Lançado no Festival de Cannes, 'Crimes do Futuro' estreia no Brasil

David Cronenberg retorna ao body horror e reflete sobre a dessensibilização do ser humano perante a violência e o sexo

Publicado quarta-feira, 13 de julho de 2022 às 06:30 h | Atualizado em 13/07/2022, 00:28 | Autor: João Gabriel Veiga*
Kristen Stewart e Léa Seydoux: a policial investiga a artista do corpo
Kristen Stewart e Léa Seydoux: a policial investiga a artista do corpo -

David Cronenberg entende que o corpo é político. É através desse amontoado de ossos, músculos, cartilagens e tecidos que somos percebidos pelo mundo, é com ele que nos movimentamos pela vida. É esse corpo que nos é dado no nascimento que dita como as pessoas tratam umas às outras, que implica em identidades e, portanto, visões diferentes da realidade. Fazemos registros fotográficos diariamente do corpo, do rosto para mandar uma mensagem para o mundo: “eu estou aqui e este sou eu”. Em Crimes do Futuro, o diretor canadense cria um circo de cirurgias plásticas para comentar essa política corporal.

Conhecido por abordar o body horror (um subtipo do terror que explora uma visão gráfica e psicologicamente perturbadora do corpo humano) em seu cinema, Cronenberg retorna a esse nicho de uma maneira mais reflexiva, buscando entender o apelo desse elemento. O mundo de Crimes do Futuro é uma visão devastada da atualidade. Desastres ambientais afetaram a fisiologia humana, e agora as pessoas não sentem mais dor (algumas sentem ao sonhar, mas são exceções), e tudo se tornou mais brutal. Os encontros sexuais estão mais violentos e a cirurgia plástica levada ao extremo se tornou algo tão banal quanto a maquiagem e a moda.

No centro desse universo, está uma dupla de artistas performáticos. Saul Tenser é o corpo da dupla, e seu organismo passa por inexplicáveis mutações, criando órgãos novos diferentes de quaisquer outros já vistos. Caprice é a mente, que cria o conceito das apresentações e tatua esses órgãos. 

Juntos, eles performam cirurgias de remoção desses possíveis tumores para uma audiência que aguarda por esses momentos e enxerga mil e um significados nessas criações do corpo de Saul. Tudo sem anestesia – afinal, a dor é uma relíquia do passado.

Quando Saul entra em crise criativa (ou melhor, biológica), a dupla se encontra no meio de duas intrigas misteriosas. Por um lado, surge uma nova divisão governamental, os Novos Crimes, que está interessada demais nas mutações geradas involuntariamente pelo artista. Lá, eles acreditam, está a resposta para a evolução da humanidade. Do outro lado, a morte de uma criança com um distúrbio similar ao de Saul faz com que o homem suspeite que os admiradores de sua arte estejam começando a ver sentidos perigosos e subversivos demais — e que a vida está a imitar a arte.

Entre suas tentativas de fugir da primeira conspiração e investigar a segunda, Saul é o guia do espectador no submundo das artes corporais e das aventuras sexuais desse futuro. Esse é um mundo onde, para protestar contra a falta de comunicação entre as pessoas, um artista decide implantar inúmeras orelhas ao redor de seu corpo. Para apimentar a relação, casais começam a cortar uns aos outros em práticas cada vez mais violentas. A violência em si está ainda mais enraizada. Então, Saul se pergunta: qual é o sentido disso tudo? O que significa essa violência? O que significam nossos corpos e o que fazemos com eles?

Para além daquele mundo fictício, Cronenberg direciona essa pergunta para si mesmo e para aqueles assistindo. O corpo se tornou um campo de guerra no século 21. A violência contra ele tem sido cada vez mais anestesiada. Um filme direcionado para a faixa etária dos 12 anos pode conter cenas de lutas, sangue, mortes, e cada vez mais surgem formas de retratar violência de forma dessensibilizada, sem chocar o público. Uma violência descolada de significado real, onde os que morrem e apanham são meros objetos de cena.

Ao mesmo tempo, a consciência sobre o papel do corpo e sua apresentação têm aumentado na mídia e na cultura. Em um universo midiático de estímulos constantes, o corpo se tornou maleável — ele precisa o ser para que as interações mediadas por telas e compartilhamentos continuem a todo vapor. Com um filtro do Instagram, o indivíduo pode afinar o nariz, aparentar ter a pele lisa, outra cor de cabelo. As celebridades se tornaram devotas dos procedimentos cosméticos — mesmo aqueles que requerem que o paciente assine um termo isentando o médico de eventuais acidentes cirúrgicos, incluindo uma morte —, e exibem novos narizes, cinturas, maxilares…

Tom melancólico

O corpo significa algo. Ele manda uma mensagem política, social e cultural para todos que o vêem. E nós podemos mudá-lo, transformá-lo, num ritmo permitido pela tecnologia que é semelhante ao crescimento involuntário de um novo órgão. Essa apropriação, essa mudança de postura em relação ao corpo implica também em uma nova relação com o mundo. Em Crimes do Futuro, os personagens se relacionam através do Novo Sexo e dos Novos Crimes – pois aquilo que conhecemos como tal não compreendem mais as novas práticas que surgem no universo do filme, e diversos personagens admitem não saber como praticar o Sexo Antigo.

No entanto, a forma com que Cronenberg aborda essas questões e o body horror se diferencia do humor satírico de Videodrome - A Síndrome do Vídeo (1983) e do terror de A Mosca (1986), clássicos do realizador. Crimes do Futuro, apesar das imagens de corpos sendo abertos em camas cirurgicas e ferimentos, não parece querer chocar, optando por uma atmosfera mais elegante e misteriosa como as dos mistérios noir.

A película é convidativa, sugerindo mais sobre o extremismo físico do que de fato retratando cenas chocantes. Seu tom chega a ser melancólico, uma vez que vemos aquele universo através dos olhos de Saul, um homem atormentado pelas mudanças repentinas no interior de seu corpo – porém mais perturbado ainda pela forma que ele é exibido para as plateias como se fosse um manequim, um quadro, um objeto.

O mistério duplo que Saul investiga se confunde muitas vezes com a jornada de autodescoberta do artista nesta encruzilhada entre o que seu corpo significa para todos ao seu redor e o que significa para ele mesmo. Esse embate é encapsulado em uma sequência em preto-e-branco focando no misto de agonia e prazer estampados no rosto do ator Viggo Mortensen, fotografado de uma maneira que parece referenciar Maria Falconetti no clássico A Paixão de Joana d'Arc (1928).

Crimes do Futuro desenvolve suas ideias com assertividade, as embalando em um ritmo um pouco lento, porém envolvente. Suas figuras são excêntricas (como a sempre fantástica Kristen Stewart no papel de uma agente da divisão de Novos Crimes que se torna obcecada por Saul), mas Cronenberg dedica tempo para compreender o que cada um daqueles personagens defende em seu emaranhado de perguntas. O filme pode não trazer respostas para a questão da dessensibilização da vida humana, mas impõe suas perguntas de uma maneira que é impossível não pensar por caminhos fascinantes.

*Sob a supervisão do editor Chico Castro Jr.

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