CADERNO 2
Premiado autor baiano Franklin Carvalho lança novo livro
"Onde Eu Estava com a Minha Cabeça" tem lançamento nesta quinta-feira, 13, no Goethe-Institut

O bom jornalista e o bom cronista são aquelas pessoas que, além de escrever bem, são capazes de ouvir bem. É ouvindo o que as pessoas falam – e reproduzindo com fidelidade essas falas – que grandes crônicas e reportagens são escritas. O escritor baiano Franklin Carvalho demonstra essas duas capacidades (ouvir e escrever bem) no novo livro, Onde Eu Estava com a Minha Cabeça, com lançamento nesta quinta-feira, 13, no Goethe-Institut.
Não que ainda pairasse dúvida quanto à capacidade do jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia: autor dos livros independentes de contos Câmara e Cadeia (2004) e O Encourado (2009), ele viu o primeiro romance Céus e Terra (Record, 2016), ser duplamente laureado com o Prêmio Sesc 2016 e o Prêmio São Paulo de Literatura 2017, na categoria Estreantes, já com mais de 40 anos.
Na pandemia, lançou o livro de contos A Ordem Interior do Mundo (2020) e, no ano seguinte, o romance Eu que Não Amo Ninguém. Enquanto esses livros ganhavam o mundo em pleno caos da Covid-19, Franklin se recolheu em um sítio na cidade natal, a sertaneja Araci, 210 quilômetros ao noroeste de Salvador.
Sozinho no mato, ele aprendeu a conversar com gatos, aranhas e outros insetos, e registrou histórias cabeludas que as poucas visitas traziam, como a de um cemitério que afundou e liberou assombrações em um povoado da região. Também o caro comércio de passarinhos cantores, a nova comunicação entre os pequenos aglomerados rurais, com tráfico, motos e carências diversas, e os saques a caminhões nas pistas de asfalto.
Acaso, humor, labuta
Foi lá, ouvindo o que o povo falava, que Franklin redigiu essas e outras histórias, agora disponíveis em Onde Eu Estava com a Minha Cabeça.
Mas que o leitor não se engane: este não é só um livro de “causos”. Além dos textos inéditos, registrados em Araci, Onde Eu Estava... traz diversas crônicas publicadas em A TARDE, no suplemento dominical de variedades Muito+.
Nestas, predomina o contexto do centro de Salvador, com um grande número de idosos que vagam sozinhos pelas praças, entregadores de aplicativos e moradores de antigos edifícios que vivem em ambiente caótico, mas tentam se ajudar nas situações extremas.
A cidade é sempre objeto de reflexão, aparecendo como um monstro que diariamente desafia os habitantes.
“Guimarães Rosa já escreveu que viver é muito perigoso, e eu endosso isso, sou cheio de cautelas e tímido como todo sertanejo”, afirma o autor.
“Contudo, tanto no sertão como na capital, é preciso apurar o ouvido para escapar de tiro, de onça, de atropelo por automóvel, das intrigas e de assombrações. É preciso ouvir as verdades e mentiras que o povo conta e tomar as duas como importantes, porque a intenção também tem consequências. De tudo aproveitamos um pouco”, detalha.
Outros dois fatores também muito importantes na escrita de Franklin são acaso e humor. O primeiro é sempre perseguido pelo autor, a fim de fazer o leitor enxergar nele as possibilidades infinitas e o absurdo diário em que estamos metidos. Já o segundo parece ser mais uma consequência do acaso.
“Busco tirar humor de pedras, até onde a situação permite. Quando não é possível, cavar alguma poesia”, diz.
Sempre na atividade, Franklin já se encontra labutando no seu próximo romance. “Sou um operário das letras que escreve para outros operários, e eles me lerão no seu cotidiano não tão diferente”, conclui.
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