SALVADOR
Cidade Baixa abriga maior população de rua de Salvador

De acordo com levantamento realizado pela Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza (Semps), a Cidade Baixa é a região da capital baiana que abriga a maior parte das 3,5 mil pessoas em situação de rua.
A pesquisa, que tem como base a percepção dos residentes dessas localidades, apontam, em seguida, grande número de moradores de rua presentes no Centro Antigo e no Centro da cidade.
O secretário de Promoção Social e Combate à Pobreza, Mauricio Trindade, atribui tal concentração ao grande número de edifícios e casas abandonadas nesses locais, que servem como abrigos para os moradores de rua.
O levantamento estabelece como áreas a serem priorizadas pela prefeitura o Pelourinho, Baixa dos Sapateiros, Barroquinha, Sete Portas, Nazaré e Barbalho. Em seguida, as regiões do Comércio, Mares, Roma e Ribeira, Avenida Sete, Forte de São Pedro, Piedade, Carlos Gomes, Dois de Julho e Rua Chile.
Na lista, aparecem também bairros nobres, como Barra, Ondina, Rio Vermelho, Pituba, Itaigara, Iguatemi e Paralela, Graça, Vitória, Campo Grande e Canela.
Segundo o secretário, nessas áreas estão sendo intensificadas ações de acolhimento, promoção e inclusão social da população.
"Em três meses, cerca de 100 pessoas já foram retiradas da situação de rua em Salvador. Elas foram abordadas por assistentes sociais e aceitaram ser ajudadas. Algumas foram encaminhadas aos albergues ou centros de tratamento para usuários de drogas. Já outros, para suas cidades de origem", afirmou.
Perfil - A pesquisa estabelece, ainda, o perfil da população em situação de rua em Salvador. Segundo o levantamento, 75% dessas pessoas são do sexo masculino e mais da metade tem idade entre 25 e 44 anos. Do total, 40% não concluíram o ensino fundamental e 50% se declaram negros, 30% pardos e 20% brancos.
A pesquisa aponta como principais motivos que levam tais pessoas a viverem na rua o alcoolismo ou uso de drogas (15%), desemprego (10%) e conflitos familiares (15%).
Segundo o secretário Maurício Trindade, 30% do contingente da população em situação de rua é formado por pessoas oriundas do interior do estado ou de demais localidades do país.
É o caso de Dionísio Santos, 45, que saiu do estado de Pernambuco, há três anos, e veio a Salvador em busca de um emprego. Sem sucesso, Dionísio se viu obrigado a morar na rua e a viver da coleta de produtos recicláveis.
"Deixei minha casa, meus filhos e minha ex-mulher em busca de uma vida melhor, mas o que encontrei foi muita tristeza", desabafou.
Atualmente, Dionísio não se considera mais um morador de rua: reside na comunidade da Igreja da Santíssima Trindade, no bairro da Calçada, onde conta com abrigo e alimentação. "Aqui, vivo em comunidade. Já passei por muito sofrimento e ter um lugar para dormir já é uma benção muito grande", contou.
Foi também uma promessa de emprego que motivou Solidalva dos Santos, 62, a sair do município de Santo Amaro da Purificação e se mudar para Salvador há nove anos. Sem ter onde morar, encontrou no viaduto do bairro da Calçada o abrigo para proteger os três filhos da chuva e do frio.
Mesmo após receber uma indenização por conta do envolvimento do filho em um acidente de trânsito e conseguir comprar uma casa no bairro da Calçada, Solidalva afirma que continua tendo as ruas como fonte de sobrevivência.
"A única coisa que mudou é que tenho um teto para dormir, que fica em um lugar tão perigoso quanto o viaduto onde eu dormia antes. Mas continuo vivendo da ajuda dos outros para comprar comida para mim e meus filhos. É muito sofrimento", disse.
Estrutura - Representante do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, Maria Lúcia Pereira, acredita que, embora a Semps trabalhe com um perfil das pessoas em situação de rua, as medidas adotadas pela atual gestão não contemplam, de fato, as necessidades dessa parcela da população.
Para ela, as políticas públicas devem levar em conta, sobretudo, o extremo grau de pobreza em que vive a população de rua. "Antes de serem negros, imigrantes e se abrigarem em determinado local da cidade, essas pessoas são pobres. O que se faz, hoje, é criminalizar a pobreza, pois o que se oferece a essa população não é o que, de fato, ela merece", afirmou.
Na opinião de Maria Lúcia, o único albergue noturno disponível na cidade e os e centros de apoio, não dispõem de uma estrutura adequada. "São locais com condições sub-humanas. Essas pessoas precisam de acolhimento, de um lugar digno para dormir, de acompanhamento psicológico, de capacitação profissional e não apenas de assistencialismo, que é o que está sendo feito", afirmou.
De acordo com Maurício Trindade, em cerca de cinco meses a prefeitura pretende disponibilizar mil vagas em albergues noturnos e casas de pernoite. "Passaremos de 80 para mil vagas. Vamos, também, intensificar nossas ações", afirmou.
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