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Pesquisa aponta principais reivindicações dos moradores das favelas

DataFavela mostra que compra da casa própria e vontade de empreender aparecem na lista dos desejos

Jane Fernandes
Por Jane Fernandes
Mãe solo de três, Regilane Silva sonha com a casa própria
Mãe solo de três, Regilane Silva sonha com a casa própria - Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

Quase 18 milhões de pessoas moram nas mais de 13,5 mil áreas classificadas como favelas em todo o país, aponta pesquisa realizada no mês passado pelo DataFavela. O levantamento não tem recorte estadual ou regional, mas, no final de 2019, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) já indicava que 41,83% dos domicílios de Salvador estavam em aglomerados subnormais, conceito aplicado a favelas e assemelhados.

Espalhadas pelo Brasil, se as favelas formassem um estado ocupariam o terceiro lugar no ranking de maior população, ressalta o relatório da pesquisa, que teve participação de 423 favelas, incluindo localidades nos bairros de Pernambués e Beiru/Tancredo Neves. Ao traçar um perfil desses moradores, o DataFavela destaca o potencial das comunidades, os sonhos individuais e as demandas coletivas.

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Parte dos 14% de mulheres negras com ensino superior indicados pela pesquisa, Geisa Silva dos Santos, 29 anos, moradora de Itacaranha (Subúrbio Ferroviário) já deu um passo adiante e concluiu uma pós-graduação em gestão hospitalar. Atualmente, ela trabalha em um hospital, mas seu sonho é encontrar um emprego na área de sua graduação: relações internacionais.

Bolsa

Tanto na graduação quanto na pós, Geisa teve bolsa de 100% pelo Prouni e total apoio dos pais, com os quais continua morando, mas isso não eliminou as dificuldades de concluir as formações. “Tinha o custo com alimentação, o custo para se manter lá, entre outros. Até para conseguir estágio é complicado”, conta, lamentando não ter lido o edital todo e não ter encontrado quem informasse sobre o auxílio permanência ao qual tinha direito.

O sucesso profissional almejado por Geisa é o quarto sonho mais citado na pesquisa, com 9%, enquanto o grande desejo de Regilane Ventura da Silva, 29, ocupa o topo da lista: 34% dos participantes anseiam ter casa própria. Ela é mãe solo de três - com oito, quatro e dois anos - e se encaixa no contingente de 29% de moradores de favelas desempregados. O sustento vem do Bolsa Família somado ao ganho com “bicos”, especialmente na área estética, e a ajuda dos pais das crianças.

A dificuldade em conseguir vaga na creche para filha caçula foi superada na mudança do Lobato, onde foi criada, para Itacaranha. Geisa destaca o senso de comunidade que impera no local, gerando um ambiente seguro para os filhos brincarem na rua. Sua única reclamação é a iluminação escassa durante a noite. Quando tiver condições de comprar uma casa, é ali mesmo que pretende morar.

O sentimento de pertencimento e o desejo de prosperar sem abandonar suas origens é reforçado por outro morador do bairro: Marcus Vinicíus Souza, 31, que se registrou como MEI (Microempreendedor Individual) para abrir a distribuidora de perfumes Asaph. “Ter um negócio próprio” foi apontado como principal sonho de 13% dos participantes da pesquisa, ocupando o segundo lugar entre os mais citados. Quando a pergunta é específica do campo profissional, o número sobe para 35%.

Entre os que querem empreender, 68% pretendem repetir a escolha de Marcus e abrir um negócio na favela onde vivem, outros 15% preferem outro lugar e 17% ainda não decidiram. “Eu atendo virtualmente pelo whatsapp ou pelo e-mail da loja, tenho um estande na minha residência e também faço divulgação na rua e demonstração do meu produto com venda direta”, explica Marcus, que atualmente vende cerca de 200 perfumes por mês.

Coordenador da Cufa (Central Única das Favelas) na Bahia, Márcio Lima percebe um uso crescente da palavra favela no estado e atribui a resistência inicial à denominação aos preconceitos que cercam essas localidades. De acordo com a pesquisa, pobreza é a palavra que os não moradores mais associam às favelas, seguidas de “comunidade”, “violência” e “tráfico”, enquanto os habitantes falam em superação, família, alegria, amizade e felicidade

Márcio lembra que a origem do termo “favela” está intimamente ligada à história baiana, com a Guerra de Canudos. Favela é o nome de uma planta que era abundante na região e batizava um dos morros ocupados pelos seguidores de Antônio Conselheiro, como registrado em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. O coordenador da Cufa comenta que em Salvador muitas vezes é difícil delimitar as favelas. “A gente tem de ir in loco entender esse território”, afirma.

Em sua avaliação, além da criação de oportunidades para a geração de renda, as favelas baianas, presentes em Salvador e no interior, precisam de investimento principalmente em segurança, saneamento básico, e educação. “Muitas delas não têm escola nem creche”, comenta. As prioridades citadas por ele ocupam o primeiro, terceiro e sexto lugares entre as principais demandas dos moradores entrevistados pelo DataFavela.

Melhores condições de moradia é a segunda colocada no ranking das demandas, em quarto lugar está a saúde, seguida pela oferta de opções de lazer. O respeito aos moradores e mais opções de transporte público estão em sétimo e oitavo lugares, respectivamente. “As pessoas lutam muito por quadras, por praças, por campos”, observa o presidente da Federação das Associações de Bairros de Salvador, Kilson Melo.

Para Kilson o empenho em busca de melhorias também é uma expressão da relação afetiva dos moradores com o lugar onde vivem e dos quais se sentem parte. “Temos um olhar de ver as pessoas que estão vendendo coisas e a gente comprar nesses locais, deixar de ir para o Centro, para shopping, para fortalecer essas áreas de comércios locais”, completa.

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