SALVADOR
Prato Popular chega a Salvador
Parceria entre prefeitura, Gerdau e empresa alimentícia beneficia subúrbio com refeições a R$ 0,50
PATRICK BROCK
É meio-dia. Rosimeire Ferreira dos Santos, 39 anos, deixa o minúsculo barraco emprestado onde vive com cinco filhos e mostra o fogareiro de carvão, do lado de fora, onde logo começará a preparar a refeição do dia: arroz e soja. Ela fugiu da seca em Candeal, há um mês, e foi abandonada pelo marido.
Seus filhos sorriem para a câmera, enquanto apontam a panela velha e ainda vazia. São pessoas como Rosimeire que o restaurante Prato Popular, que será inaugurado hoje, em São Tomé de Paripe, quer beneficiar. No local, serão oferecidas refeições a R$ 0,50 para famílias com renda menor que R$ 150.
Embora aprovem a criação do Prato Popular, alguns moradores preocupam-se com o rigor no cadastramento dos beneficiados e as filas que podem se formar na entrada do restaurante. Há também desinformação sobre o programa e sobre quem é seu potencial público-alvo; Rosimeire, por exemplo, apesar de ser uma candidata ideal para se beneficiar dele, desconhecia sua existência.
O restaurante comunitário é similar a 17 outros que existem no Brasil, concretizados através de parceria público-privada da empresa Puras, do ramo de alimentação, com seus clientes e os governos estaduais ou municipais. Crianças de até 6 anos e 11 meses não pagam.
A unidade em Paripe fornecerá 350 refeições por dia, número que até as autoridades responsáveis admitem que é pouco para a demanda local. Com a inauguração de hoje, o programa passa a produzir mais de oito mil refeições por dia no Amazonas, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Paraná, segundo dados da Puras.
No cardápio do Prato Popular, arroz, feijão, uma guarnição, uma porção de proteína animal (carne vermelha ou branca) e salada. Parte da refeição é subsidiada pelas empresas parceiras no caso de São Tomé de Paripe, o Grupo Gerdau, operador de uma usina siderúrgica nas proximidades.
A comida é preparada na cozinha industrial da Gerdau, que também financiou a construção da estrutura física do restaurante. Os organizadores garantem que o cardápio tem qualidade igual ao consumido pelos operários da Gerdau.
Este é o primeiro restaurante popular organizado com a colaboração da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Sedes). O governo do Estado já opera dois restaurantes populares: um no Comércio e outro na Liberdade, num total de 4,3 mil refeições diárias só a unidade do Comércio processa diariamente 1,7 tonelada de comida.
GOTA DÁGUA Segundo o secretário municipal de Desenvolvimento Social, Carlos Ribeiro Soares, por ser muito pobre, a região de São Tomé de Paripe comportaria vários restaurantes do tipo. Ele admite que, diante da demanda, o Prato Popular é uma gota dágua naquele oceano.
A parceria com a iniciativa privada, diz, é essencial para viabilizar o projeto pois a secretaria não tem recursos suficientes para levar um restaurante subsidiado à frente. Assim, a prefeitura cedeu o terreno e vai custear a água, a luz e a segurança patrimonial, enquanto a Puras fornecerá o pessoal encarregado de transportar e servir a comida.
O secretário informou que já foi feito um pré-cadastramento das famílias que atendem aos critérios mínimos para almoçar no Prato Popular, e que assistentes sociais da prefeitura, com a colaboração do Serviço Social da Indústria (Sesi), vão checar a condição social das famílias que requisitaram o benefício.
O ponto de apoio é o Posto de Saúde na Família ao lado do Prato Popular. Os cidadãos cadastrados terão um cartão que permitirá o acesso ao restaurante. O objetivo, segundo o secretário Soares, é oferecer também programas sociais, como cursos de capacitação, no período ocioso do restaurante, que funcionará de segunda a sexta-feira (exceto feriados), das 11h30 às 13h30.
Segundo a nutricionista Karina Braga, o cardápio do Prato Popular preenche os pré-requisitos de uma refeição saudável com os carboidratos do arroz e do feijão, salada e uma porção de proteína. Ela lembra, entretanto, que o preparo é muito importante carnes grelhadas e cozidas têm menos gordura do que as fritas. Ela recomenda também a ingestão de frutas para balancear a dieta. Para substituir a proteína animal, Karina recomenda a soja.
Gostaria que fosse para todos
Claudinete dos Santos, 30 anos, mãe de três filhos pequenos, ganha a vida vendendo balas e cartões telefônicos. Ela disse não ter sido informada sobre o procedimento para cadastrar-se, mas tem interesse em almoçar por R$ 0,50, embora afirme que não encontra problemas em garantir o cardápio diário dos filhos. Ontem, o almoço consistia de quiabada e feijão. Não vou agüentar minhas crianças pedindo, e não ter o que dar. A gente se arranja.
Na casa em frente, Rosineide Guedes, 34 anos, elogiou a iniciativa do Prato Popular. Cercada pelos sete filhos, ela disse que também tem dúvidas sobre o processo de cadastramento dos beneficiados pela refeição de R$ 0,50.
O chapista Valdeval Santa Izabel, 39 anos, nascido e criado em São Tomé de Paripe, teme fraudes no cadastramento dos beneficiados, o surgimento de longas filas e a ação de vândalos. Tudo que começa aqui termina, e termina mal, diz, cheio de ceticismo.
Miguel Santos, 58 anos, que é vendedor de balas no ponto de ônibus em frente ao Prato Popular, é otimista. Ele diz que o comentário da comunidade gira em torno das dúvidas sobre quem é que pode comer no restaurante. Gostaria que fosse para todo mundo, comenta.
Projeto semelhante em Periperi
Próximo ao Prato Popular, na Rua Carlos Gomes, em Praia Grande (Periperi), existe um projeto semelhante ao que será inaugurado hoje em São Tomé de Paripe. Miralva Sá Barreto, 69 anos, fala com doçura na voz ao explicar como é que funciona o restaurante Sabor de Cidadania, uma maneira de fornecer comida a preço barato e também ajudar a quem precisa. Ali, por R$ 3, qualquer pessoa tem direito a um prato de arroz, feijão, frango ou carne geralmente com um ensopado de verduras.
O restaurante ajuda a sustentar o trabalho da Comunidade São Francisco de Assis, que fornece refeições e ajuda mulheres e homens desempregados. Miralva explica que o trabalho só é possível graças ao altruísmo de 20 voluntários.
No restaurante, só a cozinheira e a servente são remuneradas com meio salário mínimo e em regime de prestação de serviços. Miralva, que ajuda a coordenar as atividades e idealizou a iniciativa, diz que o restaurante é auto-sustentável. O objetivo não é dar lucro, mas sim fornecer um serviço voluntário, argumenta.
Vendedores ambulantes, verdureiros, operários de concessionárias de serviços públicos e professores estão entre os clientes do Sabor de Cidadania. É uma forma de colaborar, dando ganho a quem está desempregado, ao mesmo tempo em que ajudamos as pessoas mais humildes a comer, diz Miralva. (P.B.)
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