Busca interna do iBahia
HOME > CADERNO 2
Ouvir Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

CADERNO 2

Escritora aborda relação de pessoas em situação de rua e descaso

Patrícia Melo lança a obra "Menos Que Um", sobre a realidade de quem vive o Brasil como ele realmente é

Júlia Lobo*

Por Júlia Lobo*

24/05/2022 - 6:07 h

Siga o A TARDE no Google

Google icon
Patrícia: “Pessoa de rua morrer de frio, isso não é natural”
Patrícia: “Pessoa de rua morrer de frio, isso não é natural” -

A tragédia brasileira por excelência é o tema da mais nova obra da escritora paulista Patrícia Melo, 59. Lançada neste mês pela editora LeYa, Menos Que Um é apresentada como um romance – nem tão romântico assim – sobre a realidade de quem vive o Brasil como ele realmente é.

O país é revelado através de personagens camelôs, catadores, desempregados, moradores de rua e tantas outras pessoas diariamente invisibilizadas pelo poder público e, também, por nós mesmos.

Tudo sobre Caderno 2 em primeira mão!
Entre no canal do WhatsApp.

Segundo Melo, Menos Que Um foi “muito difícil”. Não só por falar das desigualdades e violências sociais que nos cercam, mas por trazer a temática através de figuras que, à nossas vistas comuns no cotidiano, são mais complexas do que imaginamos.

“Não é só bebida, droga, vícios que colocam as pessoas na rua, são vários fatores, cada um tem uma história e a cidade trata como apenas mais um, mas não, existem problemas econômicos, sociais e culturais. Olha como está nossa economia, nos puxando para o esgoto, desemprego, as pessoas não conseguem se alimentar direito, é uma tragédia”, diz Patrícia.

Invisíveis

Com diversos personagens, como a jovem faxineira Jéssica, Chilves, namorado dela e catador, ou até mesmo o sepultador Douglas, a autora decide começar a narrativa a partir de Seco Chacoy. Ele é venezuelano e trabalha no serviço de limpeza na prefeitura de São Paulo, onde a história é ambientada.

Cheio de dores devido a hérnia de disco, Seco não arrisca nem pedir licença para realizar uma cirurgia porque o chefe já deixou o recado que deveria trabalhar de “bico calado”. E desse jeito ele ia, no caminhão pipa, lavar as ruas e calçadas do centro da cidade.

“Primeiro eu queria mostrar como a cidade trata os moradores de rua, ela quer tirá-los de qualquer jeito. É como se quem estivesse ali fosse apenas por questões particulares, mas isso é um problema público. Não dá pra trazer esse assunto sem mostrar como o poder público trata essas pessoas, não existe assistência, política, apenas ‘limpam’ como sujeira”, explica Melo.

Seco Chacoy, no entanto, é apenas uma parte do todo. Logo depois, Patrícia apresenta ao leitor as vivências cada um: a relação entre a sonhadora Jéssica e o catador Chilves, a família de Douglas, com a mulher Regiana – que já perdeu a fé mas às vezes lê a Bíblia – o morador de rua Iraquitan, que queria ser escritor e Glenda, que só queria viver como a mulher que sempre foi.

“São essas pessoas que vivem completamente à margem da sociedade, completamente ignoradas pelo Estado, e que ficam numa trajetória flutuante da rua para os albergues, dos albergues para prisão, para esses pontos de apoio que eles têm, das ONGs, daquelas tímidas investidas em políticas sociais, albergues, refeitórios públicos. Eles ficam flutuantes, nessa trajetória sem um real apoio do estado”, fala Patrícia sobre a trama.

Existências tecidas

São vidas e suas relações com a rua contadas em mais de 300 páginas. Para a autora, reconhecida pela literatura de ficção urbana baseada no retrato social do país, nenhum personagem é fácil de construir.

Ainda mais em uma obra de quase dois anos de trabalho, desde pesquisas até a escrita.

Menos Que Um é resultado de entrevistas com ativistas pelos direitos humanos, visita a ocupações e relatos de quem já sobreviveu em situação de rua. Localizado no centro do Rio de Janeiro, a Ocupação Benjamin Filho – dedicada à formação cultural de crianças e adolescentes em vulnerabilidade social – foi um espaço visitado por Patrícia e de grande importância para na obra.

Melo escreveu o livro na Suíça, onde mora há mais de oito anos, e acredita que a distância foi imprescindível para manter uma visão caleidoscópica: “costurando a vida dessas pessoas uma na outra”, como relata a escritora. Além da realidade precária que vivenciam, a linguagem também foi um instrumento de aproximação entre os personagens.

Iraquitan, o personagem que deseja ser escritor, guarda em seu caderno algumas regras sobre como se comportar no abrigo Casa Nova Família Cristã. Uma delas é não falar gírias, como treta, barango, bicudo, embaçado de quebrada, chapar, breguete e várias outras censuradas. No entanto, ele preferiu voltar para o lado da sua “maloca” do que ser proibido de ser quem era.

Encarar a realidade

Outro fato que impactou a construção da obra foi a pandemia, que ampliou desigualdades econômicas.

A urgência do tema fica visível para a autora, que acredita não ser possível se separar da realidade no trabalho do escritor se separar.

“É menos que um ser humano, é essa vida nua, a vida sem valor, a vida cujo valor o estado não reconhece, a sociedade não se importa com essas pessoas, elas vivem à margem, vem a pandemia e elas estão aí, se morrerem, morrem, porque o estado não faz nada por elas”, afirma Patrícia, que aproxima o tema ao episódio recente que aconteceu no dia 18 de maio, quarta-feira, com a morte de Isaías de Faria, 66, em São Paulo.

“Quando uma pessoa de rua morre de frio, isso não pode ser visto como morte de causa natural, ela é assassinada. É a vida no total abandono”, entende Melo.

O título do livro, Menos Que Um, faz referência a uma coletânea literária do poeta russo Joseph Brodsky. Nela, a temática é sobre a supressão do ‘eu’ durante a União Soviética.

Na obra, ela faz o retrato da vida de coletores de materiais recicláveis, crianças abandonadas, flanelinhas, guardadores de carros, desempregados, mendigos, prostitutas e toda uma comunidade que acabou em situação de rua por conta de uma tragédia pessoal e social.

“No meu caso, o ‘menos que um’ é também uma supressão da realidade, em função da miséria social vivida hoje. Tem um filósofo italiano, o Giorgio Agamben, que tem o conceito de vida nua, que é a vida completamente destituída de valor, a vida cuja morte ninguém chora”, finaliza Melo.

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.

Participe também do nosso canal no WhatsApp.

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Email Compartilhar no X Compartilhar no Facebook Compartilhar no Whatsapp

Siga nossas redes

Siga nossas redes

Publicações Relacionadas

A tarde play
Patrícia: “Pessoa de rua morrer de frio, isso não é natural”
Play

Ilha de Itaparica recebe gravações de filme "Melodia do Amor"

x