EM 4 MESES
Transalvador registra mais de 13 mil infrações por uso do celular
Multa para infrações gravíssimas está no valor de R$ 293,47 e vale sete pontos na carteira do motorista

Mais de 13 mil infrações por uso de celular ao dirigir foram notificadas em Salvador apenas entre janeiro e abril deste ano, resultando em média diária de 440 ocorrências. O montante representa 5,5% do total de notificações expedidas pela Transalvador no período, mesmo com as dificuldades encontradas para fazer esse tipo de autuação.
Enquanto infrações como excesso de velocidade e invasão de sinal contam com equipamentos eletrônicos específicos para esse monitoramento, a notificação do uso de celular ao volante depende basicamente da presença do agente de trânsito, explica o gerente de trânsito da Transalvador, Antônio Neri. “Os números não refletem a realidade”, admite.
Além das múltiplas atividades dos agentes de trânsito, ele cita ainda a utilização de películas escuras nos vidros laterais dos veículos como um dificultador da visualização do uso do celular, além do emprego de tecnologias como a conexão por bluetooth ao rádio do carro.
Outra possibilidade para autuar esse tipo de infração é por videomonitoramento, mas as imagens só podem ser utilizadas com essa finalidade se a existência de monitoramento por câmeras naquela via estiver sinalizada. Atualmente, a Transalvador conta com cerca de 400 câmeras espalhadas na cidade, a maioria delas em parceria com a Secretaria da Segurança Pública.
Neri lembra que não é preciso estar segurando o celular para cometer uma infração de trânsito. Desde 2016, o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) adotou variações, classificando como infração gravíssima tanto o ato de segurar o celular quanto de manusear, mesmo sem estar segurando. Já a utilização do celular sem segurar ou mexer nos comandos, utilizando fones de ouvido, por exemplo, configura infração média.
O CTB estabelece multa de R$293,47 para infrações gravíssimas e sete pontos computados na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) do condutor, as infrações médias são multadas em R$130,16, com anotação de quatro pontos na CNH. Vale lembrar, que o Código prevê a suspensão do direito de dirigir para os motoristas que somem 20 pontos na carteira.
Déficit de atenção
O representante comercial Pedro Santiago*, 34 anos, reconhece que se fosse notificado a cada uso do celular enquanto dirige o seu carro, sua carteira teria sido suspensa há tempos. Na sua avaliação, há uma redução da atenção ao trânsito provocada pela utilização do aparelho, mas não suficiente para colocar ninguém em risco de acidente.
Embora evite fazer ligações enquanto está ao volante, ele costuma atender, pois sempre pode ser um cliente. Além disso, aproveita os semáforos para conferir mensagens no whatsapp, respondendo as consideradas mais urgentes por áudio. No caso das redes sociais, o representante deixa para conferir quando não está no carro.
Neri esclarece que utilizar o celular enquanto está parado no sinal vermelho não exime o motorista de receber uma multa, pois ele continua na direção do veículo em uma via de tráfego. Logo, aproveitar o engarrafamento também não elimina os riscos resultantes do desvio de atenção, nem a punição prevista no CTB.
“Parece que as pessoas não percebem o quanto isso compromete a segurança, as pessoas se viciam no celular, estão o tempo todo olhando rede social, e isso tem aumentado bastante o risco de acidentes”, pondera o gerente de trânsito.
Para Neri, a promoção de uma mudança de postura inclui a realização de grandes campanhas de orientação dos condutores sobre os impactos de combinar direção e uso de celular, além da abordagem cada vez mais ampla da educação para o trânsito nas escolas, contemplando esse e outros subtemas.
Essa compreensão da condução de um veículo como momento de foco total no trânsito é cultivada pela empreendedora Roberta Liberato de Matos, 41, habilitada há pouco mais de dez anos. “Até para usar pelo bluetooth, você precisa olhar onde vai apertar, então já atrapalha”, avalia.
Roberta recorda os vários acidentes relacionados a descuido e desatenção no trânsito mostrados durante sua preparação para tirar a CNH, o que desde sempre lhe gerou medo. Por isso, sua relação com o celular ao entrar no carro é mantê-lo dentro da bolsa ao longo de todo o trajeto, mesmo que isso muitas vezes provoque reclamações de quem tentou falar com ela nesse intervalo.
* uso de nome fictício a pedido do entrevistado
No celular, risco de acidente aumenta 4 vezes
O risco de colisão aumenta quatro vezes quando o motorista está em uma ligação telefônica enquanto dirige, a proporção é a mesma para uma checagem de mensagem de texto, mas chega a 23 vezes se o condutor resolver digitar uma resposta. Retirados de estudos publicados na Inglaterra e nos Estados Unidos, os dados estão na diretriz sobre uso de celular elaborada pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).
Segundo o presidente da Abramet, Antônio Meira Júnior, o intuito da entidade é avaliar os riscos relacionados ao uso do celular ao volante, chamar a atenção da sociedade para o problema e também propor medidas para evitar essa prática. “A gente trouxe um termo interessante chamado FAC, que é falha de atenção ao conduzir. Tem várias formas de você perder a atenção dirigindo, e a principal causa de falha de atenção ao conduzir é o celular”, comenta.
Meira explica que as falhas de atenção são classificadas em três tipos e quando o motorista usa o celular pode incorrer nas três formas de FAC: manual, visual e cognitiva. A distração gerada por essa prática também é listada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) entre os principais fatores de risco comportamentais para ocorrência dos sinistros de trânsito, ao lado da velocidade, alcoolemia e fadiga, por exemplo.
Às cegas
“A pessoa deixa de utilizar uma mão na condução do veículo e passa a olhar o celular se for conferir uma mensagem, é como se estivesse dirigindo às cegas, e a cognitiva depende do conteúdo da conversa. Uma pessoa que faz uma ligação para você pode lhe passar informação de algum problema, uma notícia triste, o que pode causar uma alteração emocional que em fração de segundos você fique desatento e ocasione uma tragédia”, comenta Meira.
Segundo o presidente da Abramet, os levantamentos reunidos para a redação da diretriz demonstram que os mais jovens são os que mais admitem usar celular na direção. “São os que têm menos experiência prática, têm menos medo de arriscar, uma coisa vai somando com a outra e a gente sempre fala que o sinistro de trânsito é multifatorial”, alerta.
Conforme apontado a diretriz, atualmente, o Sistema de Informação da Polícia Rodoviária Federal é o único que possibilita dimensionar nacionalmente o impacto da FAC na ocorrência de óbitos e lesões por sinistros de trânsito. As falhas de atenção causaram 30,2% dos 643.231 sinistros com vítimas ocorridos nas rodovias federais brasileiras, entre os anos de 2007 e 2016.
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