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Nazaré: um lugar cheio de mistura

Danile Rebouças, do A Tarde
Por Danile Rebouças, do A Tarde

Fruto do processo de ocupação iniciado na época da invasão holandesa na Bahia, 1624, o bairro de Nazaré apresenta-se com casarões, igrejas, conventos e prédios antigos. Nos nomes das ruas e avenidas e em monumentos espalhados pela região, remonta-se a importantes partes da história da Bahia e do Brasil. Hoje, Nazaré tornou-se um verdadeiro centro científico, jurídico, histórico, comercial, educacional, cultural e religioso. As marcas históricas e a característica residencial se misturam com a modernização e pouco são lembradas.

A Avenida Joana Angélica, principal da região, homenageia a primeira mártir da Independência da Bahia. A abadessa Joana Angélica morreu defendendo o Convento da Lapa contra os portugueses. Construído em 1744, o prédio representa um dos símbolos da liberdade do povo baiano. Hoje, quem por lá passa encontra muito comércio e instituições de ensino, a exemplo do campus da Universidade Católica do Salvador.

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No bairro, há ainda outras importantes construções religiosas, como a Igreja e Convento de Nossa Senhora do Desterro, primeiro convento de freiras irmãs clarissas construído no Brasil (final do século XVII). Na verdade, a ocupação de Nazaré, conforme relatado no livro História do bairro de Nazaré: uma experiência participativa em Salvador, de Manoel Passos Pereira, se deu concretamente no século XVIII, quando foram construídos esses templos religiosos. Em torno deles, começaram a se estabelecer os moradores, no século XIX.

Não é sem razão que o nome do bairro está associado à devoção religiosa, à Nossa Senhora de Nazaré, iniciada antes mesmo da construção da igreja. Hoje, os templos católicos dividem espaço com outras religiões. Foram instaladas no local sedes de centros espíritas, sinagoga e mesquita. Judeus, católicos e muçulmanos convivem bem, e as diferenças são respeitadas. “O bairro é tranqüilo, a adaptação com a vizinhança foi muito boa”, define sheik Ahmad, líder espiritual do Centro Islâmico da Bahia.

Dentre as instituições histórico-religiosas, há destaque para a Igreja do Santíssimo Sacramento e Sant’Ana, localizada na Ladeira de Santana. A construção, datada do século XVIII, traz uma decoração neoclássica, cheia de riquezas. No entanto, a falta de conservação e recursos financeiros fez com que ficasse fechada durante dois anos. Em julho deste ano, após convênio de reforma com o governo do Estado, foi reaberta. As obras têm previsão de término para dezembro. O padre Abel Carvalho, administrador paroquial, espera que em 2010, quando a igreja completa 250 anos, toda a estrutura esteja restaurada.

Saúde e Justiça – Não só de igreja e comércio vive a região. A praça central de Nazaré, a Almeida Couto, onde a imponente estátua de D. Pedro II remete à história do País, foi o principal centro de saúde do Estado. Os mais importantes hospitais se localizavam no largo, que ainda hoje detém referências desta época. Os hospitais Santa Izabel e Manoel Vitorino, a Maternidade Climério de Oliveira e a Escola Bahiana de Medicina preservam a história da área e contribuem para a aprimoração da medicina no Brasil.

Com o crescimento urbano e a construção de novas vias, o bairro, que detinha uma das primeiras linhas de bonde, ganhou novo perfil e aos poucos perdeu as características residenciais. A sede do Tribunal Regional do Trabalho (5ª Região), o Fórum Ruy Barbosa e o Ministério Público Estadual (MPE) são entidades que traduzem a importância jurídica conferida ao local. É para o bairro que muitos vão em busca de justiça.

Diversos prédios onde hoje estão instalados os órgãos públicos preservam características do período colonial e merecem ser preservados. O edifício do Ministério Público, por exemplo, tem origem no século XIX. Nessa época, a característica essencialmente residencial do bairro reunia entre os moradores famílias tradicionais, políticos, intelectuais e baluartes da medicina. No século XX, o prédio onde atualmente está o MPE abrigou a primeira Faculdade de Filosofia da Bahia (1941).

Aidil Sampaio, 79 anos, moradora há 48 anos, se recorda quando o espaço era dominado por mato e poucas eram as casas. “Tinha a igreja, um riacho, mangueiras e as casas eram com janelas grandes”, descreve. Aidil, devota de Nossa Senhora de Nazaré, se diz apaixonada pelo local e aprova as mudanças. “Me sinto muito bem aqui e só quero sair quando morrer”. Nazaré serve também como acesso para diversas outras localidades da cidade. As regiões do Tororó e Saúde se misturam ao bairro, e há quem considere que são parte dele.

Carência – Dentre as deficiências apontadas pelos atuais moradores,destaca-se a violência. Os residentes reclamam da falta de policiamento e da forte presença de moradores de rua. O centro comunitário, ao lado da Igreja de Sant’Ana, por exemplo, foi arrombado quatro vezes este ano. O agricultor Haroldo Barbosa, 55 anos, aponta como pontos negativos “os pedintes, os assaltos constantes e a prostituição de menores de idade à noite”. No bairro, não há nenhuma delegacia, nem companhia da Polícia Militar.

A história da região, retratada por casarões antigos está ameaçada. Muitos carecem de reforma. Nas ruas da Independência e do Gravatá, famílias de baixa renda ocupam o interior de prédios, marcados por infiltrações, rachaduras, rede elétrica precária. Na casa 29, 17 famílias se abrigam nos dois pavimentos existentes. “Aqui só serve para quebrar o galho, porque não temos para onde ir”, diz a vendedora autônoma Elisa Maria. Ela aponta o tráfico de drogas e a violência como problemas locais.

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