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SALVADOR

Tráfico de pássaros condena espécies a risco de extinção

Vendidos por até R$ 50 mil, animais criados para rinhas vivem situação cruel

Olga Leiria
Por Olga Leiria
| Atualizada em

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O cardeal está entre as dez  espécies de pássaros mais comuns em apreensões realizadas pelo  Grupo Especial de Proteção Ambiental
O cardeal está entre as dez espécies de pássaros mais comuns em apreensões realizadas pelo Grupo Especial de Proteção Ambiental -

Na cultura brasileira não é difícil conhecer alguém que tem ou já teve alguma ave silvestre em casa. As mais comuns são as espécies canoras e o "tagarela" papagaio. Esse hábito de manter pássaros presos em gaiolas veio com a colonização dos portugueses, que, ao se depararem com a grande riqueza de aves coloridas e sonoras das novas terras, começaram a enviá-las para a Europa.

Entre os nativos havia o costume da ligação com aves. Os povos indígenas lidavam com as aves, mas de uma forma respeitosa e livre: os animais iam e vinham da floresta para as aldeias, sem gaiolas ou amarras. Mas o interesse português foi tão grande que deu início ao tráfico de animais, em especial de pássaros para exibição. Esse costume virou um negócio, com grandes lucros. Araras, papagaios, arapongas, gaviões eram enviados para toda a Europa.

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E os ecos desse contexto histórico estão no nosso tempo. Ao andarmos por Salvador nos deparamos o tempo todo com pássaros presos em gaiolas penduradas em estabelecimentos comerciais, feiras, casas, na garupa de bicicletas e na mão de criadores ou vendedores pelas ruas.

Informações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) dão conta de que 80% das aves traficadas são de canto, as demais são usadas em rinhas (brigas), como os canários-da-terra, que batalham entre si até que um dos "lutadores" não resista, e para exibição.

"Eu cuido com muito carinho", diz ao A TARDE um criador de papa-capim, pássaro comum na fauna da capital baiana. "Tenho três pássaros. Paguei R$ 2.500 por um deles. Dou ração e vitamina, dá trabalho, gasto mais de R$ 240 todo mês com eles", diz, sem se identificar. "Eu não comercializo, tenho porque gosto de acordar e escutar o canto, é bonito".

Há papa-capim de "rinha de canto" (concursos de trinados) que chega a custar mais de R$ 50 mil em campeonatos clandestinos. Os animais são avaliados por gorjeios como "viviti, tuitui e vezeiro". Quem dá o preço é o próprio dono.

Com o grande número de aves presas em gaiolas, a caça e a redução de áreas verdes, há pássaros que não são mais vistos e estão correndo risco de extinção. Uma ave rara em Salvador é o curió. Segundo a bióloga Tatiana Gomes, a natureza tem um grande prejuízo com um número reduzido de aves. "Elas são disseminadoras de sementes e predadoras de insetos; com isso, nossa natureza fica desequilibrada, sem árvores e com uma cadeia de insetos sem controle pela falta do predador", lamenta.

Captura

Os pássaros são capturados em matas remanescentes, onde os caçadores sabem que ficam parte do dia ou marcam território, em especial o papa-capim. Coloca-se uma arapuca, visgo de jaca e nos dias de hoje até o produto Pega Tudo (uma espécie de cola para prender ratos e insetos) é usado para capturar as aves.

Depois de retirados da natureza para fins comerciais, os pássaros passam por ainda mais estresse, levados em motos, bicicletas, dentro de sacos, mochilas, enfiados em caixas, dentro de porta-malas de carros, conforme são transferidos do caçador para o intermediário, até a venda final. Durante essa jornada, eles são privados de comida e água e, muitas vezes, têm contato com outros animais capturados, aumentando o risco de espalhar doenças e o possível surgimento de novos males zoonóticos, que podem ser transmissíveis para humanos.

Segundo o Grupo Especial de Proteção Ambiental (Gepa), da Guarda Civil Municipal de Salvador (GCM), em dois anos de trabalho, os dez pássaros mais comuns em apreensões foram papa-capim, canário-da-terra, coleiro, cardeal-do-Nordeste, trinca-ferro, pássaro preto, caboclinho, azulão, curi e, sofrê.

O perfil de vendedores e atravessadores são de homens de 40 anos a 70 anos, com escolaridade de ensino médio. Os locais onde é mais comum a comercialização são Liberdade, Uruguai, Estrada do Coqueiro Grande e Cajazeiras 10.

Reabilitação

O Centro Estadual de Triagem de Animais Silvestres, do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Cetas/Inema) possui um centro de habilitação para receber os animais apreendidos pelo Gepa e Companhia de Polícia de Proteção Ambiental (Coopa/PM-BA), por entrega voluntária ou resgate.

Segundo Marcio Andrade, gestor do Cetas, as aves que chegam ao centro após apreensões possuem aspecto de doentes. "Doenças parasitárias e infecciosas são muito comuns em pássaros apreendidos", relata o profissional. "Também chegam com lesões na cabeça, perto do bico, porque muitas vezes são aves recém-capturadas e tentam sair da gaiola", observa.

As lesões em patas são causadas por traficantes que tentam colocar uma anilha falsa. Após vários meses de cuidados, eles passam por uma triagem para a soltura em lugares catalogados e registrados por órgãos.

Com a vida estressante na gaiola, a maioria das aves presas não chega à metade da expectativa de vida. "Estresse, musculatura atrofiada, alimentação incorreta com alimentos para induzir ao canto para chamar uma fêmea que nunca virá, gaiolas pequenas, luz acesa alterando a rotina biológica da ave", são exemplos de maus-tratos que a bióloga Tatiana menciona.

Denúncias:

08000711400 (gratuito)

WhatsApp: 71 99661-3998

E-mail: [email protected]

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