordo com ele, alguns fatores explicam tal situação, a exemplo do sino ser superado por meios de comunicação mais avançados tecnologicamente e o esvaziamento do Centro Histórico de Salvador nesse período.
“Os sinos possuiam função de comunicar eventos, casamentos, anunciar funeral. Tinha uma linguagem própria. Na praça municipal, as pessoas se reuniam quando ouviam o sino da Câmara Municipal. Na medida que você passa a ter outros recursos de comunicação, o sino perde a função, mas fica a memória, o registro”, ressalta Senna.
O historiador defende uma revitalização dos sinos das igrejas de Salvador. E concorda que, do ponto de vista econômico e turístico, seria “fantástico” ter os sinos da cidade em funcionamento.
“O sino tocando é música. Não agride as pessoas e é encantador. O Centro Histórico é um local de percussão e sons. O uso deles traria ainda mais colorido e beleza à cidade”, crê Senna.
Para acompanhar a modernidade, as novas tecnologias apostam no acionamento automático dos sinos. É o caso da Igreja da Misericórdia e do Santuário Nossa Senhora Auxiliadora. O padre Abel afirma que o acionamento automático, que será implantado na Catedral Basílica de Salvador, é mais simples.
A ação do sineiro requer esforço físico. E, por vezes, é tocado de maneira errada. “É o sino que vai ao encontro do badalo. E não o contrário. Com o acionamento automático, faremos tudo sem precisar subir na torre”, diz o sacerdote.
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