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CADERNO 2

Alejandro González Iñarritu tira sarro de si próprio em 'Bardo'

Cineasta encanta com seu retorno triunfal – e surrealista – ao México

Bruno Santana*

Por Bruno Santana*

23/12/2022 - 5:00 h | Atualizada em 27/12/2022 - 13:50

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Documentarista consagrado retorna ao México e se vê acusado de ter se tornado americanizado
Documentarista consagrado retorna ao México e se vê acusado de ter se tornado americanizado -

"Pobre de quem não sabe voar". A frase é da novelista Glória Perez, que, ao ser questionada sobre as situações frequentemente inverossímeis das suas tramas, simplesmente culpou a falta de imaginação dos telespectadores. Longe de querer fazer aqui uma análise de obras como O Clone ou Travessia, o fato é que a afirmação também poderia se aplicar a uma outra figura: o cineasta mexicano Alejandro González Iñarritu — e, ainda mais especificamente, ao seu novo filme: Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades, que estreou semana passada na Netflix e sério candidato a filme do ano.

É bem verdade que Iñarritu não precisa mais provar nada para ninguém. Ele é uma das poucas pessoas no mundo a ter dois Oscars de Melhor Direção na prateleira – e é, junto com John Ford e Joseph L. Mankiewicz, um dos três únicos a conquistar os troféus em anos consecutivos (por Birdman e O Regresso).

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Além disso, o cineasta tem no bolso um prêmio de Melhor Direção em Cannes (por Babel), diversas outras estatuetas da indústria e amplo reconhecimento em Hollywood. Ainda assim, em Bardo, Iñarritu volta-se aos seus admiradores, aos seus críticos e aos seus pares para voar numa viagem deveras desnorteante e psicodélica sobre seus próprios conflitos, arrependimentos e manias.

Nada mais justo, portanto, que este seja o primeiro filme em 22 anos realizado por Iñarritu inteiramente no México, em língua espanhola e com um elenco exclusivamente mexicano. A ideia de volta para casa, aliás, está impressa em letras garrafais na própria sinopse metalinguística do filme: temos aqui a história de Silverio (Daniel Giménez Cacho, arrebatador), um premiado jornalista e documentarista mexicano que deixou seu país décadas atrás rumo aos Estados Unidos, conquistando fama internacional no processo.

Ao voltar para o México para receber um prêmio, Silverio é confrontado por seus compatriotas, que consideram que ele se vendeu e se distanciou da "genuína" cultura mexicana. A partir daí, o protagonista mergulha num caleidoscópio de memórias, festas, crises existenciais, velhos amigos (ou inimigos), familiares, situações surreais, recriações das suas obras anteriores e infinitas reiterações da mesma pergunta: a que lugar realmente pertence este homem, e o que ele fez da sua vida?

Uma Epopeia Mexicana

Em sua estreia mundial, no último Festival de Cannes, Bardo foi acusado de ser autoindulgente e pretensioso.

Azar dos críticos, entretanto, que Iñarritu já estava dez passos à frente deles: o filme é justamente uma análise – e uma piada – sobre o seu próprio autor, que nunca perde a oportunidade de tirar sarro das suas próprias escolhas artísticas ao longo das décadas e faz perguntas duras, por vezes espinhosas, aos seus espectadores, raramente concedendo respostas prontas.

É claro que um artista não se redime das suas falhas ou limitações simplesmente por reconhecê-las e satirizá-las. Ainda assim, o resultado final de Bardo (que, vale notar, teve vinte minutos cortados na mesa de edição após a recepção injustamente hostil de Cannes) é tão sincero, tão cativante, que é difícil não perdoar Iñarritu por quaisquer deslizes que você possa acusá-lo de ter cometido no passado.

Sim, ele continua sendo o ególatra megalomaníaco de sempre, talvez ainda mais que o usual – as comparações com 8½ e All That Jazz não são injustificadas –, mas a vulnerabilidade com a qual o cineasta se apresenta em seu sétimo longa-metragem é, no mínimo, desconcertante. Da maneira mais positiva possível.

O fato é que, em apenas 2h40 de projeção, Iñarritu parece querer tratar sobre tudo: temos reflexões sobre a história de violência da colonização mexicana, cutucadas sobre a relação cada vez mais comercial entre o país e os Estados Unidos, relações problemáticas entre pais e filhos, artistas torturados buscando por uma noção de identidade e tentando provar que não se venderam ao grande capital, discussões sobre imigração e a própria natureza de ser imigrante, questionamentos sobre a necessidade (ou não) do realismo na arte e muito mais.

Em mãos menos hábeis, tal mistura seria uma bagunça, mas Iñarritu faz com que o resultado seja não apenas onírico, elegante e coeso, mas simplesmente inevitável: ele – o diretor – é o que é justamente por conta do caminho que trilhou, e Bardo jamais poderia ser outra coisa enquanto análise de si próprio.

E é por isso, apenas por isso, que conseguimos encarar com naturalidade cenas como um feto que sai parcialmente da vagina da mãe durante uma cena de sexo oral, uma conversa com o conquistador espanhol Hernán Cortés ou uma sequência na qual Silverio, confrontado por seu pai já morto há décadas, é reduzido ao tamanho de uma criança, mas com as suas feições de homem de meia-idade preservadas.

Se as doses de metalinguagem não estavam claras o suficiente na própria trama do filme, Bardo se mostra como uma análise de Iñarritu – e da sua carreira – até mesmo em suas influências e referências. De certa forma, todos os filmes do diretor estão aqui: o humor sardônico de Birdman, a odisseia onírica de Biutiful, a jornada de auto-descoberta de O Regresso, as narrativas multifocais de Babel, 21 Gramas e Amores Brutos. Até a tomada inicial, na qual acompanhamos a visão de Silverio em primeira pessoa, tentando alçar voo num cenário desértico, parece ser uma deferência de Iñarritu ao seu projeto mais recente, a experiência em realidade virtual Carne y Arena.

Que bom, então, que as imagens conjuradas por Iñarritu trazem uma potência raramente vista no cinema contemporâneo. Em parceria com o diretor de fotografia Darius Khondji (aqui substituindo o lendário Emmanuel Lubezki, seu colaborador habitual), o cineasta transforma cada imagem, cada sequência, numa espécie de sonho filmado: as tomadas captadas com lentes grande-angulares distorcem os atores sem qualquer pudor, os movimentos vertiginosos e pouco usuais empregados pelas câmeras desorientam e os longos planos-sequência, marcas registradas de Iñarritu, seguem colaborando para o ar surrealista da narrativa, estabelecida quase como um fluxo de consciência.

Bardo, vale notar, era o termo utilizado em alguns países europeus para se referir à figura da pessoa cuja missão é transmitir as histórias e mitos do seu povo adiante, geralmente em forma de poemas e cânticos – não por menos, Shakespeare é frequentemente apelidado de O Bardo de Avon. Na Falsa Crônica de Umas Verdades contada por Iñarritu, o autor mexicano assume-se de vez como um bardo não apenas do seu povo, mas de todos os povos. E, ao mesmo tempo, ele é o bardo de povo nenhum. Apenas de si mesmo.

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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