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Convicção do bispo comove quem o cerca

Luisa Torreão, do A TARDE
Por Luisa Torreão, do A TARDE

>>“Este projeto coloca em risco a vida de milhões de pessoas”

Dom Luiz Flávio Cappio - que neste domingo, 16, completa 20 dias sem ingerir alimentos - diz que está preparado para ir até o fim nesta luta. Tudo o que ele deseja é que o governo federal abra um canal de diálogo e venha debater com toda a sociedade sobre o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco. Não sem antes retirar as tropas do Exército dos eixos Leste e Norte, onde as obras já estão paralisadas, desde a sexta-feira, por força de uma liminar concedida pelo Tribunal Regional Federal.

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O empenho pela causa não surgiu do nada. Nascido no dia 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, dom Luiz mantém uma ligação espiritual com o santo, amigo da natureza e dos animais, cujos preceitos religiosos de generosidade e desapego material norteiam a ordem franciscana, à qual se afiliou. O mesmo São Francisco é padroeiro do Velho Chico – rio de quase três mil quilômetros de comprimento, que banha cinco Estados brasileiros.

Nascido e criado em Guaratinguetá, São Paulo, filho de uma família católica rica e tradicional, desde adolescente dom Luiz já era visto pelos irmãos como um jovem diferente da maioria das pessoas de sua idade. “Claro que ele tinha suas diversões, mas de uma maneira muito mais comedida”, observa sua irmã, Rita Maria Cappio. Estudioso, tinha pretensões de ser engenheiro, profissão prontamente apoiada pelo pai. Desde novo, porém, já freqüentava ativamente a Igreja Católica e dava indícios de seguir o caminho religioso.

O amigo de infância Valdomiro Antônio Rizzato, 59 anos, lembra de quando tinham cerca de 7 anos e a turma gostava de brincar de se casar com as garotas. “Só que ele jamais se casou. Era sempre quem celebrava os casamentos. Uma coisa fantástica”, conta, rindo. Miro, como é conhecido, conviveu de criança a adolescente com dom Luiz, na mesma vizinhança, em Guaratinguetá. Juntos, fizeram a primeira comunhão. “Praticamente era ele quem dava o curso. Nasceu com este dom, só esperou o momento certo para ser padre”.

Foi aos 18 anos, após concluir o ensino médio, que dom Luiz decidiu entrar para o seminário. A notícia foi uma surpresa em casa, mas logo foi bem aceita. Em 1971, ordenou-se padre. Dois anos depois, decidiu despojar-se de tudo o que tinha e abandonar São Paulo, em um trem rumo à Bahia. Destituído de posses, chegou a Montes Claros, de onde seguiu mil quilômetros a pé até Bom Jesus da Lapa. De lá, seguiu mais de 600 quilômetros até a cidade de Barra, pregando nas comunidades ribeirinhas.

“Temos muita satisfação por nosso irmão ter tomado o caminho da religiosidade. Principalmente, não se escondendo debaixo de um hábito, nem dentro de uma igreja, mas colocando sua vida em favor dos menos favorecidos. Aqueles que não têm voz e aqueles que não têm vez, hoje, estão tendo, graças a ele”, diz o irmão mais velho, João Franco Cappio.

Para o amigo de 35 anos, Reni Waltrick, 58, a vocação foi escolhida por um ideal, que o serve de alimento constante. “Vejo uma pessoa de muita fé, despojada de tudo aquilo que pode prender alguém”.

ATITUDE – Filho de família rica, que morava em uma casa grande com pomar, dom Luiz abria a porta para a molecada do bairro roubar frutas. Miro, de origem pobre, diz que nunca existiu preconceito entre eles. “Toda vida ele emocionou a gente pelas atitudes. Para mim, é um homem santo”.

Em 4 de outubro de 1992, dom Luiz iniciou uma peregrinação ao longo do Rio São Francisco, junto com o sociólogo e amigo Adriano Martins. Saíram da nascente de barco, indo às diversas comunidades ribeirinhas, chegando à foz no mesmo dia do ano seguinte. Com eles, levaram uma imagem de São Francisco, a mesma que hoje está na capela de Sobradinho. Aonde chegavam, apresentavam-na, dizendo que era o santo padroeiro do rio quem estava visitando o lugar. “Usamos a simbologia para falar a linguagem do povo”, revela o frei.

Nessa época o bispo conheceu de perto as dificuldades enfrentadas pelos nordestinos que dependem do rio para viver, como a falta de água para consumo, a degradação ambiental e a baixa qualidade de vida, mesmo diante de tanta riqueza natural. Como resultado da jornada, ele e Martins publicaram, junto com o escritor Renato Kishner, o livro Rio São Francisco – Uma caminhada entre vida e morte, pela Editora Vozes. Estava legitimada a competência dele para discutir os problemas do rio e da terra.

“Hoje querem discutir com ele, mas não sabem o que estão falando. Falam de ouvir falar, são os grandes teóricos. Vai ver a prática. Dom Luiz tem teoria e tem prática, tem conhecimento profundo. Então, quando ele toma uma atitude dessa (o jejum), acham radical. É uma atitude radical, sim; mas por que? Porque os ignorantes que nos governam não sabem a realidade”, provoca João Franco.

E o bispo, teme o que está por vir? “Quem parte para a guerra está preparado para lutar”, responde.

Leia íntegra da matéria na versão impressa do jornal ou na versão digital neste domingo.

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