SALVADOR
Quem é que sobe a ladeira do Curuzu?

>>Sede de bloco afro ajudou a promover a rua
Já fazem 31 anos desde que Dinah Freitas, 55, começou a subir a ladeira do Curuzu, eternizada na voz de Daniela Mercury, nos versos de O Mais Belo dos Belos. Ela, que foi morar ali quase por engano, hoje gosta de onde vive. “Eu apenas ouvia falar e tinha medo. Só depois que comprei o apartamento foi que descobri que estava no Curuzu”. Escritura em mãos, acabou ficando.
Eis que o lugar acabou se revelando melhor que a encomenda. Afinal, incrustada na Liberdade, a Rua do Curuzu é reduto de resistência e manifestação da cultura afrodescendente que caracteriza o bairro. Não à toa, é lá que nasceu e está instalado desde 1974 o Ilê Aiyê, o primeiro bloco afro do Brasil. De geografia recortada, a rua abriga edificações de ocupação espontânea e desordenada, com residências construídas sobre lajes.
Estabelecimentos comerciais também não faltam: padaria, mercadinho, farmácia, salão de beleza. “Bar, então, é o que mais tem”, lembra Dinah. Locais de festa são três: o próprio Ilê, uma academia de dança de salão e o Espaço R2. “Além de o Curuzu ser famoso e cantado, é um ponto tradicional da cidade. Deveriam fazer uma reforma para deixar como ponto turístico”.
A sugestão de Dinah é só um resumo de tudo o que ela gostaria de mudar na rua onde criou três filhos. “A primeira coisa é a limpeza. Como não tem lixeira, o lixo se acumula nas calçadas e, por sinal, há muitas quebradas. É preciso melhorar a manutenção”. Apesar de a Sucom, que cuida de passeios públicos, afirmar que o calçamento é responsabilidade dos proprietários de imóveis, Dinah questiona: “E a gente paga IPTU para quê?”
Outra queixa diz respeito às linhas de ônibus, escassas. “Aqui, só temos o circular Curuzu-Contorno e um Pituba que entra 6h, mais nada”. De acordo com o órgão municipal, Transalvador, para evitar a criação de novas linhas é que a rua conta com ônibus de integração local, o amarelinho, que vai do Curuzu ao Largo do Tanque, onde há acesso às linhas troncais para as estações Pirajá e Mussurunga.
Emergência – Para Neuza Santos, 63 anos de idade e de moradia, as queixas são por policiamento e de falta de médicos no fim de semana, na unidade estadual de emergência. A diretora da unidade de saúde, Marinês Marques, alega, porém, que há quatro médicos de plantão, diariamente. “Aqui é 24h, não para”. Quanto ao policiamento, o major Alberto Beanes, da 37ª CIPM (Liberdade), esclarece que há operação de ronda de sexta a domingo, das 18h às 4h.
Dona Neuza pede, ainda, limpeza da rua após as festas. “Eu botaria sanitários químicos e mandaria um carro-pipa lavar o asfalto no dia seguinte aos ensaios do Ilê”. De acordo com a Limpurb, isso pode ser feito, desde que solicitado ao órgão pelos moradores. Para Dinah, o que falta mesmo é reconhecimento: “O Curuzu todo é conhecido internacionalmente, já deveria ter uma estrutura melhor”.
Jaqueiras – Melhorias à parte, dona Neuza gosta de se sentir em casa: “Nasci e me criei aqui. Acho que não tem lugar melhor para conviver”. Ela lembra que a rua da infância era de barro, coberta por mato, mangueiras e jaqueiras. “A gente brincava de roda no meio da pista, não tinha carro passando”. Saudade ela tem dos bailes pastoris que aconteciam no Natal. “Fechava a rua e tinha desfile. São coisas da antiguidade que não existem mais”.
Moradora ilustre da rua, Hilda dos Santos, 86, a yalorixá mãe Hilda, conselheira do Ilê Aiyê, também lembra das jaqueiras que encontrou no Curuzu quando lá foi morar na década de 1930. “A rua era estreita e cheia de árvores”. Hoje, o que mãe Hilda gostaria de ver ali é um parque para crianças e idosos, uma vez que a localidade não conta com espaço de lazer aberto.
Serviço
Limpurb
Pelos números 3186-5112/ 5084, para solicitar colocação de lixeiras e lavagem da rua com carro-pipa.
Sucom
Pelo 2201-6600, para pedir fiscalização de passeios particulares e reclamação de poluição sonora.
Transalvador
Pelo 3371-1580, para pedir informações de transporte.
37ª CIPM
Pelo 3117-1400/ 05, para solicitar patrulhamento e ronda policial, na Liberdade.
Sesab
Pelo 0800-284-00-11, para fazer queixas relativas às unidades de emergência do Estado e hospitais públicos.
Ilê Aiyê
Informações de atividades e festas podem ser obtidas pelo 2103-3400.