SALVADOR
Iemanjá atrai gente de todas as tribos
Clarissa Borges, do A Tarde On Line, A devoção a Iemanjá atrai todos os anos, milhares de pessoas ao bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Perfumes, flores, espelhos, pentes e sabonetes são os presentes preferidos da rainha das águas. E para reverenciar o orixá, nem precisa ser adepto do Candomblé. Não tenho religião, mas homenagear Iemanjá é uma tradição de família. Minha avó ensinou para minha mãe, que ensinou para mim, disse a auxiliar-administrativo Valdete dos Santos, de 26 anos. Para ela, o que importa é a fé. A gente tem que se apegar a alguma coisa, diz Valdete, que não falta à homenagem no dia 2 de fevereiro por nada. Eu acredito muito nela, e quando é de coração, é o que importa, diz. Apesar da dificuldade para entrar no barco, a aposentada Aldeni Moreno, de anos, fez questão de levar pessoalmente sua oferenda em alto mar. Sempre entregava na Ilha e Itaparica, mas aqui, é outra coisa, afirmou. Na direção da pequena embarcação, Lenício Oliveira explicava que o trabalho de conduzir os devotos para o mar representa, para os pescadores como ele, mais uma oferenda à rainha das águas. Por isso, a gente não pode cobrar, depende do que a pessoa quiser dar, explicou. Paguei R$ 3, valeu a pena, emendou Aldeni. A servidora pública Angelina Nascimento da Silva diz que todos os anos enfrenta obstáculos para ir à festa, mas não desiste. Venho todos os anos, porque deficiência física não é doença, repetia, reclamando da falta de espaço e de respeito para quem precisa se locomover a bordo de uma cadeira de rodas. Eu pratico corrida de cadeira, jogo basquete, também quero me divertir, protestou. Para chegar perto do mar, precisou de uma mãozinha dos policiais, que carregaram a cadeira nas escadarias que dão acesso à areia. Não tem uma rampa, os batentes são altos, tem muita discriminação, mas a gente vai à luta, resignou-se. O eletromecânico Gilberto Portugal dos Santos diz que está presente em todas as festas de largo de Salvador, sempre à caráter: não esquece sua fantasia do bloco Filhos de Gandhy. Segundo ele, é uma recomendação da mãe que não pretende desrespeitar. Ela era mãe de santo e, antes de falecer, me disse para sempre ir às festas vestido com a roupa da paz, justificou. Além de devotos, a festa em homenagem à rainha das águas reúne muitas figuras curiosas, nem sempre ligadas ao espírito da festa. O malabarista italiano Luigi Ontonioli era uma delas. O artista de rua, como se define, caiu de pára-quedas no evento, depois de uma peregrinação que começou com sua chegada ao País, em novembro, para trabalhar em um projeto social em uma favela de Belo Horizonte e, por uma escola de circo em Belmonte, no Sul da Bahia. Estou em Salvador só para curtir. Eu adoro festa, gosto de olhar as pessoas, resumiu. Ao contrário do italiano, o auditor fiscal Fernando Araújo já é figura tradicional no Rio Vermelho. Venho há 50 anos, sempre sozinho, afirma. Quem também não falta à festa é um velho cachimbo, que dá a ele um ar de preto velho, figura tão conhecida pelos baianos. Durante a entrega dos presentes, ele apenas admira, contemplativo, o ritual. Venho sozinho exatamente para poder ficar assim, só olhando. O que o espectador tem a admirar todos os anos na festa é a diversidade. Ao mar, muitas cores nas flores arrumadas em balaios e cestas. Na areia e nas ruas, gente de diferentes credos, raças, gostos e nacionalidades fazem o espetáculo da rainha do mar.
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