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Incidência de leishmaniose assusta

JORNAL A TARDE
Por JORNAL A TARDE

Em Lauro de Freitas, registros este ano superaram em 40,6% as ocorrências de 2005. Em Camaçari, são 300 casos até agora



JANE FERNANDES




Moradores de Lauro de Freitas estão preocupados com o aumento dos casos de leishmaniose visceral canina na cidade. O resultado de exames realizados no Laboratório Central (Lacen) confirma 56 ocorrências de janeiro até a última quarta-feira, o que representa 40,6% do número total registrado no ano passado.



Morador da localidade de Portão, o engenheiro químico Rômulo Iure Brito, 44 anos, teme que seu cachorro de estimação tenha sido infectado, mas ainda não procurou o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) para fazer, gratuitamente, o diagnóstico.



Apesar do avanço numérico, a diretora do CCZ, Selma Turrioni, afirma que não há motivo para alarme, pois a incidência da patologia tem se mantido estável. A quantidade elevada de registros seria resultado do diagnóstico mais rápido da enfermidade.



Embora a recomendação do Ministério da Saúde (MS) seja sacrificar imediatamente os animais contaminados, apenas 21 cães foram submetidos ao procedimento este ano. “Não posso correr o risco de sacrificar um animal que não esteja infectado”, justificou a diretora do CCZ. O problema é que, à espera da certeza, o município pode estar expondo a população à contaminação pela patologia, que, sem tratamento, oferece risco de morte.



Segundo Selma Turrioni, há também a necessidade de confirmar alguns resultados. Como parte dos laudos enviados para o Lacen foi obtida apenas por meio do método Elisa, falta ainda a realização da análise por imunofluorescência.



A coordenadora do Laboratório de Vigilância Epidemiológica do Lacen, Jerusa Moraes, reconhece como mais comum a aplicação das duas técnicas, mas sustenta a precisão do exame pelo método Elisa. Mais rápida e barata, Elisa é a única técnica utilizada pelas clínicas particulares (que enviam as amostras para Belo Horizonte/MG) e pelo Laboratório de Infectologia Veterinária da Universidade Federal da Bahia. No entanto, a técnica não consta no Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral do MS como metodologia reconhecida.



DEMORA – Essa foi a primeira preocupação de Andréa de Andrade, 36 anos, administradora, quando soube que seu pastor alemão estava com leishmaniose, pois o resultado foi entregue seis meses após a coleta da amostra de sangue. “Foi um desassossego”, lembra.



Além de providenciar o sacrifício do animal, ela submeteu toda a família e a empregada da casa a exames. Apesar de o CCZ ter feito toda a higienização e borrifação da vizinhança – para exterminar o mosquito transmissor –, Andréa só respirou aliviada quando se certificou de que nenhum morador havia sido contaminado.



A diretora do CCZ, Selma Turrioni, explica que o atraso na entrega do laudo foi causado por problemas no Lacen, como a falta de kits de testes. A coordenadora Jerusa Moraes admite que o laboratório enfrentou essas dificuldades no ano passado, mas garante que o fluxo de trabalho já foi normalizado.



Diagnóstico leva dois meses



O prazo de dez dias informado por funcionários do Lacen para entrega do diagnóstico difere de informações fornecidas por Selma Turrioni e pela Vigilância da Saúde de Camaçari, que atestam dois meses como período entre o envio da amostra e a liberação dos resultados, com possibilidade de redução para 15 dias apenas no exame de humanos.



Essa longa espera seria a causa do aparente aumento de casos em Camaçari, que realizou 159 sacrifícios no ano passado e já conta com 300 laudos positivos este ano. O diretor do Departamento de Vigilância da Saúde da cidade, Adelmar Vilela, atribui a elevada incidência ao acúmulo de registros ocorridos de um ano para o outro.



“Mas não é descaso do Estado, é que o laboratório está sobrecarregado”, ameniza, aproveitando para anunciar a realização de testes no município.



Sem registro de infecção humana desde 2004, Camaçari sai da lista dos dez municípios com maior incidência de leishmaniose visceral em toda a Bahia. Segundo Vilela, existe apenas uma suspeita em avaliação, aguardando o resultado do exame, cuja amostra foi enviada ao Lacen há nove dias.



Lauro de Freitas, por sua vez, é classificado pela Secretaria da Saúde do Estado como área sem transmissão da doença para humanos, porém o CCZ informou o registro de dois casos no ano passado.



Doença passa de animais para humanos



A aplicação dos medicamentos utilizados para o tratamento da leishmaniose visceral em humanos possibilita o controle da evolução da doença também nos animais. No entanto, a recomendação do Ministério da Saúde continua sendo o sacrifício do bicho infectado.



O problema é que, mesmo não sendo os transmissores diretos da patologia, os cães, e também raposas, funcionam como reservatórios do parasita causador da doença, o leishmania chagasi, aumentando as chances da contaminação humana. A infecção ocorre exclusivamente pela picada do flebótomo, inseto transmissor, que é combatido com borrifações a cargo do poder público.



O Ministério da Saúde sugere, no Manual de Vigilância e Controle da Doença para Proteção Individual, algumas medidas para prevenção, como colocar telas nas janelas (com orifícios de três milímetros, no máximo), evitar exposição durante o amanhecer e o anoitecer e manter quintais e terrenos limpos.



A suspeita de casos caninos ou humanos deve ser imediatamente comunicada aos órgãos responsáveis pelo controle de zoonoses ou à Secretaria da Saúde do Município. Feridas, perda de apetite, sangramento, dificuldade de locomoção e crescimento exagerado das unhas são alguns dos sintomas normalmente apresentados pelos cães infectados.



Como essas alterações também podem ser produzidas por outras patologias, o veterinário Ronaldo Lapa ressalta que o exame é indispensável para a precisão do diagnóstico. Nas pessoas, a suspeita de leishmaniose visceral deve ser levantada em casos de febre com duração superior a dez dias, principalmente se acompanhadas de emagrecimento súbito, dores e distensão abdominal.



Se não tratada, a doença pode matar por conta da ação do parasita sobre o fígado e o baço, que apresentam inchaço em cerca de 95% dos pacientes. O tratamento é feito com uma combinação de medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas só deve ser iniciado após a apresentação dos primeiros sintomas.



A presença do parasita leishmania no organismo humano também pode causar a leishmaniose tegumentar, também conhecida como ferida brava. As ocorrências desse tipo são mais freqüentes (1.856 casos notificados em toda a Bahia no ano passado), mas ele apresenta menos riscos à saúde. Além disso, como seu sintoma principal é o surgimento de úlceras na pele, o diagnóstico é mais precoce.



Sete casos em Salvador



O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Salvador registrou apenas dois casos de contaminação canina e cinco de infecção humana durante o ano passado. Todas essas ocorrências foram apontadas como “importados”, o que significa que a infecção não aconteceu dentro dos limites da cidade, considerada área sem transmissão.



No entanto, a certeza de que a capital baiana não tem focos do flebótomo – inseto popularmente conhecido como mosquito-palha, birigui e asa-branca – depende da realização de um inquérito entomológico. O estudo consiste no mapeamento de toda a cidade para vasculhar a presença do mosquito e deve ser iniciado até maio.



Segundo Eliaci Costa, bióloga do CCZ, a captura do inseto é feita com a montagem de armadilhas e aspiração de ambientes.



Por meio de trabalhos de campo realizados na região de Monte Gordo (litoral norte), a equipe do centro observou que o flebótomo se abriga preferencialmente em casas com quintal e animais, principalmente aves. Eliaci Costa calcula um ano, no mínimo, para concluir o inquérito.



O mesmo estudo foi realizado, no ano passado, em Lauro de Freitas e identificou a presença do mosquito transmissor apenas na localidade de Areia Branca. Porém, o surgimento de casos em Portão fez com que o procedimento fosse aplicado novamente este ano, confirmando a existência de mais um foco.



O inquérito é a forma mais precisa de determinar o potencial de transmissão da doença existente em uma região, ainda assim as informações da Sesab se baseiam em dados sobre o registro de casos. “Essas avaliações são de responsabilidade do Estado e têm sido feitas gradualmente, com prioridade para áreas consideradas endêmicas”, justifica a diretora de Vigilância Epidemiológica da Sesab, Isabel Xavier.



Ela aponta variações no número de casos registrados em cada município e garante que o perfil de distribuição da doença não tem mudado (veja infografia). A média de positividade canina nos exames realizados por amostragem em todo o Estado, no decorrer do ano passado, foi de 3,4%, enquanto 475 casos humanos foram registrados.

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