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Iemanjá: festa de religião e cultura

JORNAL A TARDE
Por JORNAL A TARDE

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Da madrugada à noite de ontem, celebração à rainha das águas atraiu milhares de pessoas, entre fiéis e foliões



MARCIA GOMES




Um céu em tons de azul e rosa rendia homenagens a Iemanjá, na alvorada de ontem, na Praia da Paciência, no Rio Vermelho. Nem bem amanhecia e vários barcos cortavam as ondas mar adentro para levar devotos com seus cestos repletos de agrados para a rainha do mar em seu dia, 2 de fevereiro. Na data, todas as expressões populares têm espaço garantido no bairro mais boêmio da cidade.



Desde 1923, os pescadores da Colônia de Pesca Z1 entregam presentes a Iemanjá, em sinal de agradecimento pelas pescarias. Este ano, eles disponibilizaram 300 balaios para os milhares de participantes completarem com flores, perfumes, bonecas, pentes, espelhos e outros apetrechos condizentes com a vaidade da deusa das águas salgadas.



Enquanto baterias de fogos de artifício eram disparadas, bem cedo, caravanas de fiéis vindas de diversos municípios baianos entoavam cânticos ao redor de suas oferendas, antes de despachá-las no mar. O pai-de-santo umbandista João da Silva Santos, do Terreiro das Águas Filhos de Ogum de Malê, de Alagoinhas, aproveitou a data especial para, às 5h30, batizar dois novos filhos-de-santo nas ondas.

 

OFICIAL – Enquanto os balaios eram ornados, uma grande imagem de Iemanjá guardava o presente oficial. Leandro dos Anjos Silva é ogan do Terreiro Odé Mirim (nação Angola), do Engenho Velho de Brotas, e há 13 anos é responsável pela elaboração do presente principal da festa.



“O fundamento do presente é segredo, não pode ser revelado, mas junto seguem garrafas de champanhe, perfumes, espelhos e muitas flores”, informou.



Resina de poliéster foi o material que o pescador José Santos Batista, conhecido como Zé Coió, utilizou para criar a Iemanjá do presente oficial. “Há cinco anos faço a imagem que vai seguir no barco Rio Vermelho. Deu um pouco de trabalho, mas na vida tudo dá trabalho e a santa merece. Levei 20 dias para aprontar”, disse.

 

SAUDAÇÕES – A fina chuva que caía por volta das 6h30 não foi motivo para intimidar quem foi ao Rio Vermelho reverenciar a rainha das águas. Nessa hora, o compositor e músico Carlinhos Brown saudou Iemanjá, com um cortejo de aproximadamente 60 homens do bloco Zárabe, todos vestidos de faraó e tocando instrumentos percussivos e de sopro. “O mar iguala as pessoas.



Então, vamos pedir a ela que no mundo todos possam viver em igualdade”, apontou Brown.



Um dos destaques da festa foi a apresentação de três nações de candomblé (ketu, gêge e nagô), que, respeitando suas respectivas tradições, cantaram em homenagem à dona da festa.



O encontro foi uma iniciativa da organização não-governamental Niger Okan, que se destina a valorizar o fortalecimento da cultura negra e a construção da cidadania dos afrodescendentes. Cantaram no evento integrantes da Casa Branca – Ilê Axé Yanassô Oká –, da nação ketu; Terreiro do Bogum, gêge; e Terreiro Tumba Junçara, angola.



“A idéia, ao criar este momento, é contextualizar os aspectos culturais das religiões de matrizes africanas, que são o celeiro de onde emana o universo cultural baiano”, frisa Gilberto Leal, coordenador da Niger Okan.



O presidente da Fundação Gregório de Mattos, Paulo Lima, destacou que “nós estamos apoiando o encontro destas três nações com o objetivo de promover parceria com os agentes culturais da cidade, ou seja, participar do cotidiano simbólico”.



Colaborou Clarissa Borges



Cuidado com o meio ambiente



Um grupo de ecologistas distribuiu panfletos explicativos aos participantes da Festa de Iemanjá, chamando a atenção para a gravidade de se depositarem no mar materiais poluentes como vidro e plástico. Magarida Cabral é terapeuta holista, taróloga e designer de jóias.



Decidiu, pela primeira vez, tomar a iniciativa de tentar sensibilizar as pessoas. “Na África, também é festejado o 2 de Fevereiro. Em Angola, a homenageada é Calunga, mas lá não se colocam no mar pentes, bonecas, nem frascos de perfume”, diz.



Margarida Cabral pesquisou os costumes africanos e descobriu que as oferendas eram feitas em material biodegradável, como folhas. “Nossa intenção não é, de forma alguma, contrariar as tradições da festa, mas conscientizar as pessoas de que é possível comemorar este dia sem poluir a natureza”, disse.



De acordo com a terapeuta, o plástico se decompõe depois de 450 anos; a porcelana e o vidro, somente depois de quatro mil anos; e o alumínio não se decompõe.



Flashes



Desrespeito

A servidora pública Angelina Nascimento da Silva, portadora de deficiência física, diz que não desiste de ir à festa. “Venho todos os anos, porque deficiência física não é doença”, repetia, reclamando da falta de espaço e de respeito para quem precisa se locomover com uma cadeira de rodas. “Não há rampas, há muita discriminação, mas a gente vai à luta.”



Pedido de mãe

O mecânico Gilberto Portugal dos Santos diz que está presente em todas as festas de largo de Salvador, sempre à caráter: não esquece sua fantasia do bloco Filhos de Gandhy. Segundo ele, é uma recomendação da mãe que não pretende desrespeitar. “Ela era mãe-de-santo e, antes de morrer, disse para que eu fosse às festas sempre vestido com a roupa da paz.”



Lucro

O vendedor Jean Anselmo Santos não perde a oportunidade de fazer dinheiro com criatividade nas festas de largo de Salvador. Ontem, ele percorria as ruas do Rio Vermelho com um “guarda-chuva” sem forro, de onde pendiam vários porta-latas. “Um é R$ 2 e três é R$ 5”, dizia, lembrando que na festa do Bonfim chegou a faturar R$ 800.



De circo

O malabarista italiano Luigi Ontonioli “caiu de pára-quedas” no evento, depois de uma peregrinação que começou com sua chegada ao País, em novembro, para trabalhar em um projeto social em uma favela de Belo Horizonte e em uma escola de circo em Belmonte, no sul da Bahia. “Estou em Salvador para curtir. Adoro festa, gosto de olhar as pessoas.”



Preto velho

O auditor fiscal Fernando Araújo já é figura tradicional no Rio Vermelho. “Venho há 50 anos à festa, sempre sozinho”, afirma, segurando um velho cachimbo, que dá a ele um ar de preto velho – figura tão conhecida pelos baianos. Durante a entrega dos presentes, ele apenas admira, contemplativo, o ritual. “Venho sozinho para poder ficar assim, só olhando”.

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