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AFRO GOSPEL

Projeto propõe fusão da cultura africana com a identidade cristã

Iniciativa criada pelo Ministério Restauração em Cristo, em Pau da Lima, defende valorização da africanidade

Priscila Dórea
Por Priscila Dórea
A valorização da cultura afro é evidente no comportamento e na indumentária dos frequentadores do culto
A valorização da cultura afro é evidente no comportamento e na indumentária dos frequentadores do culto - Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

“Somos livres para adorar ao Deus nosso criador com a riqueza da nossa cultura. Podemos segui-lo e o escolher todos os dias, e junto a isso resgatar valores assumindo nossa cultura afro e identidade cristã”, afirma a designer de moda Marta Santos, uma das idealizadoras e fundadoras do Projeto Afro Gospel. Criado em 2016, o projeto levou ao Ministério Restauração em Cristo, em Pau da Lima, a cultura afro por meio da culinária, moda e música, valorizando e fortalecendo essa identidade dentro dos princípios cristãos.

O evento Afro Gospel acontece a cada três meses, mas a pastora do Ministério Restauração em Cristo, Mirian Oliveira - irmã de Marta -, também leva a importância da valorização da própria cultura e origem aos cultos ao longo da semana, onde instrumentos musicais de origem africana, como os atabaques, são usados. “Isso aqui é da gente, a gente pode vestir!”, disse a pastora durante um dos cultos, no qual falava sobre roupas com estampas africanas. Estilo de roupa que, inclusive, muitos dos fiéis usavam no culto.

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Separar a cultura de um povo de sua religião é um trabalho quase impossível. Possível, no entanto, é respeitar as escolhas do outro, buscando entender que esses dois mundos tão intrínsecos possuem pontos que os separam e os ligam a outras vertentes. Por isso, a pastora Mirian chama atenção de outras instituições evangélicas, para que busquem criar ações semelhantes. “Peço para que olhem com mais atenção a nossa própria cultura e busquem formas de a inserir na comunidade evangélica como uma ferramenta de resgate e mudança de vida”, pede.

E foi com esse pensamento que o Projeto Afro Gospel se tornou uma ferramenta de ajuda e apoio a comunidade do bairro, oferecendo aulas de capoeira, curso de artesanato e consultoria de moda - além de outras ações sociais organizadas pela igreja, como a distribuição de sopa, que acontece uma vez por semana. Durante os eventos trimestrais, artistas negros evangélicos são convidados especialmente para se apresentarem e outra gama de atividades ligadas a cultura afro são realizadas.

Afirmação

Há 14 anos, a estudante Sarah Luisa Souza do Rosário é uma fiel do Ministério Restauração em Cristo e afirma que o Projeto Afro Gospel não é apenas importante, mas necessário. “Quando a gente pensa que ele foi criado no contexto de uma comunidade como Pau da Lima, que é periférica, carente de políticas públicas e majoritariamente negra, podemos dimensionar a grandeza da sua proposta. O Afro Gospel traz para a comunidade a afirmação e valorização da sua identidade cultural e isso é maravilhoso, porque estamos em uma sociedade que ainda sofre as consequências do racismo”.

Isso porque, além de reconhecer o problema, eles se propõem a intervir com os recursos que dispõem. “Para mim é gratificante, por exemplo, ver uma menina negra se dirigir às trancistas, que são outras mulheres negras do bairro que têm nas oficinas de penteado a oportunidade de mostrar suas habilidades e talentos, escolher um modelo de trança e depois se levantar da cadeira feliz, recebendo elogios, sentindo-se livre e vendo beleza nisso, quando muitas vezes na escola é vítima de chacota por causa do seu cabelo”, exemplifica.

Entre as atividades realizadas no projeto, Sarah conta que gosta bastante e fica admirada com a criatividade do artesanato produzido pelos irmãos e irmãs do Ministério. “Mas acho que posso afirmar que todos nós que participamos do Afro Gospel aguardamos com muita expectativa pelo momento de louvar ao som dos tambores e com as danças. É realmente um momento de muita alegria! Como cristã e mulher negra, também me realizo no Projeto por termos nele um espaço para lembrar a nós mesmos e a outros que o que Deus faz é bom: a diversidade da Criação é boa e proposital!”, afirma.

“Já passamos da fase de promoção da diversidade, pois a diversidade já existe”, aponta o cônego Lázaro Muniz, pároco da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. O momento agora é de valorizar essa diversidade, o pluralismo religioso e o respeito entre as religiões. Isso é fundamental. “O Santo Padre lembrava, o Papa Francisco tem lembrado e a igreja ao longo da história, sobretudo após o Concílio Vaticano II, tem lembrado o quanto é necessário que a gente compreenda que não somos a única religião e nunca fomos. Muitas outras existiram antes de nós, continuam existindo concomitantemente e continuarão”, explica.

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