SALVADOR
Contenção de encostas longe de solução

Dos 433 locais com risco de deslizamentos, apenas 40 sofrerão intervenção em 2006
MARCIA GOMES
Um deslizamento de terra ocorrido na Rua João Batista, no São Gonçalo do Retiro, em 1995, levou à morte 32 pessoas, fez 17 feridos e deixou 90 desabrigados. Os vestígios da tragédia, que comoveu o País na época, ainda podem ser vistos no despenhadeiro que se formou. Restou apenas o piso colorido em que um dia foi a sala de uma das moradias destruídas.
Os moradores dizem que técnicos da prefeitura já estiveram no local prometendo obras de contenção. Contudo, passados dez anos, o perigo de desmoronamento ainda existe. Nas fortes chuvas que castigaram Salvador de maio a junho, no ano passado, cerca de dez toneladas de terra desceram pelo mesmo paredão.
O superintendente da Surcap (Superintendência de Urbanização da Capital), Adriano Peixoto, informou que está previsto no orçamento municipal de 2006 uma verba de R$ 5 milhões para as obras de contenção de encostas.
O novo programa será aplicado em 40 pontos críticos, em 2006, a partir de fevereiro entre eles as encostas de São Gonçalo do Retiro, consideradas áreas de risco. No Plano Diretor de Encostas de 2005 foram identificadas 433 dessas áreas em Salvador e a projeção é de que serão necessários R$ 160 milhões para atuar nesses pontos. A estimativa é de que o recurso será aplicado ao longo dos próximos dez anos. Em 2005, dessas 433 áreas de risco, apenas 48 sofreram algum tipo de intervenção em alguns casos, ainda incompleta.
MUDANÇA O presidente do Conselho União Independente da Pedreira de São Gonçalo do Retiro, Antônio Cláudio de Jesus, diz que a Codesal já conversou com as pessoas que moram dependuradas nas áreas de risco, ofereceu três meses de auxílio-moradia, mas o povo não tem para onde ir e não sai. Muitos até assinaram documento se responsabilizando por não querer sair.
Antonieta Souza Ávila, por exemplo, reside no nº 45-E da Rua João Batista. Nós queremos melhoramentos, a gente vê a hora de perder um filho, conta. Segundo ela, os técnicos da Codesal informaram que a área é de risco, mas que para solucionar o problema teria de ser construída uma cortina de concreto. Até hoje a gente espera e fica temendo a chuva chegar.
Maria Tereza Suzart mora há dez anos no topo de um dos trechos que ameaçam ruir em São Gonçalo do Retiro, na Rua Adalgiza Silva Lima. Vim morar aqui um mês antes de acontecer o acidente lá do outro lado. Na época, a Codesal esteve aqui, condenou essas casas e prometeu fazer obras de contenção. Mas eles mesmos dizem que sairia muito caro, que não tem verba, comenta. É fácil para os governantes chegar aqui e dizer para a gente desocupar nossas casas. Mas para onde vamos?, questionou.
O marido de Maria Tereza, Antônio César Suzart, periodicamente se amarra numa corda para descer pelo paredão removendo lixo, capinando e verificando os canos de esgoto que os próprios moradores improvisaram. O esgoto cai lá embaixo porque a prefeitura deveria ter providenciado uma infra-estrutura que nos permitisse ligar nossas casas à rede pública de esgoto, mas não fez, revelou.
Segundo Antônio César, a maioria das residências da parte superior de São Gonçalo do Retiro direcionou seus encanamentos de esgoto para cair pelo penhasco. Ele próprio ampliou a extensão dos tubos, para evitar que o esgoto caísse diretamente sobre a encosta, o que fazia a terra ceder com mais facilidade.
Moradores do Lobato vivem com medo
Local de freqüentes deslizamentos, a Rua Voluntários da Pátria, no Lobato, já foi cenário de horror. Em 1989, 69 pessoas morreram em deslizamento de encosta. Em 1999, outras sete perderam a vida pelo mesmo motivo. Sempre quando chove desce terra pelo morro, afirma Alberica Ramos, que vive desde 1968 na beira da linha do trem, na frente do local dos recorrentes desabamentos.
A moradora conta que já foi à prefeitura e recorreu a gabinetes de políticos para pedir obras de contenção, pavimentação e esgotamento sanitário, mas tudo ficou apenas na promessa. Eu tenho parentes que moram em Feira de Santana que quando vêm me visitar ficam perguntando se estão em Salvador mesmo ou se isso aqui é algum interior, diz Alberica.
Na Avenida Centenário, um paredão de terra na Travessa Maria Margarida ameaça desabar sobre várias casas. De acordo com o presidente da associação de moradores o mestre-de-obras José Nildomar, a prefeitura já deu como concluída a obra, mas ainda falta completar parte da segunda etapa, acusa. Ele diz que quase todo dia o terreno cede.
A gente está sempre tirando terra e colocando lá na pista, mas o medo é quando vierem as chuvas. Em 1993, a Codesal emitiu notificação condenando a área a risco de desabamento. O superintendente da Surcap (Superintendência de Urbanização da Capital), Adriano Peixoto, afirma que a obra da Avenida Centenário está mesmo constando como concluída e que o fato será verificado.
ENCHENTE Uma falsa lagoa, formada pelo represamento do esgoto oriundo das casas da Vila São Francisco, no Vale dos Lagos, há cerca de dois anos invade as residências na época das chuvas. O morador Raimundo Conceição vive com a esposa próximo da margem e não acredita mais que a prefeitura vá dar jeito no problema. A bomba está funcionando porque não está chovendo, se der uma chuva forte, volta a encher, aponta. Segundo Conceição, a prefeitura prometeu para janeiro mas ainda não se viu movimentação de melhorias no local.