SALVADOR
Um dia é pouco: Ela sabe de quase tudo sobre o mar
Zelinda Leão venceu o preconceito da academia Quando a pesquisadora Zelinda Margarida Nery Leão cumpriu seu doutorado nos Estados Unidos, no início dos anos 80, voltou para a Bahia determinada a continuar suas pesquisas pioneiras dos recifes de corais brasileiros. Apresentou, com duas alunas, o seu primeiro projeto ao órgão de fomento à pesquisa e teve sua primeira frustração ao ter rejeitada a proposta.
Tempos depois, veio a revelação de um dos examinadores: o projeto fora reprovado porque a equipe era formada só por mulheres. Três mulheres mergulhando, sem nenhum homem? Isso não tinha cabimento, teria dito o catedrático.
As dificuldades para o ingresso de mulheres em pesquisas podem já não ser tão grandes hoje, quando o número delas se equipara ao de homens entre bolsistas do CNPq, mas, na década de 70 não era assim. Foi nesta época, já aos 40 anos, que ela iniciava sua carreira de pesquisadora numa área ainda desconhecida, o fundo do mar. Ela, que nasceu em Jaguaquara, formou-se em História Natural pela Ufba, na qual tornou-se mestre em geologia.
Nos EUA, conheceu Jacques Laborel, até então o único conhecedor dos recifes de corais brasileiros. Ele a incentivou a se dedicar aos recifes de corais de Abrolhos, que eram praticamente desconhecidos. Vá, que você será a mãe natural, porque eu sou o pai, mas adotivo, teria dito ele, se referindo à paternidade dos estudos feitos sobre o local.
Ela se orgulha de já ter orientado 15 mestrados e seis doutorados, na pós-graduação de Geologia, no Instituto de Geociências, e que se estende até projetos de estudos de estudantes de ensino médio de escolas públicas de Cabrália, no litoral extremo sul.
São trabalhos que têm desvendado os recifes de corais desde o litoral norte até Abrolhos, passando pela Baía de Todos os Santos, ilhas de Tinharé Boipeba e Corumbau e Cabrália. Os recifes do Brasil são os únicos do Atlântico Sul e são muito desconhecidos em relação a outros do mundo, diz ela.
Casada com um geólogo, e mãe de três filhas, ela contou com a parceria do marido, inclusive quando teve que ir com toda a família morar cinco anos nos EUA. De seu apartamento, em Ondina, a vista não poderia ser outra senão o belíssimo mar azul da Bahia que a tem inspirado há mais de 30 anos e que a mantém em plena atividade acadêmica nos seus 72 anos.