MAIO AMARELO
Inexperiência, velocidade e celular colocam jovens em risco no trânsito
1.478 sinistros envolvendo jovens de 18 a 29 anos foram registrados nas rodovias federais na Bahia

A inexperiência ao volante está entre os principais fatores de risco para sinistros de trânsito. Segundo relatório nacional divulgado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), em 2024 (dados mais recentes), cerca de 24,30% dos motoristas habilitados que sofreram algum tipo de lesão em sinistros de trânsito tinham menos de seis anos de habilitação.
Entre as vítimas fatais, a taxa foi de 16,62%. No Brasil, a frota de condutores habilitados soma cerca de 85 milhões de pessoas, conforme dados da Secretaria Nacional de Trânsito (SENATRAN), divulgados em 2025.
Na Bahia, entre janeiro de 2025 até 16 de abril de 2026, conforme apuração de A TARDE junto à PRF, cerca de 1.478 sinistros envolvendo jovens de 18 a 29 anos foram registrados nas rodovias federais. Desse total, 353 foram classificados como graves.
O estudante Saulo Pedrosa, de 19 anos, habilitado há pouco mais de um ano, relatou que o início ao volante foi marcado por insegurança. “Me senti extremamente assustado nas primeiras vezes”, afirmou.
Com o tempo, ele disse que passou a dirigir com mais confiança, embora reconheça que a adaptação é gradual. Saulo afirmou ainda que, apesar de não ter se envolvido em situações de risco, a distração pode vir de fatores internos. “O que mais me distrai são meus pensamentos”, admitiu.
Para ele, a juventude pode influenciar comportamentos imprudentes no trânsito, principalmente pela “sensação de liberdade ao volante”.

Para o psicólogo perito do tráfego e neuropsicólogo Antônio Israel, o relato do jovem reflete um processo típico dessa fase de adaptação. Segundo ele, a insegurança inicial é natural, mas exige acompanhamento e prática responsável. Com o tempo, essa insegurança pode dar lugar ao excesso de confiança, que é um dos principais fatores de risco.
“Geralmente, quando eles [jovens] começam a iniciar o processo de CNH, a partir dos 18 anos, é tudo novo, tudo muito inicial. Geralmente, até os 25, o desenvolvimento cerebral ainda precisa de uma maturação do córtex pré-frontal, que é responsável pelo controle, julgamentos, tomada de decisão, que ainda não está totalmente desenvolvido. E, na avaliação psicológica, quando a gente realiza a primeira habilitação ou renovação, avaliamos os três níveis de atenção, memória, raciocínio lógico e comportamento”, falou.
“Como ainda não está 100% formada a questão do cérebro, como ainda está em desenvolvimento comportamental, de maturidade, desenvolvimento emocional, questões de impulsividade podem aparecer. E aí é onde eles começam a não obedecer as regras. Então, eles acabam achando que podem tudo, e entram as questões pessoais, os comportamentos de risco, excesso de velocidade, ultrapassagens perigosas”, completou.
Vilão da vez
Entre os fatores de risco, o uso do celular se destaca como um dos principais problemas da atualidade. Estudos recentes divulgados pela Associação Brasileira de Psicólogos de Tráfego (ABRAPSIT) indicam que esse checar o aparelho não é apenas uma escolha individual, mas resultado de mecanismos neurobiológicos que estimulam a busca contínua por recompensas rápidas, reduzindo a capacidade de concentração e a percepção de risco no trânsito.
Esse fenômeno, associado à dependência de estímulos digitais, pode levar a um estado de “cegueira atencional”, no qual o condutor deixa de perceber perigos ao redor.
“Digitar uma mensagem a 40 km/h equivale a dirigir com os olhos vendados por cerca de 50 metros, aumentando significativamente o risco de sinistros e quase-sinistros. O risco para quem tecla e dirige pode ser até 23 vezes superior ao de um motorista focado exclusivamente na via”, apontou o estudo.

Segundo o psicólogo Antônio Israel, esse comportamento está diretamente ligado à ansiedade e à necessidade de resposta imediata, o que compromete a atenção no trânsito.
“Quando o jovem pega o celular para responder uma mensagem no WhatsApp ou uma publicação no Instagram, ele acaba tirando o foco da sua responsabilidade e dá atenção a um aparelho, o que pode gerar colisões”.
Não à toa, o uso excessivo do celular tem sido apontado como um comportamento de risco emergente no trânsito, ao lado de fatores já conhecidos, como excesso de velocidade e consumo de álcool.
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