MAIO AMARELO
Sobreviventes! As histórias por trás dos sinistros do trânsito na Bahia
Os relatos emocionantes de quem sobreviveu à imprudência nas vias baianas

Três estagiários saíam do trabalho no mesmo horário, todos os dias. Era uma rotina previsível, até 23 de abril de 2024, por volta das 13h30, quando apenas duas estagiárias foram embora juntas. Minutos depois, o terceiro colega saiu e perdeu o ônibus que fazia a linha Federação–Avenida Tancredo Neves.
Para não atrasar para o segundo turno, ele decidiu recorrer a uma alternativa cada vez mais comum nas grandes cidades: uma corrida de moto por aplicativo.
Já era tarde quando os colegas trocaram mensagens pelo WhatsApp. Foi ali que veio a notícia que mudaria completamente aquele dia: Ian Peterson, então com 26 anos, havia sofrido um grave acidente na Avenida Paralela, uma das vias mais movimentadas de Salvador.
“Eu lembro do momento que estava saindo do estágio, vi o ônibus passando e foi a hora que chamei o moto Uber. Coloquei o capacete e, depois da partida, eu não lembro de mais nada. Eu só acordei duas semanas depois já no hospital”, contou Ian, que sofreu múltiplas lesões e passou por um longo período de internação. “Foram muitas fraturas no meu rosto. Tive que fazer uma reconstrução do crânio, cheguei a ter um infarto na UTI [Unidade de Terapia Intensiva] também… Essa parte do pós foi a mais complicada”.
A recuperação, segundo ele, foi marcada por desafios físicos e emocionais. “O que mudou foi que eu tive que reaprender muita coisa. Tenho que reaprender muita coisa. Tive que reaprender a andar basicamente, a sentir meu corpo de novo, e a parte mais difícil foi não deixar desanimar, não deixar a peteca cair”, relatou.
Desde então, o trauma também redefiniu sua relação com o trânsito. ”Nunca mais trisquei em uma moto, ora por medo de acontecer o que aconteceu como da última vez, ora por medo da família mesmo, em trazer essa preocupação de novo”.
O caso de Ian não é apenas uma estatística. Histórias como essa se repetem com frequência nas ruas da capital baiana.

Dia de treino virou tragédia
Outra situação marcante foi a vivida pelo atleta e estudante de Educação Física Emerson Pinheiro, de 29 anos, atropelado em 16 de agosto de 2025, na Pituba, bairro nobre de Salvador. Em entrevista à reportagem de A TARDE, ele relembrou em detalhes as horas que antecederam o acidente e o impacto que o episódio provocou em sua vida.
Segundo Emerson, tudo começou ainda de madrugada, em um sábado chuvoso. Ele acordou por volta das 4h10 para cumprir a rotina de treinos, mas sentiu que algo estava diferente.
“Toda vez que eu acordava para iniciar o treino, ia direto para a cozinha preparar o café. Naquele sábado foi totalmente diferente. Estava sentindo muito frio, não era normal”,contou. Sentado no sofá, hesitou quando a mãe perguntou se ele realmente sairia com a chuva. Ainda assim, decidiu manter o compromisso.
“Falei: ‘não, eu tenho que ir, porque se eu não for ninguém vai fazer por mim e a prova está se aproximando cada dia mais’”, lembrou. Emerson se preparava para disputar, em setembro, a Maratona de Buenos Aires (Argentina).
Ao sair de casa, a chuva voltou a cair. A mãe insistiu, mais uma vez, para que ele desistisse, mas ele respondeu: “Já estou aqui fora, já me molhei, vou ter que ir”.
Por volta das 5h10, Emerson treinava normalmente na orla da Pituba. Corria concentrado, encontrou amigos e outros atletas e, em determinado momento, conversava com eles sob a calçada quando tudo aconteceu.
“Eu virei, coisa de 30 metros, vi o carro na minha frente e não tive reação. Naquele momento fechei o olho e pensei: ‘vou morrer’”, relatou. “Foi a partir daí que recebi o baque. Não sei se voei, se rolei. Quando abri o olho já estava no chão. Não fiquei desacordado, mas apaguei uns seis segundos”.

Uma pessoa que estava em um carro de aplicativo prestou os primeiros socorros. Emerson contou que, aos poucos, percebeu a gravidade da situação. “Acordei naquele desespero, a pessoa que estava na minha frente me acalmou. Comecei a agradecer a Deus por não ter deixado eu morrer naquele momento”.
Outros corredores que passavam pelo local, entre eles profissionais de saúde, também ajudaram até a chegada do socorro. Mesmo consciente, Emerson ouviu comentários de que o estado dele era grave e que talvez fosse necessária a amputação de uma perna. “A todo momento fiquei tranquilo. Cheguei a ver o estado da minha perna e vi que o caso era feio mesmo”.
No Hospital Geral do Estado (HGE), ele foi encaminhado imediatamente para a sala vermelha, realizou exames e passou por cirurgia de emergência. O procedimento resultou na amputação da perna direita e na reconstrução da perna esquerda. Meses depois, Emerson segue em processo de recuperação. Faz fisioterapia semanalmente e aguarda nova cirurgia no joelho esquerdo para recuperar totalmente os movimentos.
Corredor desde 2014, quando iniciou a trajetória esportiva no Exército Brasileiro, Emerson afirmou que não pretende deixar o acidente definir o futuro.
”Eu quero voltar ao esporte, eu vivo do esporte e isso eu não tenho como tirar da minha vida. Vou reaprender a andar e, quando receber a prótese de atletismo, vou me reabilitar, aprender a correr novamente e dar o pontapé para iniciar nas provas de rua. Quero buscar uma força maior para eu poder conseguir uma vaga nas Paralimpíadas”.
O caso também teve desdobramentos na Justiça. O motorista envolvido, Cleydson Cardoso Costa Filho, de 26 anos, foi preso em flagrante apresentando sinais de embriaguez. Em setembro de 2025, ele se tornou réu por tentativa de homicídio com dolo eventual e obteve liberdade provisória. Paralelamente, Emerson move ação de indenização por danos materiais, morais e estéticos.
Além das limitações físicas, Emerson relata que ainda enfrenta consequências psicológicas do atropelamento.
“Eu ainda sinto medo nas ruas, porque a gente nunca sabe. Tem motorista do bem e motorista irresponsável. Hoje eu não saio só. Ainda não me adaptei para sair com a cadeira e também não tem estrutura boa para transitar. Antes estava sendo bem difícil dormir, porque sempre passava a cena do acidente. Hoje consigo dormir um pouco mais”.
O susto que muda a visão do trânsito
Outro episódio envolvendo imprudência no trânsito foi relatado pela assistente de faturamento Lorena Costa, de 29 anos. Ela sofreu um acidente no bairro da Federação, na ladeira em frente à Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), por volta das 7h20 da manhã, horário de pico no trânsito.
Segundo Lorena, um motociclista tentou ultrapassar veículos na contramão e acabou colidindo com a moto dela. “Estava subindo devagar e não tive como desviar porque tinha carro ao meu lado. Ele freou, eu já estava devagar e infelizmente não conseguimos evitar a colisão”.
Apesar do susto e dos danos materiais, ela não sofreu ferimentos graves. Ainda assim, o impacto emocional foi significativo.
“Ninguém teve nada demais, mas foi triste meu bem destruído”, disse, afirmando que o acidente trouxe mudanças importantes no seu dia a dia. “Eu moro longe do trabalho, estou tendo que sair mais cedo. Impactou em tudo, minha rotina, ansiedade, estou sem dormir”.
Os números por trás das tragédias
Os casos de Ian Peterson, Emerson Pinheiro e Lorena Costa refletem um cenário preocupante. De acordo com os dados mais recentes do Relatório Anual de Segurança Viária, divulgado pela Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador), em 2024 a maioria das vítimas feridas e fatais no trânsito foi de ocupantes de motocicletas. Foram 75 mortos e 3.550 feridos, representando 50,7% das mortes e 75,2% dos feridos.
Os números mostram um crescimento expressivo nos últimos anos. O total de motociclistas mortos passou de 50, em 2022, para 75, em 2024, um aumento de 50% em dois anos. O número de feridos saltou de 2.184 para 3.550 no mesmo período, alta de 62,5%.

Outro dado alarmante é o aumento das mortes de pedestres, que passaram de 36 em 2023 para 57 em 2024, 58% a mais em apenas um ano.
“Ocupantes de motocicletas e pedestres concentram a maior parte das vítimas fatais e feridas no trânsito de Salvador. O aumento acelerado das mortes entre esses grupos vulneráveis reforça a urgência de ações específicas de infraestrutura e fiscalização no trânsito”, apontou o relatório.
Homens são as principais vítimas fatais, representando 80% dos casos. Entre eles, 27% tinham entre 20 e 29 anos. Entre as mulheres, a mesma faixa etária também lidera, com 24% das mortes. Entre os feridos, os homens também são maioria, com 72%. Dentre eles, 28% têm entre 20 e 29 anos. Já entre as mulheres feridas, 20% estão nessa faixa etária.
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